O professor de literatura René Étiemble (1909–2020), da Sorbone, empenhou-se há anos numa luta contra a descaracterização da língua francesa pela invasão de palavras anglo-americanas. No livro Parlez-vous franglais?, propunha defender não apenas o idioma, mas a cultura e o modo de viver dos franceses. “Não são apenas palavras de empréstimo que se insinuam no francês — dizia Étiemble — mas, na verdade, trata-se de uma doença metastática que corrói a pronúncia, o léxico, a morfologia, a sintaxe e o estilo”. E dois terços dos gauleses são favoráveis à instituição de uma terapêutica radical contra essa grave doença.
Antoine Rivarol (1753-1801), escritor e linguista, dizia que “o que não é claro não é francês”, mas Étiemble não chegava a tanto, pois afirmava que nenhum idioma é autossuficiente e não pode dispensar verbetes alienígenas a fim de se manter vivo, mas a admissão indiscriminada de catadupas de palavras com grafia, pronúncia, forma e flexão diversas da língua original pode seriamente prejudicá-la, embotando a criatividade linguística e obstruindo as fontes genuínas de enriquecimento e renovação.
A linguagem é uma estrutura de grande complexidade, definidora da sociabilidade humanizadora e cultural da espécie. Afinal, ela foi o principal veículo transmissor da cultura a garantir a sobrevivência e supremacia desse ramo de primatas ao qual pertencemos. E a diversidade das culturas criadas através dos tempos é que fez surgir milhares de idiomas que possuem signos linguísticos diversos e expressam modos de pensar, de sentir e de interpretar o mundo.
Esse é o sentido profundo de uma comunidade idiomática específica: o de ter imagens e visões peculiares do homem e de seus universos cósmico e mental. Por estes motivos, é que quando uma língua se extingue, perdem-se milhares de anos da história e do desenvolvimento cultural e psicobiossocial de todo um povo.
Se o desaparecimento de línguas prosseguir no ritmo atual, o futuro nos reservará não somente uma uniformização linguística, mas cultural, ética, estética e mesmo ideológica.
Observe-se que certos objetos toscos e concretos de uso diário têm a mesma ou semelhante grafia em idiomas de países vizinhos, mas variam, frequentemente, na sua utilização e no seu significado. Então, se tais diferenças já se manifestam na designação de singelos e práticos objetos, imagine-se o que ocorrerá naqueles voláteis e complexos conceitos que expressam a refinada elaboração do pensamento, tais como o bem e o mal, a liberdade, as prerrogativas individuais como o direito à vida e todos os juízos de valores nos seus mais amplos significados.
Para George Steiner (1929-2020), se os funerais linguísticos continuarem com a frequência atual, os seis mil idiomas existentes, dentro de poucos séculos, serão reduzidos a uma algaravia pobre e uniforme. E assim, perderemos um preciosíssimo acervo de nossa milenar e diversificada herança cultural que, na verdade, deu relevante e fundamental contribuição para o atual estágio civilizatório da humanidade.
Enfim, a luta pela manutenção de variados idiomas e culturas talvez seja decisiva para a resistência dos povos à uniformização totalitária, não apenas linguística, mas de estilos de vida, de condutas éticas, estéticas e, certamente, das liberdades de expressão e de pensamento.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

