IKIGAI é uma palavra japonesa muitas vezes traduzida como “razão de viver”. Mas, em sua origem, não se trata de um objetivo a ser alcançado nem de um plano individual de sucesso. IKIGAI é uma experiência cotidiana de sentido, cultivada na relação entre presença, cuidado e contribuição para a vida. Ele não se impõe, não se acelera e não se mede. Ele se revela quando há escuta. E escutar, hoje, é um ato radical.
Quando o IKIGAI é compreendido para além das leituras utilitárias, ele deixa de ser individual e passa a ser um campo relacional. O sentido não nasce isolado. Ele emerge entre pessoas, histórias, silêncios e territórios. Essa compreensão encontra prática concreta nas Rodas de Conversa COcriativas do Coletivo POA Inquieta, onde sentar em roda é uma ética: ninguém ocupa o centro sozinho, e toda escuta reorganiza o campo.
Nas rodas do POA Inquieta, o IKIGAI deixa de ser conceito e passa a ser vivido. Cada fala carrega uma trajetória. Cada pausa devolve dignidade ao tempo. Cada escuta ativa sustenta pertencimento. O sentido não é dado, ele é cocriado.
Ao longo da minha trajetória no design, compreendi que projetar é mais do que desenhar formas ou resolver problemas. Projetar é assumir que nenhum traço nasce isolado. Cada gesto carrega ecos do passado e sementes de futuros invisíveis. Essa consciência nasce também da minha própria travessia identitária: filho da cultura japonesa, formado no Sul do Brasil, vivendo entre rigor oriental e sensibilidade gaúcha. Um Japaucho, não como rótulo, mas como estado de passagem entre mundos.
Essa travessia ganhou forma pública no TEDx Unisinos 2016, quando apresentei a fala design e a deriva da vida. Ali, propus o deslocamento da obsessão por controle para a confiança no percurso. A deriva não é perda de sentido; é abertura ao aprendizado. Assim como na vida, no design raramente sabemos exatamente onde vamos chegar. Mas sabemos como queremos caminhar. Com escuta, responsabilidade e presença.
A ideia de deriva dialoga profundamente com a experiência das rodas de conversa. Não se chega com respostas prontas. Chega-se com corpo, história e disposição para escutar. O IKIGAI se manifesta menos no destino e mais no modo de caminhar juntos, respeitando tempos, diferenças e silêncios.
É desse lugar que emerge o que chamo de oração do design: uma intenção silenciosa antes da forma, um compromisso ético com a vida que atravessa qualquer projeto. Nas rodas, essa oração se traduz em escuta horizontal, suspensão do julgamento e cuidado com o campo relacional. Criar, aqui, não é afirmar autoria, mas sustentar vínculos.
Essa postura encontra estrutura no COdesign Transgeracional©️, que reconhece o design como um fluxo entre gerações, corpos, culturas e tempos. Criar não é inaugurar algo do zero, mas honrar quem veio antes — os visíveis e os invisibilizados — e cuidar para que aquilo que nasce hoje não interrompa o fluxo dos que ainda virão. O IKIGAI, nesse contexto, deixa de ser individual e passa a ser sistêmico.
Tudo isso converge para um princípio simples e exigente: o bem-ser antes do bem-estar. Bem-estar pode ser conforto ou alívio momentâneo. Bem-ser é coerência. É saúde profunda. É serenidade construída em relação. Um design alinhado ao IKIGAI não acelera a cidade; ele a torna habitável.
Encerrar essa reflexão não significa concluir. Significa abrir espaço, como em uma roda. Por isso, deixo algumas perguntas silenciosas, sem respostas imediatas, não como método, mas como convite reflexivo no coletivo:
• O que em nossa vida pede pausa antes de pedir solução?
• A serviço de quê, e de quem, estão nossas escolhas?
• Que heranças honramos conscientemente e quais repetimos sem perceber?
• Onde nosso talento encontra cuidado, e não exaustão?
• O que precisamos deixar de controlar para voltar a escutar?
Talvez o IKIGAI não esteja em encontrar respostas, mas em habitar boas perguntas juntos. E seguir, com humildade, desenhando a vida e a cidade como quem faz uma oração, silenciosa, relacional e profundamente humana.
Edson Matsuo honra a transgeracionalidade de seu pai japonês, Mitsuo Matsuo, e de sua mãe, Shigeco Uyeno Matsuo. Matsuo (松尾), “rastro do pinheiro”, simboliza permanência, resiliência e continuidade — valores que atravessam sua trajetória pessoal e profissional. Pai de Simone e Andrea (não nascidas) e de Pedro e Angelo, com Sofia Matsuo. Arquiteto e urbanista, é mestrando em Pedagogia e Psicologia Sistêmica pela CUDEC, no México. Construiu um “doutorado informal em design de prática” ao longo de quase 40 anos na Grendene, onde ingressou em 1984 e cocriou a Cultura de Design da empresa, com impacto na Serra gaúcha e no RS. É grato por ter se tornado um “Japaúcho”, acolhido pelo povo gaúcho no início dos anos 1980. Integrante e articulador do POA Inquieta, a convite de Cézar Paz, integrou a primeira comitiva de inovação social à Medellín. Seu IKIGAI — a razão de acordar todos os dias — é amar, descobrir junto com alguém e fazer perguntas sem respostas imediatas. Atua na Matsuo+CO com COdesign Transgeracional no setor industrial e é cofundador da empresa ao lado de Angelo Matsuo.
Todos os textos dos membros do POA Inquieta estão AQUI.
Foto de Capa: Edson Matsuo em Ogimi, Okinawa (Japão), março de 2025 — berço do IKIGAI.

