Menino de cinco anos mata a mãe com a arma do pai. Veja o vídeo.
Os mais velhos aí dentre vocês devem lembrar de Faces da Morte. Vocês lembram de Faces da Morte?
Para os mais jovens, a explicação necessária é que Faces da Morte foi uma espécie de “viral” de baixa tecnologia antes mesmo de haver a internet e, portanto, o próprio conceito de viral. Era um filme, uma produção assemelhada a um documentário, que misturava uma nesga de linha mestra sobre… bem, o título é bem direto, sobre as “faces da morte”. Um cirurgião patologista – também creditado como “consultor do filme”, mas que na verdade era um personagem vivido por um ator – era o narrador, que abria a produção declarando que havia se dedicado por vinte anos a refletir sobre as diferentes “faces da morte”, e que agora apresentaria o resultado daquelas pesquisas – seguindo-se então a exibição de mortes de humanos e animais com uma crueza impactante.
Lançado no fim dos anos 1970, Faces da morte se tornou um fenômeno de público com o advento da tecnologia de videocassete a partir dos anos 1980, ajudado por um perfume calculado de escândalo. A própria caixa do VHS já anunciava, como um emblema de honra, que aquele filme havia sido proibido em punhado de países (não me lembro o número exato). Não era uma fita que nós, adolescentes da época, conseguíamos “tirar” impunemente em qualquer locadora. Esse era um daqueles filmes que você só podia alugar com a presença de um adulto responsável, e nenhum adulto responsável da época alugaria aquela fita para ser vista por um adolescente com mais curiosidade do que juízo. Assim, para além de algum vago primo irresponsável que nos facultasse o acesso à fita clandestinamente (o que também era meio difícil numa cidade em que todo mundo meio que conhecia todo mundo), muitos de nós assistimos a versões pirata do filme, cheias de ranhuras ou faltando algum pedaço.
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Em que pese o caráter algo mambembe da produção, havia um cuidado posto na narrativa “documental” que mantinha a narrativa coesa, mas o filme intercalava essa parte com cenas ditas reais de mortes brutais capturadas de modo direto e “espontâneo”. Uma parte da narrativa se dedica à violência fatal dos humanos contra os animais. Integrantes de uma tribo Massai na África (não é especificada uma região) matam um boi ritualisticamente com uma flecha no pescoço e bebem seu sangue. Uma mulher em uma fazenda no Ocidente (também sem especificação de local) corta a cabeça de uma galinha com um machado – o corpo decapitado é mostrado pulando na agonia dos impulsos nervosos post-mortem. Cenas reais de massacres de animais em matadouros. Caçadores matam e esfolam focas e jacarés. Um grupo bem-vestido em um restaurante come o cérebro de um macaco ainda no crânio (fico pensando se essa cena específica não inspirou Steven Spielberg a criar uma sequência parecida em Indiana Jones e o Templo da Perdição, lançado alguns anos depois de Faces da Morte).
Mas o filme também se dedica às mortes que os humanos infligem à própria espécie. Cenas de reportagens de TV sobre assassinos enlouquecidos mortos em tiroteios com a polícia. Uma entrevista com um legista explicando detalhadamente os processos de autópsia e conservação de cadáveres (com imagens vívidas); cadáveres mumificados em Guanajuato, devido às condições do solo; um homem morto na cadeira elétrica; os mortos do Holocausto; os mortos de uma epidemia arrasadora na Índia; um cinegrafista imprudente atacado por um urso; um paraquedista que atinge o solo em velocidade terminal porque seu paraquedas não abriu. A queda de um Boeing tripulado no bairro de North Park, em San Diego, com direito a closes de pedaços de corpos espalhados. No fim, após ter mostrado em detalhes grotescos várias “faces da morte”, o documentário se torna metafísico e especula sobre a existência de um “além”.
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O que realmente provocava a curiosidade daqueles que iam atrás da fita não eram suas supostas reflexões sobre as várias formas de morrer ou sua qualidade cinematográfica, mas o “verismo” sanguinolento de suas cenas. Na época, sem a circulação caudalosa de informação existente hoje, não tínhamos como saber que Faces da Morte era um filme, mas não um documentário. Boa parte do seu material era encenada com efeitos especiais, misturado a outras cenas reais compradas de agências de notícias. O narrador/pesquisador chamado Frances B. Gross (nome que a maioria de nós não captou como a piada que era, já que B. Gross pode ser lido em inglês como “seja nojento”) era interpretado por um ator de TV chamado Michael Carr, que nas décadas anteriores havia trabalhado em um sem-número de séries, reprisando quase sempre os mesmos papéis: militar, policial e caubói.
Faces da Morte (e suas sequências posteriores, nas quais o absurdo das situações retratadas tornava mais difícil confundir suas imagens com filmagens reais) era o equivalente sério do que se chamaria “mockumentary“, um documentário de fachada que usa os códigos desse tipo de filme para contar uma história inventada como se fosse real. Os “documentários de zoeira”, como This is… Spinal Tap, costumam usar esse recurso de subverter o “pacto da verdade” esperado entre um determinado tipo de filme e o público para provocar humor (já falei disso, aliás, aqui). Faces da morte seria o exemplar macabro que, usando a desculpa de uma investigação séria, trazia para o público gore sensacionalista como poucas vezes visto antes.
Jovem morre ao ser baleado em bar de Rio Verde. Veja vídeo.
Lá no fim dos anos 1990, quando eu entrei na Zero Hora, houve um atentado a bomba do qual não me lembro exatamente os detalhes, talvez fosse em Israel, talvez fossem os ataques à embaixada dos Estados Unidos no Quênia. O Jornal estampou uma foto vertical (modelo “retrato”) de cima abaixo na sua capa, mostrando o escopo da destruição. Se não me engano a foto foi escolhida pelo Ricardo Chaves, o Kadão, de quem já falei aqui também. Eu não me lembro se Kadão não percebeu ao analisar a foto na miniatura que veio da agência para análise ou se ele percebeu e considerou que o impacto da foto valia a publicação, mas era bem visível no canto direito da foto o corpo meio despedaçado de uma das vítimas jogado sobre uma cerca ou uma mureta. Aliás, analisado tecnicamente, poderia ser dito que esse detalhe específico estava no primeiro plano da foto, embora não fosse aquilo que realmente chamasse a atenção devido à cuidadosa composição.
No dia em que a foto foi publicada, seu tamanho maximizado na página, tornando o cadáver bastante visível, a redação estava em polvorosa. Cartas e telefonemas de leitores (e até alguns e-mails, essa coisa que recém nascia) reclamavam do que consideravam uma exposição apelativa. A editora-chefe que enviava no correio interno diariamente uma espécie de “newsletter da humilhação”, antes que houvesse newsletter como as conhecemos hoje, dedicou um amplo espaço para criticar a escolha devido a seu caráter sensacionalista.
Isso, claro, é uma história antiga e ocorreu em um tempo em que jornalistas de redação impressa ainda olhavam com uma certa superioridade para os elementos intrínsecos que tornam o jornalismo televisivo superficial e limitado. Você depende da imagem, e a menos que o Papa tenha morrido no meio de um ato sexual libidinoso, não importa a importância da notícia, ela terá espaço reduzido se não houver uma imagem cativante que a sustente (parte da notória má qualidade da cobertura política e econômica do jornalismo televisivo vem daí, aliás – outra boa parte é pressão de interesses dos donos das corporações, claro). E a TV sempre se equilibra no fio da navalha da busca por audiência, cedendo muitas vezes a cobrir notícias sem qualquer relevância para além do episódico, porque é isso que alavanca os números, no fim das contas.
Óbvio, com o advento da internet, essa ferramenta que foi boa para a maioria das coisas, menos para o jornalismo, essa visão algo condescendente, embora não de todo equivocada, é coisa do passado, e hoje sites de notícias de antigos veículos tradicionais estão correndo atrás da audiência em tempo real tanto quanto qualquer produtor estressado de TV. E fazendo coisa muito pior do que a televisão, aliás, que pelo menos desenvolveu protocolos mais ou menos sólidos ao longo de suas décadas de existência. Hoje, muito do jornalismo online de veículos, sites e portais assenta-se na sua própria versão pessoal de Faces da Morte: usando o jornalismo como desculpa para exibição de vídeos chocantes e gratuitamente apelativos. Eu me pergunto se alguma discussão interna semelhante à da foto do atentado nos anos 1990 vem sendo feita nas redações hoje em dia – e se sim, quais seriam os termos, porque a preocupação com a “propriedade” da notícia parece estar perdendo de goleada.
Avião da FAB cai no interior de São Paulo. Veja vídeo
Todas as manchetes que eu espalhei por este texto foram tiradas de publicações reais de veículos reais (inclusive aquele no qual eu trabalhei). Em todas, o mesmo apelo mórbido ao leitor: “Aconteceu uma coisa grotescamente violenta ou surpreendentemente trágica, olha aqui, a gente tem o vídeo, vem ver e turbinar nossas métricas.”
Embora sejam guerreiros da transparência, jornalistas não gostam muito de ser transparentes sobre suas próprias questões, e uma delas é essa aqui: a mídia hegemônica é cagalhona. Ela quer a audiência, os views, a leitura, os cliques, mas, ao mesmo tempo, vende uma reputação que se pretende mais respeitável do que a de um idiota qualquer com um perfil no TikTok. Sempre foi assim, na época em que jornal de papel não era uma memória de tempos idos, sempre houve tensão entre o jornalismo da grande imprensa e o de exemplares tópicos do chamado “jornalismo marrom”, como o Notícias Populares ou as capas do Meia Hora. A questão nem é defender a patuleia, mas a crítica “de cima” feita pelos jornais tradicionais simplesmente partia do lugar errado. A maioria das grandes redações tinha o mesmo problema de fundo do antigo NP, ou seja: uma editoria policial que criminaliza as classes mais baixas e vê o crime ainda como episódios fortuito fruto de algum surto ou malícia individual. A diferença era que os jornais mais “sérios” não estampavam cabeças decepadas na sua capa.
Ainda nos anos 1990, um deputado gaúcho que se vendia como uma voz da segurança pública foi parado com a documentação irregular numa barreira da Polícia Rodoviária Federal e teve um surto de destempero, mandando os policiais que o abordaram “se foder” e “tomar no cu”. Um dos agentes tinha um gravador no bolso, o áudio vazou e logo a coisa era notícia. E era, havia ali todos os bons elementos para qualificar o tema como de interesse público. O deputado era um agente público revoltado por ser alvo do cumprimento da lei e exigindo tratamento especial por sua suposta vinculação com a causa dos policiais que o abordavam. Mas tinha o lance das palavras de “baixo calão”. Assim, foi publicada no jornal a íntegra do áudio, mas na hora dar nome ao cu, ou melhor, aos bois, justamente por esse pudor burguês inescapável do jornal tradicional, estava lá na página: “Vai tomar no c*”. Como se o asterisco alterasse o sentido do que se lê. O jornalismo outrora grande é cagalhão porque tateia entre o pudor e a necessidade de chamar a atenção do público.
Isso se reflete nessa febre contemporânea de cortejar os instintos mais baixos da audiência enquanto ainda tenta se diferenciar da massa amorfa da internet em busca de cliques. Embora as manchetes digam “veja o vídeo”, os primeiros minutos e a capa de qualquer um deles mostram avisos de “imagens fortes” ou de que “este conteúdo contém imagens de violência” ou qualquer coisa parecida. Muitas vezes, a cena que está sendo mostrada no vídeo é tão grotesca que parte da imagem é borrada – levantando questionamentos sobre a necessidade de se publicar o vídeo, no fim das contas. Se a imagem é “forte”, por que usá-la se uma matéria razoavelmente bem escrita daria conta do mesmo volume de informações? Notem que neste texto mesmo, embora hoje Faces da Morte, aquela fita que víamos com a curiosidade mórbida de adolescentes idiotas, seja facilmente encontrável na internet, não pus nem vou por link. Se você quiser ver, vai ter que ativamente procurar, e lide com isso.
A resposta, claro, é simples. Porque isso dá audiência, as matérias mais sensacionalistas são as mais lidas do dia, as que garantem melhor tráfego e engajamento.
Esse talvez seja o grande desafio de um futuro jornalismo se ele ainda existir: encontrar o equilíbrio entre as necessidades de seu público e as de seu departamento financeiro num mundo em que a corrida desesperada atrás da audiência parece ser a única baliza ética de um campo em agonia.
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Veja o vídeo…
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