Quando li “O avesso da pele (2020)”, de Jefferson Tenório, fiquei encantado e impactado: encantado com a potência literária de uma obra cuja narrativa está prenhe das acontecências de seu autor, fazendo emergir desde dentro uma memória-denúncia, sem máscara nem hipocrisia, da vida cheia de desafios e convicções de seu autor; impactado com o testemunho, ao mesmo tempo, duro e leve. Leve, destaco, porque verdadeiro, despretensioso, da trajetória de Pedro, seus afetos e desafetos, guardei a sua avassaladora descoberta: “A vida simplesmente acontecia e você simplesmente passava por ela. Quando, no entanto, o professor Oliveira contou para sua turma sobre Malcom X, quando vocês conversaram sobre Martin Luther King, quando pela primeira vez você ouviu a palavra “negritude”, o seu entendimento sobre a vida tomou outra dimensão, e você deu-se conta de que ser negro era mais grave do que imaginava”. E eu até hoje não consigo imaginar por que uma pessoa é discriminada pelo fato de ter nascida preta.
A educação, através de seus aparelho e processos, historicamente utilizou estratégias de perpetuação de uma cultura de domesticação dos corpos e silenciamento dos falares. Infelizmente, ainda somos agentes de uma sociedade atravessada por culturas e políticas que negam, invisibilizam e excluem pessoas, sonegando-lhes o direito à voz. Não à toa, os movimentos de resistência contra a ditadura militar reivindicavam usufruir “vez e voz”. Sem voz, não existem condições de conquistar-se vez. Reconhecer a história dos silenciamentos que atravessam nosso país é um passo primeiro para uma luta consciente de homens e mulheres, cujos corpos insubmissos não cedem à orquestração de nenhuma forma de exclusão.
Existe, impossível negar, um apelo potente dos homens/mulheres largados nos escombros dos pavilhões da história, impingindo-lhes uma impossibilidade objetiva de tornarem-se um sujeito, contrariando ferreamente Píndaro no ditame de “tornar-se si mesmo”. Já o apelo socrático do “conhecer-se” induz com eloquente maestria uma tarefa tão precisa quanto utópica. Se, porém, de um lado, tal impossibilidade revela as bordas da inconclusão de um animal minimamente esboçado, chamado a um perene “tornar-se”, doutro, uma loucura visceral crava no homem/mulher “o mal que não quero”, enquanto a base estrutural das organizações que sustentam essa “impossibilidade” nutre-se de sua suprema banalização, sua mais portentosa negação.
Guerra, peste e fome constituem-se males vicejantes das estradas por onde desfila a história. A avareza, a concupiscência, a inveja, o ódio, o rancor… projetam sinalizações de eixos estruturantes do que se pode conceber como “mal”: negação da pessoa em seu direito de ser um si-mesmo. São guerras de tempos e espaços diversos, de motivações múltiplas. Entre nós, registre-se cenário recente e doloroso: pandemia e pandemônio, atacado de óbitos, fome e isolamento; feminicídio, violência doméstica, pedofilia… morte ao bicho que nasce previamente convalescente… pena de vida de morte, varejo de felicidade; morte severina de gregos e troianos, de judeus e asiáticos, de africanos e nordestinos… Mortes nos quatro cantos trombeteiam cornetas apocalípticas. Tempos sombrios, sim, globalização do mal naturalizado como intrinsecamente humano, vida banalizada, homens e mulheres errantes em tempos sombrios… nazistas, fascistas, golpistas, retorno incessante de atrocidades. “Poetas, seresteiros, namorados, correi. É chegada a hora de escrever e cantar. Talvez as derradeiras noites de luar” (Gil, 2014).
Vinte de novembro é um dia de memória nacional. Recorda Zumbi dos Palmares em sua liderança da luta de seu povo contra o racismo. Esse herói nacional, reduzido à condição de vilão, foi execrado publicamente para que seus pares aprendessem que não vale a pena a resistência. Tal gente tornou-se escrava, arrancada de seus berços, um não-ser ao serviço do branco dominador. Testemunharam quase quatro séculos de escravidão, cruel forma de expropriação e exploração que sucumbiu pela interveniência da coação internacional, pois o Brasil era o último país independente das Américas a manter a escravidão em larga escala e sofria crescente pressão, especialmente da Inglaterra, para abolir o sistema. Ainda assim, a elite política tentou procrastinar a pretendida abolição com medidas paliativas como a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei do Sexagenário (1885). Assim, tais leis refletem um processo gradual e complexo de pressões internas e externas, além de mudanças sociais e econômicas no Brasil do século XIX, que levaram ao fim da escravidão. Olhe só, todavia: Isabel virou heroína nacional reconhecida pela lei branca que libertou o escravo preto.
Décadas seguidas, aprendemos quão generosa foi a princesinha e o quanto o negro fujão foi um empecilho na economia do país. O racismo e toda forma de preconceito devem ser combatidos aguerridamente, sem que se ceda um milímetro. A educação, por meio de seus aparelhos e processos, historicamente utilizou estratégias de perpetuação de uma cultura de exclusão racial. Infelizmente, ainda somos testemunhas de uma sociedade atravessada por culturas e políticas que negam, invisibilizam e excluem pessoas em razão da raça a que pertencem. Reconhecer a história de racismos que atravessam nosso país é o passo primeiro para uma luta consciente de homens e mulheres, cujos corpos insubmissos não cedem à orquestração de nenhuma forma de preconceito. Além disso, todo preconceito racial foi aprendido e disseminado entre nós, introjetado como verdade de fé, sem causar nenhum constrangimento ao espancamento, à desconfiança, à negação da pessoa negra.
O Dia da Consciência Negra é a data comemorativa celebrada em 20 de novembro para refletir sobre a luta da população negra contra o racismo e pela igualdade, destacando a importância da sua contribuição para a sociedade. Poderia ressaltar como um momento de reflexão sobre nossa inconsciência, sobre a negação sistemática e constante que oprime cidadãos de todas as gerações, visto que não há democracia verdadeira sem que as pessoas possam participar do destino de sua gente e de sua nação.
Termino com Tenório, quando revela: “É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos”.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Estátua de Zumbi dos Palmares (AL) / Wikimedia Commons

