Abro a cena da interpretação. No papel dramático e voraz da leitura, rompo a expectativa comum por ações e me atenho a encontrar um ponto de vista ao entorno das narrativas e pulsões psíquicas das personagens. Sugo-lhes a alma pelas palavras. Analiso o que nem elas nem o autor dizem.
Sou uma leitora inquieta. Gosto de obras cruéis. Gosto do original, como os livros do professor acadêmico da ABL Godofredo de Oliveira Neto: sempre possuem detalhes para nos surpreender. O mais recente, A Ficcionista, já chama atenção pelo primoroso trabalho da editora Batel do Carlos Barbosa: papel que é uma delícia ao tato, diagramação com leveza para os olhos e a capa, uma belíssima capa dura (sempre um detalhe muito elegante), com imagem do quadro O Jardim das Delícias Terrenas de Bosch em um recorte delicado do Jardim do Éden da asa lateral esquerda. Um paraíso, pensaria? Um livro de fantasias de uma terra encantada de levezas? Então vamos à quarta capa. Um trecho forte, feroz, violento, doloroso. Recorte de um inferno. Um inferno interior, no livro, nas personagens, nas mentes. O inferno animalesco do inconsciente, dos medos e pavores que vazam da vida para a tragédia íntima de conviver e reescrever a violência que é viver, na realidade, no dia a dia, na fuga, na fantasia, na ficção, no pesadelo, no terreno obscuro e indizível do Real.
Na obra, à medida que a personagem narradora Nikki, contratada por um escritor para narrar sua vida, passa a inventar histórias cada vez mais mirabolantes, com crimes, drogas, prostituição e, principalmente, messianismos, mais a trama se afasta da veracidade de uma narrativa de fatos. Há algo além nela. Pensei logo em Fernando Pessoa: uma fingidora. Afinal, ficcionar é narrar! E vice-versa. Será que ela inventa o que vive? Será que vive o que inventa? Será que ela sabe o limite entre o inventado e a realidade? A mente de Nikki é o que quero desvendar.
Diante da ficção, a narradora de Godofredo me levou a revisitar Luigi Pirandello: “Assim é se lhe parece”. Segundo o próprio Pirandello, uma farsa, cuja trama nasce de um relato. Mas o que é verdade e o que é falso? Neste aspecto, a obra de Godofredo brinca com os deslimites da era da pós-verdade. Cada um que a crie e acredite na compreensão que está ao seu alcance. Qual o limite da mente de Nikki?
Seguem os capítulos, cenas cheias de ações, entrelaçadas pelo fato de serem todos relatos prontos a serem escritos ou reinventados. Cada capítulo um início e fim em si mesmo, também isolados.
Diante das cenas, contudo, conforme o próprio autor já declarou em entrevista, constrói-se um cinema na mente do leitor. É justo neste ponto que o livro insere minhas interpretações pelos meandros de Hitchcock. Psicose? As narrativas de Nikki se assemelham à mente psicótica. Hora de convocar Freud. Seja pelo uso de substâncias, seja por sintomas psíquicos manifestos na narradora, um mergulho psicanalítico em personagens, a meu ver, é parte do essencial na literatura enquanto reprodução verossímil ou não da natureza humana. Onde mais nasce o absurdo senão na mente humana?
A psicose atinge, além do sofrimento psíquico, da dor, do trauma e da realidade externa. A psicose é ruptura, rompimento, ficção desregrada do racional.
Enquanto a literatura busca uma recriação do real, mesmo que pela fantasia e pelo fantástico, a psicose substitui a realidade por uma outra dimensão do real, uma versão apenas interna, desvencilhada do social, que passa a ser narrada pelo sujeito sem filtros com a verdade externa. Ocorrem delírios, alucinações, “vozes”, religiosidades messiânicas e excessivas, voracidades, obsessões. Ah, Nikki! A psicose pode levar a matar. A psicose pode levar a se suicidar. A psicose não sabe como lidar com o outro, com o monstro ou animal interior que a todos nos habita.
Na ficção literária, afinal, quem narra? Afinal, quem escreve? Afinal, quem ficciona? Até Bergman apareceu para mim antes de eu terminar a leitura: há um jogo de xadrez entre a narradora e o autor personagem, a saber, um tabuleiro de palavras entre a vida, a fantasia e a morte. Um finge, o outro rouba a cena. Uma hora, um engole o outro. Pronto: uma ficção pode ser uma loucura ou pode ser um romance.
Carmem Teresa Elias é docente pós-graduada em Letras, aposentada, pesquisadora e palestrante em Literatura Comparada e Análise de Gêneros Textuais. Escritora com 15 livros publicados (romance, ensaio, contos, crônicas e poemas). Artista plástica com 5 exposições individuais. Presidente e idealizadora do grupo Jornadas Literárias (JoLI).
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