Nas últimas colunas, falei sobre a exposição do corpo feminino, uma questão multifatorial e que inclui abismais desigualdades sociais. A diferença de classes se destaca nas estatísticas de violência contra a mulher, sendo a maioria das mulheres agredidas de classe baixa e negras, geralmente residentes nas periferias. Nos bairros mais pobres, onde a população, em geral, é menos esclarecida, a exposição do corpo da mulher é um dos fatores que pode desencadear uma reação masculina violenta e/ou em direção ao sexo, com ou sem consentimento. Prevalece a máxima machista de que “se está mostrando o corpo é porque está querendo sexo”.
Para meninas e mulheres de classe média e alta pode ser mais seguro expor o corpo na escola ou nas ruas do bairro onde vivem, pois a cultura e o meio inibem a interpretação embrutecida. Ainda assim, um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), reunindo dados de 190 países, divulgado em 2014, mostrou que cerca de 120 milhões de meninas de diferentes níveis sociais, quase uma em cada dez, foi estuprada ou vítima de abusos sexuais antes de completar 20 anos.
Um dos problemas começa no ensino básico, onde há predominância feminina entre educadores – uma realidade também dentro de casa – o que torna os meninos carentes das figuras masculinas positivas que desejam e necessitam para se identificar. O psicanalista Mario Corso, de Porto Alegre (RS), destaca que isso pode se exacerbar nas periferias, onde o brasileiro médio está ainda mais afastado dos seus filhos e os resultados adversos voltam-se contra quem está mais próximo, as mulheres. “O pai abandona, a mãe segura o rojão e o resultado é o filho misógino, pois acaba identificado com a crueldade do pai à família. Toda interpretação deste menino resultará distorcida”, escreveu Corso em um artigo para o jornal Zero Hora.
Nas universidades também falta clareza e as agressões passam por coerções verbais, escritas e físicas. Um caso em um campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foi emblemático. Cartazes espalhados com letras garrafais: Menos empoderamento. Mais Empauderamento. O texto era o seguinte: “O feminismo não luta pela igualdade de direitos, mas é um movimento político socialista, inimigo da família, que estimula a mulher a largar seu marido, matar seus filhos, praticar bruxaria, destruir o capitalismo e tornar-se lésbica.” Mais uma foto da professora/doutora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lola Aronovich, que tem o blog feminista Escreva Lola Escreva e ainda um desenho de um pênis furando uma estrela vermelha com o seguinte dizer: F.O.D.A.S.C.E.
Se já era grave, só piorou, como apontou minha colega aqui da Sler, Priscila Machado de Souza: “(…) eclodem dados alarmantes do aumento da violência contra a mulher. Basta ver os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Eclodem números de feminicídio no Rio Grande do Sul, se emolduram cenas de tentativas de feminicídio nos elevadores do país. Temos este resíduo nefasto do bolsonarismo: essa autorização discursiva para objetificar e descartar as mulheres.”
Nos Estados Unidos, o problema é semelhante: pesquisa da Associação de Universidades Americanas, em 2015, mostrou que 27,2% das estudantes do último ano do curso superior tinham sofrido agressão sexual à força ou por incapacidade (depois de usarem álcool ou drogas). A pesquisa ouviu 150 mil estudantes de 27 faculdades e universidades, inclusive as de elite, com índices alarmantes: 34,6% em Yale, 34,3% na Universidade de Michigan e 29,2% em Harvard tinham sido abusadas.
Não há contexto possível em que sexo sem consentimento seja aceitável. Sabe aquela coisa de não entendeu? Quer que eu desenhe? Pois, na Inglaterra, foi criado um vídeo com desenhos para explicitar por que não é aceitável o sexo sem consentimento, recorrendo a uma metáfora de forçar uma pessoa a beber chá. Batizado de Tea Consent, o filme usa o ato de oferecer o chá a alguém para falar sobre as diversas situações que caracterizam abuso sexual. Teve 2,6 milhões de visualizações ao ser lançado na internet, em 2015, e ainda hoje é referência de aprendizado sobre consentimento sexual – já passou de 20 milhões de visualizações.
Beber uma xícara de chá é uma delícia, mas você precisa estar confortável e realmente com vontade no momento para apreciar.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto de capa: captura de tela do vídeo Tea Consent

