Tenho me sentido desconfortável com conteúdos que venho lendo sobre perfis geracionais, como Veteranos ou Silenciosa (1925-1945), Baby Boomers (1946-1964), Geração X (1965-1980), Geração Y ou Millennials (1981-1996), Geração Z (1997-2012) e Geração Alpha (a partir de 2013), como profissional que atua com o Etarismo (os estereótipos, preconceitos e discriminações com relação à idade) e Diversidade Etária.
O que é uma geração? O processo de construção teórica do conceito sobre o significado de geração iniciou no século XIX e continua, mas pode-se dizer que a ideia já existia na Antiguidade. Desde XIX muitos teóricos, de diversas áreas do conhecimento, acrescentaram suas visões, alguns de forma mais consistente do que outros, entre eles:
· Augusto Comte (1798-1857), o pioneiro a pensar sobre o tema, defendia que o ritmo do progresso seria determinado pela mudança geracional. Se a vida durasse mais tempo, o progresso levaria mais tempo para ocorrer.
· Wilhelm Dilthey (1833-1910) considerava a qualidade dos vínculos mais importantes entre os membros de uma geração do que a quantificação da duração e a sucessão de gerações. Observava que aqueles que recebem as mesmas impressões durante seus anos de formação compõem uma geração.
· José Ortega Y Gasset (1883-1955) foi o primeiro a desenvolver uma teoria elaborada sobre o tema. Dizia que “uma geração não é um punhado de seres humanos ilustres, nem simplesmente uma massa: é um novo corpo social íntegro em sua minoria seletiva e em sua multidão, e que foi lançado sobre o âmbito da existência com uma trajetória vital determinada.” Dizia que uma geração é decorrente da outra, herdando parte de suas características, mas incorporando características próprias a partir de seus valores, ideias, experiências.
· Karl Mannheim (1893-1947) considera-se que foi o pensador que desenvolveu uma das teorias mais completas sobre este tema. De acordo com ele, as gerações são resultado de transformações sociais, não tanto a idade cronológica comum de seus membros, mas o que é partilhado de realidade social, de maneira a formar um “sujeito coletivo”, o “antes” e o “depois” a partir desses marcos. Ele também apresenta a ideia de “unidades de geração” ou subgrupos, dada a diversidade de características que ocorrem entre as unidades de geração.
· Pierpaolo Donati (1946), contrapondo-se à teoria de Mannheim, na pós-modernidade, “os jovens não se sentem pertencendo a uma geração”, o que faz questionar o conceito de geração. Assim, perdeu-se o sentido de “geratividade” ou de transmissão do conhecimento entre gerações, confirmando a necessidade de pensar seu conceito. Defende que o conceito de geração deve ser o de descendência familiar, ou seja, sucessão entre pais e filhos, própria da dinâmica familiar, pois reforça a ideia de geratividade. Considera que as pesquisas sobre o tema atualmente têm sido feitas com grupos etários com enfoque histórico, desconsiderando a influência familiar.
Muitos outros pensadores se dedicaram ao campo de estudo e pesquisa de Geração. Mas fiquemos com esses, pois o ponto aqui é demonstrar como esse tema ainda está em construção e como existem diferentes visões a respeito.
Agora, esclarecida essa questão, retomo meu desconforto e o motivo de sua existência. No geral, o conceito de geração está representado por pessoas que nasceram numa mesma época, compartilham os mesmos fatos históricos e internamente partilham os mesmos sentimentos. E cada vez que escuto ou leio sobre esses perfis, me pergunto: sobre quem estamos falando?
Um exemplo: compartilhar o mesmo ano de nascimento não significa que compartilharemos os mesmos fatos históricos marcantes, pois eles podem ter diferentes pesos nas nossas experiências e estilos de vida. A Enchente no RS em 2024 foi um marco histórico para quem vive nesse estado. Houve um antes e depois da enchente. Mas, para milhares de pessoas de uma “mesma geração” que vivem fora do RS, provavelmente, não.
Outro exemplo: mesmo partilhando o mesmo fato histórico, pode ser que, para mim, ele seja positivo, enquanto que, para você, ele pode representar algo negativo, o que leva cada um a ter diferentes percepções, sentimentos e comportamentos a respeito do mesmo marco histórico. A vitória do presidente Lula nas últimas eleições é um marco histórico que causa essas diferenças entre os eleitores brasileiros.
Assim, me desagrada profundamente quando vejo os perfis geracionais sendo apresentados de uma forma “chapada”, estereotipada e preconceituosa, sem contemplar as pluralidades e as consequentes complexidades que coexistem na gente e na sociedade.
Uma analogia que faço é com a Astrologia: quando perguntam teu signo, você responde, e saem descrevendo as características do dito cujo, como se afirmando que você é daquele jeito exato pelo qual a pessoa está falando. Se assim fosse, já que temos 12 signos no Zodíaco, só teríamos 12 perfis de comportamento presentes no mundo e tudo seria mais fácil. Mas sabemos que não é assim, né?
Então, como é que é? Olha, uma pista que tenho é a de que precisamos considerar a pluralidade, a diversidade. Na semana passada, meu texto tratou deste tema (Afinal, o que é Diversidade? Leia aqui), e compreendo que – para além da idade – a raça, etnia, sexo, gênero, se com ou sem deficiência, neurodiversidade, status familiar, classe social, educacional, religião, território de moradia, estilo de vida, entre outras influências, irão moldar a experiência de geração que temos.
Assim, se geração é uma experiência de tempo vivido dentro de uma linha cronológica, como a maioria dos pensadores define, torna-se necessário perceber essa pluralidade, compreender que as vivências de geração são mais complexas do que aparentemente estão sendo colocadas. Não se contentar com o estereótipo.
Temos vivido num mundo cada vez mais inter e multigeracional. Nesse sentido, sugiro que, ao tratar de diversidade etária, possamos ir além das “diferenças entre as gerações” e priorizar as semelhanças. Sei por experiência própria que, entre diferentes gerações, temos pessoas com experiências de vida, estilos e personalidade, surpreendentemente parecidos, mas a gente precisa oportunizar que os iguais se encontrem.
A experiência e estilo de vida de uma mulher negra 60+, enfermeira, divorciada, com filhos adultos e que faz academia, pode ter muito em comum com a de uma mulher de 20 anos, fisioterapeuta, sem filhos e que participa de grupo de corrida. Mesmo que uma seja GenX, a outra GenZ, e exista uma outra geração entre elas, os Millennials. Entretanto, a procura pelas equivalências e sinergias precisa ser intencional para que haja o encontro.
É na busca pelas afinidades que as gerações vão dialogar e se potencializar. E, por incrível que pareça, a gente vai encontrá-las se for ao encontro das singularidades de cada pessoa. Viva a Diversidade!
Fontes:
A parte que redigi sobre os conceitos teóricos a respeito de Geração foi escrita a partir do conteúdo dos livros “Da Infância à Velhice”, de José Carlos Ferrigno, e “Intergeracionalidade: Cartas na Mesa”, de Divina de Fátima dos Santos.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
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