O único cara que eu conheci que era capaz de se lembrar de absolutamente todos os detalhes de sua vida – tudo o que vira, sentira, tocara, imaginara ou ouvira; que podia reconstruir todos os sonhos e entressonhos; lembrar todas as pessoas que cruzara na vida – foi Irineu. Irineu Funes, “El memorioso”. Trata-se de um famoso personagem de Jorge Luis Borges.
Mas Irineu tinha um problema: era incapaz de ideias gerais, de pensar conceitos; era incapaz de compreender que o símbolo genérico cão pudesse compreender tantos indivíduos díspares, de diversos tamanhos e formas. Aborrecia-o que o cão das 15 horas (visto de perfil) pudesse ser o mesmo cão das 17 horas (visto de frente)! Irineu era incapaz de pensar.
Hoje, nos cursos de História, este conto de Borges é leitura quase obrigatória: ele trata da memória e, na verdade, da diferença que existe entre memória e história. Houve uma época em que estas duas instâncias se confundiam, e eu mesmo ouvi muitas pessoas me dizerem (eu fui professor de História) que eu devia ter uma “ótima memória”. No entanto, Funes jamais poderia ser historiador, porque ele era incapaz de esquecer! Tanto nossa memória individual quanto a coletiva são feitas de esquecimentos: aquelas coisas que precisamos deixar na margem, no sótão de nossas lembranças, para que possamos dispor de uma narrativa sobre nós mesmos e construir o que chamamos de uma “identidade”.
Minha vida é feita de muitos fracassos… que nunca aparecem quando elaboro um currículo, por exemplo! A história de uma nação é feita não apenas de omissões e silêncios, mas construída de forma a que possamos imaginar que “o que somos hoje” é resultado do que vivemos antes, que nosso presente está “contido”, de certa forma, no passado.
Admira-me, no entanto, que os ataques – vindos dos grupos mais reacionários da sociedade – à Filosofia e à Sociologia não se tenham estendido expressamente para a História! Talvez a razão esteja aqui: assim como a memória, a história de uma nação também é manipulável. Basta lembrar a famosa Enciclopédia Soviética, na época de Stalin, em que personagens caídos em desgraça desapareciam da história russa: Trotsky é o exemplo mais gritante! A moda agora não é mais apagar ou arrancar a página que incomoda: chegou ao Brasil, trazida por um resistente bolsonarismo, e já presente em outros países – e precisamos estar muito atentos! – a moda que assegura que o que houve não houve e, se houve, precisa ser mudado. Como para fazer isto é preciso rearrumar a “narrativa”, reatar os fios soltos que a “negação” deixa de fora, precisamos de historiadores. Por isso estão sendo poupados.
Funes, ao menos, lembrava-se de coisas reais. No futuro, “lembrar-nos-emos” do que nunca houve!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

