Era mais uma decisão da Conmebol Libertadores, desta vez realizada em Lima, no Peru, tendo dois clubes brasileiros, Flamengo x Palmeiras, em que o rubro-negro carioca tornou-se tetracampeão. Porém a conquista do Flamengo torna-se pano de fundo, secundária; um fato extracampo torna-se o assunto principal no mundo esportivo.
Mesmo quem não acompanha futebol, nestes últimos dias se confrontou pelas redes sociais com essa história emocionante do menino peruano de 15 anos, Cliver Huamán Sánchez, que saiu de sua comunidade andina, localizada na cidade de Andahuaylas, e viajou por incríveis 18 horas ao lado de seu irmão para presenciar a final da Libertadores de América 2025 em Lima, onde o Flamengo conquistou o título.
Para quem não conhece a história, Cliver possui um canal no TikTok chamado Pol Desportes. Desde criança, sonhava em ser comunicador e acompanhava seu pai, também narrador, até a rádio local de sua cidade, de onde lia contos com paixão.
Com este objetivo definido, Cliver partiu para Lima, aproveitando a visibilidade que esse grande evento poderia oferecer para concretizar seu sonho.
Porém, como a Libertadores é um evento fechado apenas para quem paga pelos direitos de transmissão, Cliver não conseguiu entrar no estádio nem sequer se aproximar do evento. Mas a falta de acesso não tirou sua meta.
A solução veio de criativa e com muita determinação: escalou o morro mais alto que cerca o estádio Monumental e, de lá, com um tripé improvisado, um celular, a bandeira de sua cidade com o nome do seu canal e uma vontade ilimitada, narrou a final de futebol para todos os seus seguidores.
O que por fim transformou sua transmissão em fenômeno global não foi tecnologia — foi verdade. A vibração, o brilho no olhar, os gritos espontâneos, a entrega total. Em meio a produções milionárias e transmissões cada vez mais tecnológicas, Cliver lembrou ao mundo que o futebol continua sendo sobre paixão. Sobre gente que sente, que vibra, que se emociona!
Seu vídeo correu o mundo, conquistou milhões de visualizações e chamou a atenção da mídia esportiva, que reconheceu de imediato a força de um talento bruto e autêntico. Em poucos dias, Cliver deixou de ser “o menino com um celular” para se tornar símbolo de algo muito maior: a prova de que, quando a vontade é grande, nenhuma limitação é suficiente para impedir que uma boa história aconteça.
A recompensa foi extraordinária. O vídeo se tornou viral, Cliver e seu irmão apareceram em todos os canais de TV do Peru e receberam o convite dos sonhos: narrar um jogo da Champions League na Espanha. Cliver também conversou com o presidente do Peru e ganhou uma bolsa de estudos para cursar comunicação social quando terminar a escola.
Em 2025, enquanto muitos investem em tecnologia de ponta para captar atenção, Cliver conquistou tudo isso com aquilo que não se compra: a paixão verdadeira por narrar um evento esportivo, fazer o que ama!
Essa é uma das tantas histórias que revelam uma verdade profunda: o talento sozinho não é suficiente se não tiver onde ser visto. Se dependesse apenas de sua realidade para expor suas potencialidades, talvez Cliver nunca pudesse sair de sua cidade, que sofre com um índice de pobreza superior a 34%. Sua família é formada por agricultores que vivem da produção local, pessoas que trabalham todos os dias.
Assim como Cliver, no Peru, aqui no Brasil e em todo o mundo existem tantos talentos incríveis à espera de uma oportunidade que pode não chegar. E é disso que trata o verdadeiro desenvolvimento econômico: garantir que todos tenham oportunidades reais para mostrar seus talentos sem enfrentar barreiras opressivas e excludentes. O caso de Cliver é uma exceção, pode ser inspirador para os que acreditam na meritocracia, mas expõe uma realidade cruel e profundamente injusta: a falta de perspectivas de quem não tem rede de contatos, de quem está distante dos grandes centros urbanos e das oportunidades que a vida pode oferecer.
Olhamos bem ao nosso redor, nos territórios das nossas cidades, podem existir vários Clivers, com inúmeros talentos esperando para serem descobertos e que precisam desesperadamente de chance para isso.
Essa narrativa me tocou profundamente por ser a história de um menino da América do Sul, um continente pobre com inúmeras mazelas sociais e econômicas que, assim como tantos outros, esperam uma “oportunidade” que nunca chega. Sempre será muito mais que futebol, prezados leitores!
Simone Pinheiro é assistente social, mestre em Ciências Sociais e articuladora do POA Inquieta.
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Foto da Capa: Reprodução do Youtube.

