Terminei 2025 de um jeito diferente. Sem fôlego para fazer pedidos ao ano novo, porque no final de dezembro eu estava, na verdade, cumprindo o último desejo de 2025: conhecer o Japão em uma aventura intergeracional que batizei de 15–55–80. O mais curioso? Esse desejo nem era meu.
Mas talvez o amor real seja exatamente isso: assumir como seu o desejo de quem se ama — e ainda se realizar com ele, pela felicidade do outro. Significa abrir espaço para aquilo que nunca se sonhou e, ainda assim, deixar que nos transforme. Viajar é sempre isso: descobertas, desconfortos, surpresas — um exercício de humildade diante da dimensão do mundo, da sua riqueza, e um lembrete silencioso do quanto gostamos de voltar para casa.
A aventura começou como presente de 15 anos da minha filha, sabiamente oferecido pela avó, num gesto bonito de aproximação que seguramente deixa uma memória afetiva gravada para sempre. Ela poderia escolher o destino para viajarem juntas. Minha filha sempre foi fascinada pelo mundo oriental; a avó, provavelmente, sabia que eu não ficaria tranquila em deixar duas gerações tão distantes sozinhas em um país tão longínquo, assim que suspeito que tudo foi estrategicamente calculado. Mordi a isca. Fui junto, em nome da minha paz. Ainda que a tranquilidade não tenha sido exatamente o sentimento dominante.
Depois de São Paulo, enfrentamos dois voos de aproximadamente 13 horas cada — isso escolhendo um dos trajetos mais curtos, com parada apenas no Qatar. Chegamos a Tóquio às 11h45 do dia 17 de dezembro, o que no Brasil ainda era 23h45 do dia 16. A viagem começara no dia 15, às 15h. As datas já anunciavam que entraríamos em uma espécie de viagem no tempo. Descobri ali uma curiosidade: a ida é mais longa porque o voo acompanha o sentido de rotação da Terra; na volta, os doze fusos jogam a favor de quem quer voltar para casa, economizando cerca de três horas. Não se iluda: continua sendo muito tempo dentro de um avião.
Na chegada, as filas deixavam claro que estávamos em uma metrópole populosa. Mas a velocidade com que tudo fluía revelava outra coisa: eficiência japonesa Nesse ponto, confesso, me adaptei rapidamente, sou despudoradamente tecnológica. Já tinha visto vídeos explicando como gerar o QR Code exigido para entrada no país, como fazer câmbio em máquinas automáticas e a importância de adquirir no aeroporto um cartão de débito pré-pago — no meu caso, o Suica — que serve tanto para transporte público quanto para compras cotidianas. Tudo simples, automático, sem contato humano.
Até a imigração seguiu essa lógica: cadastro prévio no site oficial Visit Japan Web, passaporte escaneado, comprovante de vacina, declaração de equipamentos eletrônicos. Na fila, bastou aproximar o QR Code da máquina. Quem não fez isso viveu outra experiência. Nós, não. Meu lado oriental adorou. Não sou carente: não preciso explicar a ninguém por que estou entrando no Japão; maravilha que o sistema já saiba.
Minha geração teve mais chance de viajar do que a dos meus pais. E sempre viajei muito — mais do que costumo contar. Comecei jovem, sem internet, sem reservas, sem vídeos explicativos e sem dinheiro para excursões organizadas. Aprendi cedo que, de algum jeito, tudo acaba dando certo. Meu maior parceiro naquela época, além do namorado, era um livro-guia que prometia viajar pelo mundo com menos de 50 dólares por dia. Conto isso para explicar que não havia ônibus turístico nos esperando no aeroporto de Tóquio. E ressaltar que, em países minimamente avançados, a melhor forma de chegar ao centro da cidade é o transporte público. No Japão, isso significa transporte de massas como trem e metrô — os únicos capazes de absorver o fluxo humano de uma região com mais de 35 milhões de habitantes. Um deleite para minha alma urbanista.
O aeroporto de Narita fica longe. Para chegar a Shibuya — o bairro dos “moderninhos” das nossas capitais, só que elevado à enésima potência —, a rota envolveu trem, metrô e 500 metros de caminhada. Tudo detalhado pelo Google Maps: escadas rolantes, elevadores para malas, linhas corretas, plataformas, melhor vagão para o transbordo e a confirmação constante de que estávamos indo na direção certa. Nunca foi tão fácil. Mas fica o aviso: não dá para viajar sem internet. Contratei ainda no Brasil. Depois de um voo tão longo, não ter mais uma preocupação, de buscar onde comprar um chip, para mim fez toda a diferença.
No trem, foi fascinante observar o percurso: saindo de Narita, as casas baixas vão se transformando em setores de prédios médios, até a verticalização de Tóquio. As estações iam ficando mais cheias na proximidade da metrópole, mas nunca caóticas. O que mais chamava atenção era o silêncio no metrô — um silêncio que não deixa dúvidas de que educação e respeito pelo outro, ali, são uma prática cotidiana.
O apartamento, reservado por aplicativo, confirmou a lógica da organização oriental associada à tecnologia. No horário do check-in, recebi a senha para abrir a caixa de correio do prédio, onde estava a chave do apartamento. Dentro, um guia fotográfico explicava tudo: do ar-condicionado ao vaso sanitário high-tech, passando pela separação rigorosa do lixo. O quarto diminuto nos obrigou à disciplina e a organização passou a ser uma necessidade.
A primeira impressão de Tóquio foi de uma cidade cheia, jovem e vibrante. Estávamos ao lado do famoso cruzamento de Shibuya. Quando o sinal fecha para os carros, abre-se um espetáculo humano: gente atravessando em todas as direções, fotógrafos improvisados, vídeos para redes sociais, até ensaios de casamento em meio à multidão. Confesso que me surpreendi, cruzamos várias vezes, a brincadeira foi muito divertida. Talvez contaminada pelo olhar da minha filha, achei todo mundo bonito, elegante, interessante.
À noite, fomos comer lámen, indicado — claro — pelo “tio Google. Já éramos íntimos, me passou o restaurante mais bem avaliado nas redondezas. Deu certo. Uma delícia.
Por conta da correria de 2025, não planejei demais essa viagem. Minhas duas parceiras, confiando excessivamente em mim, anotaram apenas alguns lugares imperdíveis. Meu parceiro-guia foi o Google — agora em sua versão mais sofisticada, o Gemini. Com ele, organizei roteiros, criei percursos caminháveis e descobri que podia literalmente desenhar nossas caminhadas dentro do Maps. Foi, sem dúvida, meu principal interlocutor.
Prometo contar mais sobre as cidades japonesas que visitamos em outra ocasião. Hoje, fico com as reflexões. De todas as minhas viagens, esta foi a primeira em que praticamente não tive contato pessoal com moradores locais. Isso que fiquei com a impressão de os japoneses serem extremamente educados e solícitos, mas também sem curiosidade pelo outro, sem troca. A barreira do idioma pesa, claro, poucos falam inglês por ali. Mas não era só isso, o olhar também não convidava. Fiquei na dúvida sobre o quanto isso era cultural e o quanto este ostracismo é fruto das tecnologias que capturam o olhar e a atenção.
A segunda reflexão é mais inquietante. O quanto ferramentas como o Google passam a decidir nosso cotidiano urbano. Ele escolhia por quais ruas deveríamos caminhar, provavelmente reconhecendo padrões coletivos. Saímos da rota algumas vezes, mas acabávamos voltando: o caminho indicado realmente era o mais interessante. Mais eficiente. Mais “certo”.
Foi impossível não lembrar a frase do urbanista Jan Gehl: primeiro moldamos as cidades; depois, elas nos moldam. Hoje, ferramentas digitais já começam a ocupar esse papel intermediário. Elas organizam nossos percursos, influenciam nossas escolhas e logo poderão definir quais ruas prosperam e quais ficam no descaso. Podem, inclusive, nos conduzir sutilmente em frente aos negócios que financiam sua própria expansão.
É muito poder, não é?
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Foto da Capa: Timo Volz / Unsplash

