
A florada de jasmim do poeta (Jasminum polyanthum, onde polyanthum representa ‘muitas flores’) foi intensa e perfumada no jardim. As flores insistiam em florir apesar do volume de chuva por vários dias… perduraram, floriram, perfumaram! Cada amanhecer ou anoitecer pedia a presença, como um ritual, sob a nuvem branca florida com aroma de encanto e fascinação. Cada respirar, um convite a fechar os olhos e deixar as doces memórias e lembranças intensas habitarem o momento. Uma sensação que provocava. O perfume penetrante fluía entre os pensamentos sobre a vida e pessoas queridas. Parecia trazer a certeza de que nada é mais intenso do que viver bem a cada momento. Parece simples, mas não é. Instantes vão e vêm e, rapidamente, tudo vira passado. Aprendi intensamente nos últimos meses que, para muitos, as memórias se apagam. Não há recordações além do vazio. Lembrar parece que se tornou privilégio.
Li há pouco tempo um artigo de 2023, da Unilago, do curso de medicina das Faculdades dos Grandes Lagos, intitulado “Alzheimer, causas, sintomas, tratamento e prevenção”. Ali é descrito o Alzheimer como a forma mais comum da demência na atualidade, caracterizado pela perda de memória, confusão mental, desorientação e, portanto, foco da importância médica para estudos e achados importantes na busca da prevenção. Do artigo, voltei para meu livro de constantes pesquisas, escrito pelo Dr. Dale E. Bredesen (2017), que tenho a primeira edição: “O fim do Alzheimer – o primeiro programa para prevenir e reverter o declínio cognitivo”. O livro aborda e analisa mecanismos que provocam a doença, a influência dos desequilíbrios metabólicos motivados por reações orquestradas pelo estresse, dificuldades no sono, inflamação, intestino confuso, toxinas e alimentação ruim.
Somos uma sociedade que caminha aceleradamente para uma ‘geração prateada (provavelmente já estejamos nela)’, numa transição demográfica em que idosos têm maior número do que nascimentos. Os impactos podem ser inúmeros para a qualidade plena até o fim da vida. Para tanto, é inevitável pensar nas doenças neurodegenerativas e entender o envelhecimento. Saber que as sinapses entre os neurônios vão se perdendo, num processo biológico ‘natural’ desde a infância. Temos a chamada Poda Sináptica lá nos primeiros anos até a adolescência, em que o sistema nervoso elimina conexões pouco usadas para tornar circuitos neurais mais especializados e ágeis. O problema está na vida adulta, quando essa perda se dá de forma acelerada e descompensada, proporcionando o desenvolvimento de transtornos e doenças, com perdas de ações cognitivas, afetando o sistema nervoso central e a morte de neurônios.
Em todos os meus achados, a alimentação passa pela análise científica como um agente que pode ser ruim ou bom no foco de doenças neurodegenerativas. Ou seja, o que se come tanto pode ‘silenciar como acordar’ alguns de nossos genes responsáveis pelo processo de doenças neurodegenerativas. É foco de estudos que o consumo em excesso (e quanto é o excesso para cada pessoa?) de alimentos inflamatórios, como os carboidratos simples, açúcares, pães e alimentos ultraprocessados, agem como gatilhos ruins, principalmente para pessoas portadoras de polimorfismos genéticos. Simplistamente, esses polimorfismos se tratam de uma ou mais diferenças na sequência do DNA de cada pessoa no código genético. Mais resumido, uma ‘troca de letra’ (base nitrogenada que a gente estuda no ensino médio) no DNA. Essas variações ou trocas influenciam a forma como o corpo reage frente ao que se consome de alimento diariamente. Tudo na vida é opção. Na comida não é diferente. Um processo em que o nosso corpo reage e responde!
Lá no intestino, um grande sistema se articula e, por incrível que pareça, se conecta também ao cérebro (eixo nervo Vago). Há uma interface entre a microbiota intestinal e a saúde mental. Todos os excessos de gorduras, açúcares e ultraprocessados que a gente comeu por comer são ali trabalhados e podem gerar o que se chama de disbiose. Um desequilíbrio entre as nossas bactérias benéficas e prejudiciais que vivem no nosso intestino. Tal desequilíbrio está ligado à possibilidade de tornar permeável o nosso intestino, favorecendo deixar passar ou não para a corrente sanguínea os patógenos ali existentes. São as endotoxinas presentes nas membranas celulares desses patógenos que passam a liberar os lipopolissacarídeos (LPS). Os LPS têm a capacidade de se ligar aos receptores dos macrófagos (as grandes células de defesa do sistema imune) que ativam NF-kB. O NF-kB é um complexo proteico que reage ao estresse, infecções, substâncias inflamatórias e migra para o núcleo da célula e se liga ao DNA. Nessa ação é ativada a produção de proteínas de defesa e inflamatórias, em que o corpo responde, o sangue circula e chega no cérebro.
O Alzheimer é um reflexo reativo frente a muitas ‘agressões’ infecciosas, inflamatórias ou tóxicas. Também provocado pela resposta ao que se come. A questão é: até onde as nossas opções, o livre-arbítrio sobre comer qualquer coisa, vão nos permitir carregar, relembrar, reviver lembranças e independência enquanto vida nos estiver presente? Aqueles momentos sob os jasmins do poeta, cheios de emoções e recordações, têm um preço que depende, sim, de nossas escolhas.
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).