Cuidado é uma expressão que se aplica a qualquer um, a qualquer ser vivo ou a qualquer coisa. É algo que todos merecem e, inevitavelmente, quando se recebe o cuidado, a saúde, de certa forma, é gerada ou preservada. A saúde é mais do que uma consequência, é um direito. O cuidado gera a saúde, mas quem gera o cuidado? A educação, sem dúvida alguma.
Como seres humanos e seres pensantes, temos que cuidar de nós mesmos, de outros seres vivos que nos rodeiam e que dependem de nós e da nossa cidade, onde vivemos e construímos as nossas vidas. Para que isso possa acontecer, temos que ser educados.
Penso que a nossa própria saúde ou a de Porto Alegre correm paralelas. Uma é o espelho da outra. Se adoecemos, a nossa cidade adoecerá, se gozarmos de boa saúde física e mental, a nossa cidade crescerá como um exemplo para todas as outras.
Lidar com a área da saúde me deu o privilégio de testemunhar esse paralelo. Pude conhecer, por exemplo, o menino Joaquim, morador da zona norte de Porto Alegre, no Sarandi, cujas atitudes retratam com clareza a interdependência entre os cuidados. Seus pais e muitos moradores de sua comunidade foram acometidos pela Covid-19 na época pré-vacina, em 2021. Perdeu o pai e a maioria da família, porque nenhum deles, exceto a mãe e ele mesmo, usou máscara. Morreram, porque faltou cuidado e educação. Joaquim é um orgulho para dona Fátima, minha paciente, e ela é um orgulho para mim, porque soube cuidar de si mesma e do filho. Ela o ensinou a usar máscara e ele disseminou esse hábito para a comunidade, para todos aqueles que conseguiu atingir, salvando, com certeza, muitas vidas. Sim, Joaquim promoveu a saúde de sua cidade com um simples gesto.
Em maio de 2024, Joaquim, com apenas quatorze anos, perdeu a sua casa, seus móveis e objetos pessoais com a enchente, sendo resgatado às pressas com a mãe por um caminhão do exército. Permaneceu dois meses em um CTG, até que a situação normalizasse. Quando retornou, não existia mais nada. Perdeu, também, sua cachorrinha de estimação, a Milka. Então, Joaquim, um menino bravo, cuja resiliência atingiu patamares que eu nunca imaginei, formou uma Organização Não Governamental com outras pessoas da comunidade, ajudando os moradores a reconstruir suas vidas, como se a sua própria não tivesse que ser reconstruída. Também cuidou dos cães e gatos agora sem donos, isolando-os, alimentando-os, promovendo a sua saúde com a ajuda de empresas de ração e estudantes de veterinária.
E Joaquim, novamente, mostrou para o que veio. Cuidou da comunidade, de suas pessoas e de seus animais. São gestos, talvez, insignificantes no montante da tragédia, mas enormes para um adolescente bem-educado e de atitudes. Ajudou, sim, a saúde da cidade, minimizando o seu sofrimento.
Ele sempre acompanha a mãe em suas consultas, e eu, confesso, chorei algumas vezes ao ouvir contar as suas histórias. Em uma das consultas, não consegui segurar a minha curiosidade e perguntei a ele o que iria estudar no futuro, já com a certeza de que diria que seria médico comunitário ou veterinário.
Mas Joaquim me respondeu:
– Não, doutor, vou ser engenheiro mecânico e vou ser especialista em bombas de drenagem, para que ninguém passe novamente pelo que eu passei.
Então, eu tive dois pensamentos quase que automáticos: primeiro, esse menino tem um talento enorme para me arrancar lágrimas; segundo, Porto Alegre nunca mais terá enchentes com homens como o Joaquim.
Rogério Gomes é médico e escritor, já tendo publicado oito títulos. Dois romances - O Afiador de Facas e O Grande Mestre e o Padre Judas. Dois livros de Poemas - Anita e Outras Poesias Fotografadas e O Sul de teu Corpo. Um livro de contos - Morte Súbita e Outras Historias de Mulheres. Três livros de crônicas - Crônicas da Pandemia, Crônicas de Havana, O Grande Mestre e Outras Histórias.
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