Tim Maia já dizia que o mundo é fabuloso, ser humano é que não é legal. Somente hoje, uma semana após o ocorrido, fico sabendo do espancamento e assassinato brutal do cachorro Orelha, ocorrido na praia Brava, em Florianópolis. Um grupo de adolescentes brutalmente agrediu e torturou esse que era um cachorro do bairro, que há mais ou menos 10 anos vivia na comunidade e era cuidado e adorado por todos. Um cão idoso, dócil e indefeso.
Os relatos são de dar náuseas. Os criminosos, todos filhos de famílias de posses da elite catarinense, já estão sendo protegidos pelas famílias, dois deles inclusive mandados para a Disney (combinemos que seria cômico, não fosse trágico). Já houve ameaça de morte por parte de familiares a testemunhas que viram os adolescentes cometendo o crime, o porteiro que filmou o espancamento (que teve direito à perfuração do crânio com pregos, tamanho o requinte de crueldade) foi demitido após colaborar para as denúncias.
Em resumo, o retrato da impunidade que bem conhecemos. A mesma impunidade que deixou livre um outro grupo de adolescentes que, em 1997, ateou fogo e matou Galdino Pataxó, que dormia numa parada de ônibus, morreu e teve 95% de seu corpo incendiado. O grupo de adolescentes de elite alegou estar apenas fazendo uma “brincadeira” e que, não sei o que é pior, dizia ter confundido o indígena com um mendigo.
Quem mata um animal inocente é capaz de matar qualquer ser vivo, imagine então se se tratar de uma minoria invisibilizada. Somos seres que, para nos humanizarmos, precisamos ser simbolicamente castrados. O lastro da cultura e civilidade, para que nos componha, precisa ser aprendido e vivenciado em nossos primeiros vínculos. Jovens como esses que não sentem remorso ou simplesmente uma incapacidade de cogitar maltratar um animal podem sim fazer qualquer coisa, porque acreditam poder e acreditam que nada irá acontecer. Ou pior: nem acreditam que o ato em si é propriamente um problema ou é algo errado. Simplesmente é. Eu quero, ponto. E porque, de fato, nenhuma consequência acontece.
Nós, espectadores desse tipo de atrocidade que revira o estômago, mas que em algumas semanas já terá sido esquecida, estaremos nos anestesiando com tais barbáries? De que maneira, para sobrevivermos psiquicamente diante do caos e da violência, espancamos também nossas próprias Orelhas para que ensurdeçam um pouco frente a tanta violência gratuita?
E o que dizer de pais que acobertam um crime dessa natureza cometido pelos próprios filhos e não os fazem tomar responsabilidade pelo ato criminoso que cometeram? O que esperar desses jovens com essa certeza de impunidade? Serão adultos que no futuro podem sedar uma mulher numa casa noturna e cometer uma prática de estupro coletivo que também nada lhes acontecerá?
Esse acontecimento é grave, estamos num momento grave de ameaça à nossa moral civilizatória, suspensa por um fio tênue, cada vez mais fino, sustentado em meio a uma tempestade. As leis, a autoridade, a culpa, a punição, são conceitos que parecem perder-se em meio à cultura do ódio e de manipulação do poder. A vida anda valendo pouco. Enquanto isso, escrevo essas linhas preocupada com o futuro e com nossa humanidade mais atavicamente agregadora e coletiva. O que está acontecendo conosco?
Justiça por Orelha, por tantas orelhas: mortas, asfixiadas, violadas, ensurdecidas, arrancadas. Por hora, não quero mais escutar nada, porque tudo parece alto demais para aguentar.
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Foto da Capa: Reprodução do Youtube

