Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Oswald de Andrade.
To be or not to be latino? Essa não é a questão.
Era uma dessas incontáveis — e detestáveis — reuniões pelo Zoom, na época da pandemia, e a professora, realmente compungida, lamentava o uso das palavras “latino” e “latino-americano” que, segundo ela, tinham sua origem na ocupação do México pela França e num projeto imperialista de reclamar a América meridional para o imperialismo francês.
Então eu fiz uma coisa idiota que frequentemente trato de fazer, embora não adiante: expliquei.
Que, fora do México, na América Latina, a maioria nem conhece a relação entre o termo latinoamérica com essa invasão francesa (cujas consequências mais perduráveis são a festa do 5 de maio, a palavra mariachi e a nobre instituição da lucha libre).
Que latino é um termo totalmente pragmático para diferenciar a parte das Américas em que se falam línguas românicas daquela em que se falam línguas germânicas…
Que, ao longo do século XX, o termo foi reapropriado muitas vezes e quase sempre com conotações anti-imperialistas: fosse no caso de Rubén Dario, Vargas Vila e outros escritores modernistas que opuseram a América Latina contra a barbárie anglo-saxã (embora essa rejeição abrangesse também a cultura pragmática e democrática dos norte-americanos), ou no caso dos porto-riquenhos e chicanos que, nos Estados Unidos, levantaram a bandeira do latino.
Ela nem se ligou com minha explicação (o que pode saber esse latino de sotaque estranho sobre o que ser latino significa?), sendo eu talvez antielitista demais, no momento achei que sua indiferença expressava o privilégio de elites que, cômodas na sua bolha, há muito tempo perdeu a vontade de dialogar com alguém… mas com o tempo mudei um pouco de ideia — não sobre o orgulho das elites, mas sobre a profundidade de nosso desentendimento em relação a essa palavra.
E mudei de ideia porque entendi que o Brasil não é parte da América Latina ou, na realidade, que ele mesmo é uma América Latina paralela, lusa, à diferença da nossa, castelhana, como se fossem duas enormes serpentes: a castelhana se espalha do norte ao sul e a lusa fica “enrolada” sobre si mesma, indiferente, quase autossuficiente como todos os grandes estados continentais.
Sonham os brasileiros com ovelhas latinas?
A triste verdade é que o desentendimento entre nós começa com uma história de amor não correspondido: enquanto os latino-americanos sempre acharam que os brasileiros são parte da América Latina, para os brasileiros parece que latino é um simples exônimo para uma subespécie particular de gringo, bem menos valorizada que europeus e norte-americanos: gringus latinus, semelhante ao canis latrans carameliensis.
Assim, e embora, em Canción con Todos, Mercedes Sosa canta un verde Brasil, besa mi Chile cobre y mineral, parece que os brasileiros sentem-se latino-americanos só em circunstâncias e contextos muito particulares. E, embora a perturbadora fascinação dos brasileiros pelo Chaves, um dos piores produtos da grande cultura pop mexicana, parece que nosso interesse e curiosidade pelo Brasil tende a ser maior que o interesse da luso-america por sua prima castelhana.
O fato é que uma das maiores obras da literatura latino-americana, La Guerra del Fin del Mundo, é um romance sobre a Guerra de Canudos; Chico Buarque e Caetano Veloso são bem conhecidos na América Latina, as telenovelas do Brasil chegaram a ter um grande sucesso, Sônia Braga e Roberto Carlos foram absurdamente famosos na América Latina. Eu ainda lembro de uma professora da faculdade literalmente extática com o capítulo final de Renascer. Nos anos 90, os blocos de samba viraram populares entre os playboys do Leste de Caracas. Pior ainda: nós, ingenuamente, acreditamos que os triunfos do Brasil sobre equipes europeias no futebol são — mesmo como os da Argentina — vitórias latino-americanas (de fato, entre nós não tem nada pior que aquele latino otário que apoia um time europeu na final da Copa do Mundo).
Eu não sei se há muitos sinais de uma curiosidade e um interesse equivalentes no Brasil. Porém, existem algumas exceções notáveis que têm quebrado, pontualmente, a indiferença: Roberto Carlos, que deve seu sucesso ao esforço em versionar suas músicas em espanhol – ajudado por uma pronúncia perfeita – e Caetano Veloso, que, junto a sua irmã, Maria Bethânia, foi um eixo entre as músicas da América castelhana e da América Lusa.
Para começar, Veloso fez belas versões de Tonada de Luna Llena“, do venezuelano Simón Diaz, Un vestido y un amor“, do argentino Fito Paez, ou de Cucurrucucú Paloma“, o clássico da música popular mexicana. Mas também, e junto a Maria Bethânia, estabeleceu uma espécie de colaboração com Willie Colón, um legendário músico porto-riquenho que, lá nos anos 80, vinha de fazer músicas extraordinárias com Hector Lavoe e Rubén Blades, das lendas da Salsa.
Com o Blades, Colón fez o álbum Siembra, um dos mais importantes da história da América Latina e um dos grandes momentos da invenção e reinvenção contínua do latino, de fato, um álbum cuja elaboração fala das diferenças entre o Caribe e o Brasil: gravado e produzido em Nova Iorque, primeiro teve sucesso na Venezuela — em parte devido à sua homenagem à deusa Cabocla Maria Lionza — e dali se espalhou pela Colômbia e os países andinos antes de ter um incrível sucesso também nos Estados Unidos.
Mesmo Blades e Colón tinham um grande interesse pela Música Popular Brasileira. O primeiro, com o monumental álbum Maestra Vida, seguiu as trilhas da Ópera do Malandro, de Chico Buarque. No entanto, Colón, tentando deixar uma marca própria, diferente daquela dos titãs com os quais tinha trabalhado toda a década de 70, iniciou um trabalho próprio nos anos 80, começando com o Álbum Fantasmas, que incluiu uma versão da Flor da Terra do Buarque chamada O Que Será e outra de Disritmia, do Martinho da Vila, chamada Mi Sueño, as duas pela recomendação de Maria Bethânia.
O Que Será começa com frases da Clarice Lispector — “yo creo en muchas cosas que no he visto” — que, no Caribe, todo mundo sabe de memória e recita de olhos fechados, embora nem saibam quem é o Buarque ou a Lispector. De fato, numa estranha colaboração entre o Caribe e o Brasil, Colón apareceu junto a Veloso no programa do último nos anos 80.
Mas essas são exceções à regra, quase expressões de resistência contra a regra.
O Rio das Américas
Um dia, após tratar de explicar infrutuosamente que nem no Caribe nem na América Latina a aversão à mestiçagem tem a mesma força que no Brasil — ou entre as elites intelectuais brasileiras —, recebi como resposta um link a uma matéria que falava sobre expressões racistas no futebol venezuelano: é que, para meu interlocutor, para quem todo o planeta é como Brasil, a detalhada explicação de como funciona o racismo na Venezuela e como o pensamento negro do Caribe rejeita a noção de negritude[1] simplesmente significava que eu era um conservador que defendia a “Democracia Racial”, embora, de fato, eu só estivesse comentando as teses de intelectuais negros do Caribe como Depestré e Glissant.
É que, para o provincianismo brasileiro, o mítico gringo consegue o milagre de ser simultaneamente alheio e alienígena, mas também completamente redutível às categorias brasileiras, isto é, a façanha de ser muito estranho, mas não realmente diferente.
Embora me sentisse idiota por tentar um diálogo em que não há diálogo possível, percebi que essas tentativas falhidas servem, pelo menos, para encontrar aqueles com os quais é possível falar – embora sejam uma minoria, só uma fila em um imenso estádio. Porém, existem formas de troca bem mais férteis e efetivas que o simples diálogo: no microdocumentário O Rio das Américas, vários músicos argentinos, uruguaios, venezuelanos e cubanos expressam seu espanto diante do fato de que os brasileiros não se achem latinos e que “latino” seja uma caixinha para coisas alheias e exóticas. Porém, mais do que explicações e discussões, eles embarcam numa experimentação com a música, especialmente com os instrumentos e ritmos da percussão, descobrindo não só analogias e semelhanças, mas uma comunidade que vai além das fronteiras e identidades.
Dado que a percussão da África Ocidental penetrou em todo o continente e que as línguas são da Península Ibérica, não é surpresa que existam tantas coisas em comum, mesmo nos gestos e nas palavras. Porém, a exploração prática e a invenção são muito mais potentes e efetivas que a explicação de coisas óbvias que, porém, são esquecidas continuamente. Então, melhor que explicar o pensamento antilhano da transculturação e da créolité é melhor praticar essa transculturação e essa “crioulidade” para que elas se expliquem elas mesmas, como faz, por exemplo, Songorocosongo há mais de vinte anos.
De fato, o “latino”, que não é uma identidade, vai se reinventando desse jeito: para Vargas Vila e Rubén Darío, os venezuelanos e puertorriqueños que bebem cerveja gelada, falam com americanismos e jogam baseball teriam sido monstruosos ou ridículos, mesmo como os primeiros rockers latino-americanos nos sessenta eram desprezados pelos músicos tradicionais. Hoje os melhores jogadores de baseball do mundo são caribenhos e japoneses, há rockers argentinos e mexicanos tão lendários como Mick Jagger e os russos e brasileiros reinventaram o judô completamente, mesmo como os japoneses reinventaram os quadrinhos e a animação: “só me interessa o que não é meu”.
Neste mundo creole onde tem rappers aymaras e o anime japonês vira uma paixão planetaria talvez a obsessão do identitarismo de esquerdas e do populismo de direita com as caixinhas (branco e negro, nacional e estrangeiro, oriental e ocidental e inclusive binario e não binario) aparesce como uma forma de atavismo e o unico que nos podemos perguntar é se, além deste periodo de fragmentação e xenofobia haverão oportunidades para que a américa castelhana e a lusitana, mais do que se unificar o identificar, se enrolem como as cobras do Asclépio, como nas músicas de Willie Colon, Caetano Veloso ou do Songorocosongo: finalmente temos em comum muitos problemas como a devastação da Amazonia, os avanços do autoritarismo e a nova onda de imperialismo americano que não nos vao fazer amiguinhos da alma mas, talvez, aliados, parceiros e companheiros de viagem.
Porém, essas estratégias dos músicos latinos no Rio são para pessoas que, seja por sorte, capacidade ou simplesmente sua situação, estão muito melhor ajustadas do que eu, que sou simplesmente um náufrago tentando construir uma jangada para voltar a um lugar onde poderei viver a vida plenamente. Como um náufrago da Malásia ou da Indonésia na imensidade da Austrália, eu tento retornar ao arquipélago e vai ser lá, talvez, onde tenha a calma para revisar quanto do Brasil peguei e levei nas alforjes, só então eu saberei como Brasil mudou minha “latinidade”.
Mas, seja como for, acho que já expliquei demais.
[1] Lá se fala mais de uma afrodescendencia que é muito mais concreta e não fala de uma essência “negra” que moraria menos aparência das pessoas que no que as pessoas fazem e o jeito em que o fazem: dali os termos afrocubano, afrocolombiano ou afrovenezolano.
Jeudiel Martinez é um escritor, tradutor e sociólogo venezuelano refugiado no Rio de Janeiro desde o ano de 2019. Na Venezuela, foi professor convidado da Universidad Central de Venezuela e editor literário do projeto de quadrinhos Biblioteca Ayacucho Ilustrada.
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Fito Páez e Caetano / Reprodução do Instagram

