O encontro estava marcado para o dia 07 de novembro, às 17h30, na Sala dos Jacarandás, no Clube do Comércio, mas infelizmente não aconteceu. O anúncio de tempo severo fez com que os organizadores da Feira cancelassem todas as atividades naquele final de tarde.
O tema da conversa que não aconteceu – Preta Sou – Escrevivências Negras – é instigante. Uma caminhada de resistência, minada de julgamentos e discriminação, que a escrita fez ecoar. E foi com emoção e alegria que aceitei o convite da Sandra La Porta para mediar o encontro com Midiã Noelle, Lília Guerra e Carolina Rocha. Três escritoras negras que trazem um retrato triste do Brasil. O Brasil de quem trabalha e não é visto. O Brasil do racismo e todas as manifestações, às vezes sutis, que segregam, das entradas de serviço até a parte da residência reservada para os serviçais. O Brasil daquela que é apresentada muitas vezes como parte da família, mas não é convidada para sentar à mesa. Midiã, Lília e Carolina compartilham vivências cotidianas com os leitores – a invisibilidade, as lutas, as religiões, os recados e as palavras que ficam no ar. Falam de cultura, de arte, do espaço que ocupam na sociedade, do dia a dia e da riqueza das origens africanas tão negadas. Fazem da literatura um grito de alerta consistente, forte e necessário. URGENTE! Um meio de mostrar a força e a beleza de culturas ancestrais de um povo que atravessou mares nos porões de navios e aqui ancorou para ser escravizado. Um povo afastado das suas origens que seguiu forte, preservando seus saberes. E que luta até hoje contra a discriminação que ainda persiste.
Cultura, arte e cidadania afrodescendentes entrelaçadas pela literatura, pela palavra, contra o preconceito de qualquer natureza.
– Midiã Noelle é autora do livro “Comunicação Antirracista – Um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares” (Ed. Planeta, 2025). Jornalista, mestra em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia/UFBA e fundadora do Instituto Commbne. Trabalhou em agências das Nações Unidas, organizações dos movimentos negro e feminista e na administração pública. Atuou como repórter, foi colunista do Jornal Correio, apresentadora do programa Conexões Negras, consultora e pesquisadora contratada pela UNESCO para a redação do Plano de Comunicação pela Igualdade Racial do Governo Federal. Dá cursos sobre comunicação estratégica com foco na mobilização social e nas relações raciais. “Ser um comunicador antirracista exige um olhar apurado, sensibilidade e doses de indignação. Não é possível promover a mudança sem se deslocar”.
– Lilia Guerra nasceu em São Paulo em 1976. Trabalha como auxiliar de enfermagem na capital paulista. É autora dos livros “Perifobia”, “O céu para os bastardos”, romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2024, “Rua do Larguinho”, “Amor Avenida”, entre outros. “Perifobia” é um neologismo criado por ela depois de perceber o quanto a periferia pode causar desconforto e até repulsa. As periferias das nossas cidades são negligenciadas e muitas vezes esquecidas, olhadas como se ali não vivesse gente como a gente, o que só reforça o medo, o abandono e o preconceito. “Se a gente acerta no começo, não dificulta o meio e não mata o fim.”
– Outra escritora convidada foi Carolina Rocha, professora e doutora, autora do livro “A Culpa é do Diabo – O que li, vivi e senti nas encruzilhadas do racismo religioso” (Oficina Raquel, 2024). Uma escrita que proporciona uma viagem impactante pelas religiões de matriz africana e o preconceito que gira em torno de quem é adepto. Carolina é uma pesquisadora de voz firme, que enfrenta e denuncia os abusos em busca de justiça e liberdade. “É desafiador para pessoas formadas em sistemas educacionais baseados em uma lógica linear e progressista exercitar o ‘olhar’ para a encruzilhada. Reconheço minhas limitações, mas sigo na busca desconfortável de ‘ver além do que alcança a vista’.

Li com entusiasmo os quatro livros que chegaram às minhas mãos. E mergulhei na escrita de mulheres negras que trazem um retrato genuíno e triste do Brasil, o Brasil dos invisíveis – das entradas de serviço, dos elevadores de serviço, do quarto dos fundos, do porteiro, da parte da residência reservada para os serviçais. O Brasil daquela que é apresentada como da família, mas não é convidada para sentar à mesa. As escritoras compartilham vivências diárias com o leitor, a invisibilidade, as lutas e as palavras que ficam no ar. Falam de cultura, de arte, do cotidiano, das religiões, da riqueza das suas origens africanas tão negadas. Fazem da literatura um grito de alerta consistente e forte, reafirmando um protagonismo hoje inquestionável. Um meio de mostrar a força e a beleza de culturas ancestrais de um povo que atravessou mares nos porões de navios e aqui ancorou para ser escravizado. Um povo forte que não renunciou às suas origens e não sucumbiu aos maus tratos. Seguiu firme valorizando seus saberes e fazendo sua voz ecoar e ser ouvida por meio da cultura e da arte. Um povo que resistiu e luta até hoje contra o racismo e o preconceito que ainda persistem.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Midiã Noelle / Reprodução do Instragram

