Voltei do Japão com a mala cheia de pequenos objetos e a cabeça transbordando perguntas. Como urbanista, foi impossível viver aquela experiência apenas como turista. Cada esquina parecia uma aula; cada estação de trem, um estudo de caso. Nas crônicas anteriores — Japão Tecnológico, Tóquio grande e pequena, Quioto e a força da coletividade e Osaka comercial — procurei registrar os encantamentos. Agora, talvez seja hora de falar dos desconfortos.
O Japão é, até 2025, a quarta maior economia do mundo, atrás de Estados Unidos, China e Alemanha. Um sistema econômico maduro, altamente industrializado, tecnologicamente avançado. Um país seguro, organizado, com infraestrutura que funciona e qualidade de vida para grande parte da população. Diante disso, é fácil transformar o modelo em meta, quase em fetiche.
Mas toda meta esconde custos.
Lendo sobre a formação dessa potência, fica evidente a aposta estratégica em educação e tecnologia — um projeto de Estado apoiado também por forte investimento privado. Um país que, ao ter pouca terra cultivável, decidiu cultivar conhecimento. Não havia muito espaço físico; então, expandiu-se em inovação. Sempre me lembro de uma professora alemã que me disse, certa vez em um congresso, que no Brasil adiamos soluções porque temos território demais — sempre é possível “empurrar o problema para mais adiante”. Uma vantagem geográfica que tratamos como se fosse infinita.
Ainda assim, o Japão não escapou das crises. Em 1990, o estouro da bolha imobiliária e a queda abrupta do mercado acionário mergulharam o país em um período prolongado de estagnação e deflação. Empresas quebraram, instituições financeiras colapsaram, o Estado se endividou. Ali compreendi uma primeira lição: mesmo economias sólidas não estão imunes às engrenagens de um sistema que parece estruturalmente inclinado ao desequilíbrio, e onde os mais vulneráveis são sempre os maiores prejudicados.
Vivemos, afinal, em um circuito permanente de competitividade. Pessoas, empresas, cidades e regiões disputando relevância. Alguns dirão que isso impulsiona a inovação. Eu me pergunto: a que custo humano? Quanto dessa corrida é vitalidade e quanto é adoecimento silencioso? Nem tudo que acelera nos fortalece como sociedade.
No Japão, onde as necessidades básicas estão amplamente atendidas, as contradições aparecem em outras camadas. Antes de viajar, eu já havia estudado suas usinas de incineração que transformam resíduos em energia, reduzindo em até 90% o volume de lixo. Uma solução engenhosa para um país de território limitado. Soma-se a isso uma cultura rigorosa de separação e responsabilidade individual: não há lixeiras nas ruas; cada um carrega seu lixo até descartá-lo adequadamente em casa. Comerciantes assumem o descarte do que vendem. Um pacto social admirável.
E, no entanto, ao caminhar pelas cidades, outra imagem me inquietava.
Tudo é embalado. Excessivamente embalado. Restaurantes oferecem toalhas umedecidas individuais que serão descartadas minutos depois. Guardanapos vêm protegidos por plástico. Um simples café com torta gera uma pequena coleção de resíduos: o sachê de açúcar, a pazinha para mexer, a embalagem do bolo, o invólucro do guardanapo, os recipientes de condimentos, o papel da bandeja. Camadas e camadas de material para proteger algo que será consumido em segundos.
A eficiência no tratamento do lixo parece aliviar a pressão sobre o consumo em si. Resolve-se o destino, mas pouco se questiona a origem. Em um planeta finito, seguimos produzindo como se o infinito fosse um direito adquirido.
A mesma sensação me atravessou ao visitar uma das megastores mais famosas dedicadas a personagens animados. Para entrar, fila. Para circular, fila. Um percurso cuidadosamente desenhado obriga o visitante a passar por todas as prateleiras repletas de personagens irresistíveis. Crianças hipnotizadas pelo desejo; adultos resignados à compra. Um templo contemporâneo onde a escassez é fabricada pela narrativa do “exclusivo”, do “limitado”, do “imperdível”. Uma expressão cultural que virou vício comercial.
Não se trata de demonizar o consumo — ele também sustenta empregos, ativa ruas, movimenta economias. Mas há algo perturbador na engenharia sofisticada do desejo. Celulares, cartazes, vitrines trabalham incessantemente para criar a sensação de falta. E, quando tudo está disponível, o que exatamente estamos tentando preencher?
Lojas de souvenirs, animes, mangás, produtos cosméticos, são visualmente deslumbrantes. Cores vibrantes, design impecável. Mas, sob a estética sedutora, há plástico — muito plástico — convertido em objetos cuja duração emocional é muito mais curta que sua permanência ambiental. Saí de algumas delas com a sensação incômoda de que dominamos tecnologias complexas, mas ainda não aprendemos a medir as consequências do próprio encantamento. Há uma falta de consciência planetária que representa nossa inconsciência enquanto espécie.
E então volto o olhar para casa.
O Japão possui cerca de 378 mil quilômetros quadrados e aproximadamente 122 milhões de habitantes — uma das maiores densidades populacionais do mundo. Se o Brasil tivesse a mesma proporção, nossos 8,5 milhões de quilômetros quadrados abrigariam algo em torno de 2,7 bilhões de pessoas. É um exercício quase vertiginoso imaginar que, ao ter 212 milhões de habitantes (12 vezes menos população), possuímos ainda muitos espaços naturais que representam uma grande responsabilidade enquanto nação.
Temos território, biodiversidade, água doce, terras agricultáveis. Nosso diferencial é natural. Mas diferencial só se sustenta quando reconhecido como responsabilidade.
É aqui que me lembro de Ailton Krenak. Em A vida não é útil, ele questiona a própria noção de “recurso natural”. Água, terra, plantas — como podem ser reduzidas à categoria de capital? Sua crítica à lógica utilitarista desmonta a ideia de que tudo existe para servir ao mercado. Propõe, em vez disso, uma reconexão sensível com a vida, uma escuta mais atenta à interdependência entre todos os seres.
Talvez essa seja a maior lição que trouxe do Japão: eficiência não substitui sentido. Tecnologia não resolve sozinha dilemas éticos. Crescimento não equivale, automaticamente, a equilíbrio.
Entre o fascínio e o incômodo, sigo convencida de que o verdadeiro desenvolvimento será aquele capaz de integrar inovação com consciência, prosperidade com limite, e progresso com cuidado. O desafio não é escolher entre modelos, mas construir um que nos permita continuar existindo — não apenas como economia, mas como espécie.
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Foto da Capa: Tripadvisor

