Mal pude acreditar ao ouvir aquele conselho, embora soubesse, desde sempre, que cedo ou tarde alguém o diria. Desde meu primeiro episódio depressivo, esse conselho me persegue: “aproxime-se de Deus”. Confesso que, em outras épocas, eu tive uma certa curiosidade de saber se estava sendo atormentada por algum espírito zombeteiro, um inimigo de vidas passadas ou se a minha condição era resultado de um karma que eu deveria pagar nesta vida. Apegava-me à fé não por convicção, mas por medo de me encarar de verdade.
Mas a depressão voltou, agora acompanhada de transtornos de ansiedade e, no lugar das antigas crises de pânico, uma nova visitante: a síndrome de burnout. Ora, que surpresa! Uma professora com uma coleção de transtornos psíquicos. Quem diria? Razões para mais uma queda não me faltavam. E, como sempre, a ladainha veio: previsível, quase pontual. Sempre há alguém por perto disposto a oferecer ajuda, contrariando a ciência e apresentando soluções espirituais embaladas em boa intenção. Não me entenda mal, não desprezo a espiritualidade de ninguém, tampouco nego seu valor. Mas, depois de tantas recomendações repetidas, tantas tentativas de cura pela fé, a exaustão chega. O que muitos esquecem é que, além de professora, eu sou escritora. E é na literatura, e só nela, que eu tenho conseguido exorcizar meus demônios.
Em O perigo de estar lúcida, Rosa Montero comenta sobre a relação da criatividade com o desequilíbrio mental, que os escritores, de certo modo, vivem no limite entre o delírio e a lucidez. Além de conservarem muitas manias, os artistas e, em especial, os escritores estão mais propensos à depressão. Isso acontece por não conseguirem se blindar do mundo como a maioria das pessoas parece fazer. Para o escritor, a realidade não é suficiente e, por isso, ele precisa ir mais longe: uma vida não basta. O escritor sente demais, observa demais e, muitas vezes, carrega nos ombros o peso das dores alheias. Quando estou escrevendo um romance, eu entro na pele dos personagens, sinto suas agonias, mas também descarrego neles os meus incômodos.
A literatura me obriga a encarar o que há de mais sombrio em mim, me lança diante do espelho com uma crueza que nenhuma oração alcança. Se não fosse ela, eu ainda estaria como lá no início, quando precisei abandonar as salas de aula para me cuidar. É claro que os remédios e a terapia tiveram a sua parcela de mérito, mas foi escrevendo que encontrei a escada para sair do fundo. Quando eu escrevo, deixo de ser eu. Há quem chame isso de fuga, mas, para mim, é enfrentamento.
Rosa Montero diz que “somos todos esquisitinhos, embora, é verdade, uns mais do que outros”. Ela, que sofreu ataques de pânico dos dezessete aos trinta anos, relaciona o lançamento do seu primeiro livro e a publicação regular de sua escrita à melhora de suas crises. Para a autora, “ser romancista, na verdade, é uma atividade bastante estranha, quase diria que extravagante. Consiste em passar uma quantidade enorme de tempo, dois anos, ou três, ou o que for, trancada sozinha num canto da sua casa inventando mentiras.” E é exatamente nessas mentiras que nos encontramos. É libertador criar personagens que se curam de traumas que não conseguimos resolver, que extrapolam barreiras que não conseguimos alcançar.
Escrever é, para mim, uma forma de ordenar o caos, de recolher os cacos que sobraram dos dias e moldá-los em algo que faça algum sentido. Escrever também é um jeito de sobreviver, de transformar o insuportável em frase, de traduzir a dor em palavras. E é curioso como, de fora, a escrita ainda pareça um capricho, um passatempo, um luxo de quem tem tempo. Poucos entendem que, para alguns de nós, ela é necessidade.
A escrita não me curou, mas me manteve viva. Mais do que qualquer religião, o poder que a escrita tem sobre mim é capaz de me resgatar quando estou prestes a desaparecer. Se há uma fé que me sustenta, ela está nas palavras que consigo juntar mesmo nos dias mais escuros. Talvez seja isso que as pessoas não veem quando, bem-intencionadas, me aconselham a rezar mais, a confiar mais em Deus, a procurar um propósito maior. O que elas não percebem é que, ao escrever, eu já estou fazendo tudo isso.
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