“Não chores, Lola
Um coração partido
Não é o fim”
Júlio Reny
Nem tudo está perdido para o querido músico gaúcho Júlio Reny, que recentemente sofreu uma agressão horrorosa. Mais precisamente, uma violência doméstica por parte de seu ex-produtor. Ainda por cima, com uma nota simbólica sinistra: o cantor foi agredido com o troféu do prêmio que recebeu dias atrás, o tradicional Açorianos, de Porto Alegre.
Como porto-alegrense, órfã da rádio Ipanema, que acompanhou a mim e a meus amigues de adolescência muito mais do que a MTV, não pude não me comover quando vi o vídeo da filha de Júlio, Consuello Vallandro, contando a situação delicada em que estava o pai. Quer dizer, a ponto de perder totalmente a visão, já antes prejudicada, devido aos brutais golpes desferidos. Em entrevista, Júlio comentou sobre a sensação de traição e sua impossibilidade de defesa e emocionou-se ao lembrar como vem sendo auxiliado desde então.
A menina “enamoradiza” que fui muitas vezes se consolou com os versos de Não chores, Lola. Afinal, era importante lembrar que “um coração partido não é o fim” e entender que “sonhos são manequins em vitrines obedecendo aos nossos desejos”. Verso bem freudiano, por sinal. Essa canção é uma joia nacional que mantém no título a nossa conjugação sulista da segunda pessoa – o nosso tão querido tu – coisa rara! E também foi por meio da arte de Júlio que a moça reconheceu a erótica retorcida que nós, mulheres, por vezes sustentamos, como na canção que diz: “Mas no seu beijo falta corte, venha com tudo, baby, e me dê amor e morte”. Aliás, Amor e Morte foi uma música escrita em parceria com sua primeira esposa, quando ela já era sua ex.
Nos últimos tempos, o artista de 66 anos vinha encontrando uma série de dificuldades para se sustentar com problemas de saúde e dívidas. Na sucessão dessa tragédia, sua filha abriu um financiamento coletivo para seu tratamento e este superou as expectativas. Ao mesmo tempo, a visibilidade trazida pelo evento também está possibilitando novas oportunidades para o cantor que, por ora, não poderá se apresentar, mas que tem planos de retorno. Felizmente, apesar do susto e da decepção, parece que realmente não é o fim.
Júlio ainda disse poeticamente sobre o incidente: “O que é uma gota de maldade no oceano de bondade que estou recebendo?” Nos meus melhores dias, penso como ele. Intuímos esse oceano por saber que os atos humanos mais sublimados não dão ibope, a não ser que venham atrelados a uma cota enorme de sacrifício e masoquismo… Bom, este é outro assunto.
Hoje, no entanto, me intriga que ainda precisemos de eventos disparadores, como tragédias, para acionar nossos melhores gestos. Aquela bondade que só se manifesta como reativa. No todo, o episódio me lembra que ainda somos melhores reagindo à maldade do que nos antecipando a ela.
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Foto da Capa: Júlio Reny / Reprodução do Youtube

