Atendo pessoas com diferentes diagnósticos. Aliás, muitas delas prefiro que não se encontrem com nenhum tipo de diagnóstico, ainda que, por vezes, seja inevitável. Vamos ver se me explico. Lacan – psicanalista e conterrâneo do atual e bamboleante presidente da França, Macron – dizia que o Eu é função de desconhecimento.
Talvez os franceses não reconheçam o Macron que desfila de mãos dadas com Lula na COP-30 ou que se deixa levar pela brasilidade contagiante do nosso povo alegre. Quiçá Macron, em nossa terra, até se esqueça um tanto de seu neocolonialismo nutella; talvez se desconheça. Quiçá, quiçá, quiçá.
Atendo a pacientes que se encontram com diagnósticos socialmente difíceis – autismo, bipolaridade etc. Vez ou outra lhes digo algo como: você recebeu e tem um diagnóstico, você não é um diagnóstico. Outras vezes, o diagnóstico sustenta algo psiquicamente importante – por ser aquilo que se tem, quer dizer, um ativo –, então, me calo. No entanto, não esqueço que nenhum eu se reduz a um diagnóstico ou a uma ficção sem custo.
O eu é função de desconhecimento, porque quanto mais estamos fechados “nele” – sem arejamento, sem novidade ou criação –, mais próximos estamos da loucura que, no fundo, é apenas o aprofundamento obsceno da recusa do eu no encontro com o outro.
Há alguns dias, aqui no planeta de Milei, um psicanalista se perdeu nessa curva. A curva do eu. E, ao mesmo tempo, como dizemos no Brasil, se perdeu no personagem. Trata-se do influencer psicanalítico chamado Javier Perez, mais conhecido como Dr. Chinaski – apelido oriundo da admiração do cabra pelo personagem Henry Chinaski, de Charles Bukowski. O psi influencer, muito cômodo em sua presença, que qualifica como de barrio – uma forma de dizer popular – foi a um podcast e disse algumas barbaridades do estilo: “Freud disse: o analista poderia baixar do nível analítico e se meter na cama com a pessoa. (…) Sempre que vem ao consultório uma garota que se percebe linda, cedo ou tarde te propõe passar a outra coisa”. A partir de então, a indignação tomou conta das redes sociais, mas não só. Em uma faculdade onde lecionava, o psicólogo e professor – que, na verdade, não é doutor – passou a ser alvo de denúncias de acosso por parte de ex-alunas. Ao mesmo tempo, nos colégios de psicólogos da região, fala-se em incitação a abuso sexual e abuso de poder.
Enfim, esse assunto recém começa e, de fato, somado à escrotice e machulência que se evidenciam, o tal Dr. Chinaski talvez tenha se reconhecido demais, se identificado demais e feito lambança com o seu eu, querendo ser mais real do que o rei.
Li Bukowski o suficiente para saber que Henry Chinaski – alter ego de Charles Bukowski – se tratava de um macho abatido ou prestes a ser. Além de, é claro, sustentar um empedernido e orgulhoso alcoolismo não tratado. Não quero julgar quem não conheço e que já está lidando com a justiça, mas penso que parte da questão do tal Chinaski castelhano passa por confiar demais no personagem, como muitos pacientes se atrapalham ao confiar demais no diagnóstico que recebem.
É aí que o espelho se torna “terrível, uma incrível máquina de repetições”, como dizia outro escritor, o também argentino Cortázar.
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Foto da Capa: Javier Perez ou Dr. Chinaski / Reprodução do Instagram

