Duas de minhas doutorandas se vinculam a projetos de pesquisa sob minha direção, ambos voltados para questões relacionadas a vivências, dilemas e formas de ser e estar no mundo das mulheres – sendo que um desses projetos, na pegada intersetorial contemporânea, volta-se para as mulheres trabalhadoras brasileiras pretas. Como eu, o supervisor acadêmico dessas iniciativas, não sou nem mulher, e muito menos mulher preta, aqui e ali algumas “caras feias” se crispam motivadas pela questão – expressa ou sugerida – acerca de minha, digamos assim, elegibilidade para essa tarefa de supervisão. O aspecto de atravessamento dessa postura hostil, ocasionalmente explicitado, faz apelo ao distanciamento de meu “lugar de fala” em relação ao tópico de interesse. O que recomendaria que tivesse passado longe desse assunto. E que eu me abstivesse de qualquer tipo de consideração, dado meu lugar de fala de homem no máximo pardo (para uns e outras).
A escritora inglesa-jamaicana Zadie Smith compartilhou a seguinte perspectiva, que Sérgio Rodrigues transcreveu em livro maravilhoso que publicou recentemente (“Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs”):
“O que me insulta a alma é a ideia — popular na cultura de hoje, apresentada em graus bastante variados de complexidade — de que só podemos e devemos escrever sobre pessoas que são fundamentalmente “parecidas” conosco: racialmente, sexualmente, geneticamente, nacionalmente, politicamente, pessoalmente. Que apenas uma conexão autobiográfica íntima do autor com o personagem pode ser base legítima para a ficção. […] Não acredito nisso, e não teria escrito nenhum dos meus livros se acreditasse.”
O copo meio cheio nessa questão do “lugar de fala” diz respeito, efetivamente, à consideração respeitosa de um mínimo de massa crítica prévia da parte de quem se dispõe a tratar seja qual for o tópico da contemporaneidade. Tenho lido análises sobre a misoginia em países muçulmanos que ignoram completamente o contexto histórico de onde emergiu a representação social das mulheres nessa cultura, representação esta que caberia considerar para tratar de iniciativas sociais em relação a elas. Tais análises tratam um fenômeno fortemente enraizado num fluxo histórico específico como se esse fenômeno pudesse ser abordado em bases completamente genéricas, “universalistas”, ou pior: com base em viés de uma cultura na abordagem de outra – soberba colonialista em estado puro.
O copo meio vazio dessa questão diz respeito às interdições que se estabelecem a vários nichos de problematização, em face de insuficiente proximidade entre analista e tópico analisado – como no meu caso, aludido na abertura desse breve texto. “Homem não tem como abordar questões referentes às mulheres. Ponto final.” O mesmo vale em contexto de raça – brancos que se arvoram a falar de pretos, notadamente.
Naturalmente, não poderia apoiar essa postura de cerceamento de possibilidade de problematização por parte de quem não seja suficientemente próximo (seja lá por qual critério) do foco de interesse e análise. Até porque tal proximidade não garante absolutamente nada, mesmo que se admita que a mesma venha a facilitar contextualização.
Então sigo nessa jornada de formação de duas estudantes mulheres, ambas às voltas com tópicos de pesquisa voltados para as vivências de trabalhadoras-mulheres. Com a tranquilidade de que tudo vale a pena quando a alma teórico-metodológica não é pequena, e que, na pior das hipóteses, terei aprendido com elas.

Em terra de sapo, de cócoras com ele. Mesmo sendo um jabuti.
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Ilustração da Capa: Freepik

