Olhando as fotos e lendo os sites de notícias e comentários nas redes sociais sobre o encontro do Lula com o Trump na madrugada de domingo (26/10) para nós e na tarde de domingo para os malaios, lembrei do genial Millôr Fernandes.
Millôr, um dia, naquele espaço que ocupava nas edições de Veja, adicionou uma frase a um provérbio atribuído a Confúcio, o filósofo chinês que viveu lá pelos anos 500 antes de Cristo.
Dizia Confúcio que uma imagem vale mais que mil palavras. Millor, com a simplicidade dos gênios, acrescentou: “Diga isso sem palavras…”
Pois é… A cobertura da reunião mais esperada do ano – até agora – mostra que, mesmo as melhores imagens, precisam de umas palavrinhas para ficarem completas. Todo mundo está explicando as fotos do encontro dos dois chefes de Estado.
E tudo fica tudo restrito à polarização. Tem gente dizendo que a imagem mostra a superioridade do Lula, mais à vontade, gesticulando para um Trump inclinado em direção a ele como quem pede alguma coisa. E o Rubio prestando muita atenção.
De concreto mesmo, como resultado da reunião, fica um talvez.
Afinal, estiveram cara a cara, pela primeira vez, o presidente do Brasil, político forjado em todas as mesas de negociações políticas, desde as que reúnem patrões e empregados até as mais altas cúpulas de chefes de Estados, e o presidente norte-americano, criado no mundo dos negócios – de imobiliárias a cassinos, passando por programas de TV em que selecionava candidatos a empregos em suas empresas.
Pulando para a política, ambos tiveram êxitos. Lula mais. Trump disputou, até agora, três eleições. Sempre para presidente. Na primeira, em 2016, derrotou Hillary Clinton no colégio eleitoral. Na manifestação popular, a Clinton teve 3 milhões de votos a mais.
Em 2021, último ano do mandato, foi identificado pelo Gallup como o único presidente dos Estados Unidos a nunca atingir 50% de aprovação. Passou o governo para Joe Biden, para quem perdera em 2020, com a aprovação popular variando entre 29% e 34%, a mais baixa desde que começara as pesquisas naquele país. Derrotou Kamala Harris (Biden) em 2024 e encaminha o mandato para terminar, como sempre, com a popularidade em baixa.
Pesquisa do Instituto Ipsos, publicada na revista Carta Capital, aponta que o trabalho de Trump é desaprovado por 56% dos americanos. Na economia, só 36% aprovam a gestão Trump.
Vamos ao Lula. Foi eleito deputado federal em 1986. Disputou, ele mesmo, as eleições presidenciais desde 1989, 1994, 1994,1998, 2002, 2006. Perdeu as três primeiras. Foi eleito em 2002, reeleito em 2006 e garantiu a vitória e a reeleição de Dilma Rousseff, indicada por ele, em 2010 e 2014.
Em 2018, preso pelas lambanças apuradas, na depois desmoralizada Operação Lava Jato, teve nas suas costas o peso da derrota de Fernando Haddad para o hoje inelegível Jair Bolsonaro.
Voltou em 2022 para ocupar, pela terceira vez, o terceiro andar do Palácio do Planalto. E já avisou que vai disputar a eleição do ano quem. E as pesquisas o apontam como favorito em todos os cenários eleitorais.
Com esse currículo, com essa experiência em mesas de graúdos, será que Lula, em algum momento, teve mesmo receio de alguma armadilha, de alguma casca de banana no caminho até essa conversa com o Trump?
Lula sabe, como poucos, mexer com emoções. Trump é mais frio. Quer saber do lucro e não se preocupa com quem fica no prejuízo. A primeira prova de que Lula mexeu com o emocional do Trump foi aprontada pelo próprio presidente norte-americano quando ele disse que pintou uma química entre os dois num encontro de 30 segundos.
O que vem por aí? Ninguém sabe. A reunião, até agora, rendeu aquele talvez que é sim para quem temia ouvir um não e é não para quem esperava ouvir um sim.
Por enquanto, está mais para o sim que Lula quer ouvir. Afinal, Trump já admite rever o tarifaço e até o Rubio já disse que as coisas estão bem encaminhadas. No fim, os dois, parece, vão dizer que sim. O Trump diz que sim, reduz as tarifas. Lula diz que sim, não vai mais pedir para tirar o dólar das negociações bilaterais e aceita investimentos dos Estados Unidos na exploração de terras raras por aqui.
Ah! Pra não dizerem que eu não falei dos dois: será que o Dudu e o netinho do ditador pensam mesmo que podem ter mais influência na Casa Branca do que o presidente do Brasil?
E deve ter gente – Dudu e o netinho do ditador, por exemplo – dizendo que Lula se esforça para explicar alguma coisa ao presidente dos Estados Unidos.
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Foto da Capa: Ricardo Stuckert /PR

