“Ah, só quando ela escorregou para fora das roupas fui perceber que não estava vestida. Que, embora ela tivesse se despido na minha frente, não se via roupa nenhuma caindo. Que isso só a tornava ainda mais nua. Entenda quem puder.” Frase do narrador do livro Don Juan (narrado por ele mesmo), do Peter Handke.
Para quem não lembra quem é o Peter Handke, conto que, além de Nobel de Literatura, ele é parceiro do Wim Wenders em três longas-metragens. Entre eles, o Asas do Desejo. Eu gosto muito desse filme. É um filme romântico: um anjo se joga do alto por uma mulher. Renuncia às asas, à imortalidade, vira um de nós por amor.
Não é fácil ser gente como a gente, Ordinary People, nome do filme, dirigido pelo Robert Redford, em que todos se desentendem. Somos por demais vulneráveis e finitos, mas enganamo-nos se vivemos ou imaginamos estar amando e sendo amados. Falo em imaginação porque, muitas vezes, não há sentimento, e o pouco afeto é servido em lascas feito uma carne suculenta, mas difícil de digerir.
A palavra suculenta me vem à cabeça por causa do ‘estar ainda mais nua’ escrito pelo Handke. Se tem algo que faz com que nós, as representantes do cromossomo X, eroticamente falando, pareçamos apetitosas é essa habilidade para tirar a roupa. Os homens, até onde sei, seguem precisando de um cursinho. Boa parte perde o charme já na metade do percurso.
Mas este texto não é sobre charme, embora eu o considere um item básico. E adorável! Charme é uma forma de inteligência e de beleza, e a soma dessas duas espécies de vantagens, que alguns levam em uma sociedade moldada pela máquina da desigualdade e da competição, inclusive nos relacionamentos, impacta.
Uma vez, coisa mais simplória escrever uma vez, um Fulano me disse que, em todos os relacionamentos, uma pessoa é mais afetada e gosta mais da outra e que esse desnível faz com que a menos estimada faça uma manutenção maior da convivência, o que ele considerava positivo. Não sei se concordo. Tenho dificuldade para concordar com verdades absolutas, mas percebo, sim, em muitos casais, um certo descompasso, principalmente quando um dos envolvidos possui um caráter maligno.
Caráter maligno e também duvidoso são expressões do tempo dos meus pais. Os dois adoravam dizê-la. Insistiam para que meus irmãos e eu ficássemos atentos à essência e à conduta das pessoas. Eu quebrei muito a cara, a cara é uma outra fala simplória, deveria dizer a face ou o coração ou a boa-fé, por não ser desconfiada, tampouco possessiva e ciumenta e preferir ser apenas zelosa.
É claro que consertei todos os meus danos. Melhor dizendo, me remendei. Não tem fio de ouro que embeleze as nossas fissuras emocionais. Não somos preciosas porcelanas. Em nós, as cicatrizes são de pontos inabsorvíveis e infeccionam. Don Juan, com suas habilidades cirúrgicas para as práticas abusivas, sabe dar nós mais mentais do que de qualquer outra ordem. E tudo que é do território do impalpável é um enigma. Mas ele não é invencível e inesquecível.
O que não falta no tipo é uma escondida zona de baixa autoestima. Todos os que conheci tinham. E eu conheci um bocado. Não biblicamente. Essa palavra faço questão de escrever em homenagem a Eva. Não tem paraíso que o Don Juan prometa que Eva não tenha chegado antes. E, tal como ela, opto pela discrição. Poder ser discreta é um dos poucos privilégios que a sociedade oferece às mulheres, e as mais inteligentes o usam bem, por vezes, se fingindo de tolas, o que é facílimo em um mundo de homens doutrinados para nos subestimar.
Don Juan é um tipo de homem que não tem certeza de que mulher também é gente. Seu conceito vai mais pelo caminho de que se trata de alguém com características convergentes com seus interesses, uma criatura sem identidade, padrão ‘todas as mulheres do mundo’, uma igual à outra, equivalendo a todas. E aí tanto fez tanto faz com quem está, mesmo que ele tenha a sorte de se deparar com uma pérola. Minha mãe repetia a frase: não se deve dar pérolas aos porcos… Don Juan deveria ler Cacaso: “Muitas mulheres na minha vida. /Eu é que sei o quanto dói”.
Nos últimos anos, por força da experiência, o meu radar acabou com o dom da maior parte dos Juans com quem cruzei. Deixei de ser uma presa. Ou quase. Falhas de sistema acontecem. Permiti um pequeno trânsito de caçada e de manipulações de um sedutor, de fato, estimulante. Por pouco tempo, tenho de dizer em minha defesa. Não que eu esteja sendo atacada. É só um mea culpa. Não nego a minha participação. Participei porque quis, me responsabilizo. Se não fosse por esse somenos dele sofrer de don-juanismo, eu não teria de dizer ‘lamento não poder gostar de você’.
Mas tenho. Perdi a paciência para jogos. Conheço o tabuleiro, sei mexer as peças e jogar os dados como se fosse eu mesma o conquistador. A questão é que não gosto. Essa dinâmica permeada pela ausência de sensibilidade e de respeito me aborrece. E não levo jeito para sofrer. Não foi feita para mim a síndrome do amor infeliz. Ou da escuridão. Eu gosto de luz, e o que é ótimo: a luz gosta de mim.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

