Participei da apresentação do Laboratório de Antecipação da Luzz Design “Bem-Estar Integral: Saúde Física, Saúde Social e Saúde Mental”, que reportou cenários de futuro para daqui a dois, cinco, dez anos e além. Um trabalho árduo, desafiador e bastante sólido.
O debate mediado pela Paula Visoná, uma das sócias da Luzz, entre especialistas de diferentes áreas do conhecimento com o público presente, que acrescentaram suas visões diversas, resultou num diálogo muito rico e participativo, prolongado numa grande mesa de almoço no próprio local do encontro, Casa 5Silva. Um grande encontro de gentes e ideias. Mas vamos ao estudo?
De acordo com a pesquisa, o mercado global de bem-estar, em geral, deve alcançar US$ 9 trilhões até 2028. Nesse cenário, o Brasil se destaca como o 12º maior mercado global e o 1º na América Latina, evidenciando o vasto potencial econômico e a relevância estratégica deste setor para o consumo. Afinal, o que é Saúde Integral?
Conforme definição da Organização Mundial da Saúde, saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.
De acordo com a definição da OMS, precisamos atuar sobre as dimensões física, mental e social para desenvolver o bem-estar completo, compreendendo que elas estão intrinsecamente conectadas e se influenciam mutuamente, sendo cruciais para uma vida equilibrada e plena. Cuidar da saúde envolve manter o corpo funcionando bem (física), manter bem-estar emocional e psicológico (mental) e desfrutar de relacionamentos e de um ambiente social positivo (social).
Esse conceito esclarecido, vamos ao Estudo da Luzz, que nos oferece números insights sobre comportamento:
Dimensão da saúde física
A saúde física é “a que tem uma relação mais direta com cuidados com o corpo, como a alimentação e, também, com a prática de atividades físicas. Porém, nos últimos anos, principalmente após a pandemia, a saúde física assumiu um papel de protagonismo na sociedade e no mercado”.
As pesquisas trouxeram para nós reflexões interessantes, como o crescimento de comunidades de práticas coletivas de atividade física, inclusive digitais, tendo a corrida como um dos seus exemplos, em Porto Alegre, é marcante.
Saúde física para quem? Outro aspecto, que gerou uma longa troca durante a apresentação, já que, num estudo global da McKinsey & Company, 68% dos consumidores de alta renda declarou que veem o estilo de vida fitness como um “indicador de sucesso”, equivalente a bens de luxo tradicionais. Enquanto isso, aqui no país, de acordo com o IBGE, entre indivíduos com renda familiar superior a 10 salários mínimos, o tempo médio dedicado a atividades físicas é 2,7 vezes maior do que entre aqueles com renda inferior a 2 salários.
E aí também podemos tratar de outra questão, além da econômica, que é a da acessibilidade e do planejamento urbano. Sabemos que quem mora em territórios precarizados caminha em calçadas de má qualidade, quando tem, mais tempo até o transporte, normalmente público, levando mais tempo para chegar ao seu destino. No geral, tem poucas ou nenhuma opção de praças e espaços públicos para a prática esportiva. Também nela podemos incluir a questão do gênero, que impede mulheres da prática esportiva à noite por falta de iluminação, ou a saída de pessoas idosas e com deficiências por falta de calçadas e equipamentos de acessibilidade adequados, por exemplo. O território urbano se torna hostil aos corpos, que se veem obrigados a se recolher e se isolar. O efeito? Menos saúde física, gerando impactos nas outras dimensões.
Saúde ou performance
Nessa busca, muitos movimentos surgem e acabam confundindo o que é uma coisa com a outra. Olha o caso do Strava, a ideia é boa. Ele é um aplicativo, como se fosse um diário esportivo de quem corre e gosta de compartilhar resultados não só como métrica, mas como forma de conexão. O Brasil já é o segundo país com mais usuários no mundo. Porém, nesse universo, é criada a narrativa de sucesso com os equipamentos utilizados, o óculos especial, o relógio “Garmin”, o “pace” performado. Criou-se a Comunidade. Mas onde ficou o bem-estar?
Assim como esse exemplo, também foi trazida a tendência cada vez mais crescente dos suplementos nutricionais, hormônios, whey proteins e companhia, inclusive numa estética “candy”, como se fosse uma balinha inofensiva. A nova onda é a testosterona, inclusive para homens mais jovens. Um verdadeiro risco, de acordo com os profissionais da saúde que lá estavam. Porém, em seus consultórios, tem observado que a urgência pelo resultado, em grande medida, é o que tem orientado essas pessoas para eles. E será que em busca de saúde ou performance?
Chegou-se à conclusão de que, velha ou nova, a pessoa precisa ter a indicação profissional para o uso de qualquer substância. E, quando falamos de indicação profissional, não está valendo a opinião do “influenciador das redes sociais”, pois é preciso a individualização da prescrição.
Deixo a pergunta: quem tem alguma doença, colesterol alto, diabetes, HIV+… Alguém que convive com sequelas de um derrame ou com a condição de Alzheimer… Uma pessoa com deficiência… elas podem conquistar A saúde integral? De que maneira?
Dimensão da saúde mental
Os resultados trazidos no estudo na área da saúde mental são estarrecedores:
• No mundo, os custos econômicos da perda de produtividade associada à depressão e ansiedade são estimados em US$ 1 trilhão por ano;
• No Brasil, entre 2019 e 2022, o consumo de remédios para ansiedade cresceu 10%, o de sedativos aumentou 33% e o de antidepressivos saltou 34%;
• O Instituto Cactus divulgou números de ICASM — Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental.
• Os jovens entre 16 e 24 anos apresentam o ICASM de 523 pontos, o menor entre as faixas etárias analisadas. Uma diferença de quase 100 pontos em relação às pessoas no intervalo de idade seguinte (625 entre aqueles de 25 a 34 anos). É um abismo ainda maior comparado à faixa etária com o maior ICASM, que registrou 724 pontos para a população acima de 60 anos.
• O ICASM das mulheres foi de 593 pontos, quase 100 pontos a menos do que o dos homens (691). A maior diferença se deu na dimensão vitalidade, que reflete a disposição e a capacidade de ação para superar desafios e adversidades, assim como o sofrimento psíquico associado a eles: 592 pontos em comparação a 705 dos homens.
Outro aspecto partilhado em nível mundial e nacional é a ansiedade climática, uma resposta psicológica diante de evidências científicas incontestáveis de colapso ambiental que testemunhamos frente a secas, enchentes, inundações, ondas de calor, perda da biodiversidade, aumento da temperatura global, entre outros eventos.
“Mais de 60% da população brasileira já experimenta algum nível de ansiedade relacionada às mudanças climáticas. Essa preocupação é ainda mais intensa na região Nordeste, onde o índice chega a 77%”. E as populações de baixa renda, agricultores, ribeirinhas, comunidades tradicionais, negras, mulheres são as mais atingidas.
No mundo do trabalho, também se observa o fenômeno da deterioração da saúde mental. “Em 2024, os afastamentos por transtornos mentais como ansiedade e depressão atingiram o pico da década no Brasil, representando 70% dos afastamentos por saúde”.
No aspecto da saúde mental, é necessário ponderar as pesquisas que demonstram o quanto as discriminações nas diversas circunstâncias ao longo do ciclo de vida, baseadas em gênero, idade, cor, classe social, entre outras, vão refletir e/ou agudizar condições nessa área.
Mais um fator a ser considerado na dimensão da saúde mental é a interferência da internet na vida de crianças, adolescentes, jovens, adultos e pessoas idosas. Nossa saúde mental também está sendo influenciada pela internet nos dias de hoje.
A partir destes dados, refletiu-se sobre a tendência do surgimento de aplicativos na área de saúde mental oferecendo “saúde mental”, pois, conforme a European Public Health Alliance – EPHA, a maioria não possui regulamentação adequada nem evidências científicas robustas, operando fora da definição de “dispositivos médicos”. Além disso, 44% desses aplicativos compartilham dados sensíveis dos usuários — como estado emocional e hábitos — com terceiros, incluindo anunciantes, sem o consentimento explícito dos usuários. Isso resulta na monetização de informações íntimas e expõe os indivíduos a potenciais violações de privacidade”. Perigoso, né?
Para os especialistas em saúde presentes no encontro, uma grave questão no uso da Inteligência Artificial como ferramenta de terapia é que a resposta se baseará na pergunta, sem considerar a história da pessoa, seu contexto cultural, social e a construção de vínculo entre terapeuta e paciente, em que se podem efetuar leituras que vão além da escrita, por exemplo. A Inteligência Artificial oferece uma resposta genérica baseada numa pergunta (não necessariamente bem formulada).
Fica a pergunta: quem lida com algum transtorno na área da saúde mental pode conquistar saúde integral? Como é possível?
Dimensão Saúde Social
Enquanto a saúde física se refere ao bem-estar do corpo, e a saúde mental ao equilíbrio da mente, a saúde social está relacionada à qualidade dos nossos relacionamentos e à sensação de pertencimento a uma comunidade.
Aqui, iremos olhar, entre outros dados de pesquisa, os que a OMS produziu a respeito de conexão social, que abordam solidão e isolamento social (esmiucei o relatório da OMS a respeito deste tema em duas colunas, coluna 1 e coluna 2):
• A solidão afeta uma em cada seis pessoas no mundo, com impactos significativos na saúde e no bem-estar, conforme relatório da Comissão sobre Conexão Social.
• 24% das pessoas em países de baixa renda disseram sentir-se solitárias, o dobro dos 11% relatados em nações de alta renda.
• Entre 17% e 21% dos indivíduos de 13 a 29 anos relataram sentir-se solitários, com as taxas mais altas entre os adolescentes.
A conexão social é tão vital que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu uma comissão dedicada às conexões sociais, reconhecendo-as como uma “prioridade de saúde global”.
E a infodemia?
“Embora não seja um fenômeno recente, a infodemia – o excesso prejudicial de informações, incluindo boatos e desinformação – adquiriu um novo significado na era das redes sociais, evidenciando seu potencial nocivo à saúde pública durante a pandemia da Covid-19. A proliferação de notícias falsas, aliada à rapidez com que esse tipo de conteúdo se espalha, gerou impactos negativos profundos na sociedade contemporânea.”
Como tendência, a Luzz aponta que o termo JOMO (Joy of Missing Out, ou seja, “alegria de ficar de fora”) é a antítese do FOMO (Fear of Missing Out, “medo de ficar de fora”) e “vem sendo usado como uma senha para quem celebra o prazer de estar ausente de eventos, notificações e redes. Traduz uma mudança de valores: a felicidade não está na participação compulsória em diferentes ambientes digitais ao mesmo tempo, mas na escolha consciente de priorizar experiências vivenciais e, portanto, interações e pertencimento a comunidades e grupos”.
Comentou-se no grupo que novas conexões sociais são possíveis de serem feitas e mais eficazes quando são feitas a partir de interesses em comum do que por faixas etárias, criando trocas intergeracionais e incrementando os relacionamentos.
Trouxe também que uma das razões de isolamento social é que, por causa da “pressa e/ou produtividade e/ou performance e/ou conforto” propiciado por aplicativos e serviços de tele-entrega, nos retiramos do espaço público e vamos perdendo o pertencimento ao território. Hoje, para vir até nossa porta, chamamos o tele da farmácia, o aplicativo de comida, o aplicativo do supermercado, o whats da loja… Em vez de caminharmos pelas ruas e reconhecermos a vizinhança e arredores, indo até atendentes, garçons, repositores, recepcionistas, vendedores e conversarmos com eles, onde conversas sobre o clima, a vida e a cidade podem ser feitas. Isso também é estratégia para evitar ou sair do isolamento social.
Diz o ditado que “quem tem saúde tem tudo”. Não sei você, mas tendo a concordar. Saímos do encontro com a certeza de que é preciso ter muito claro qual é o conceito de saúde que queremos para nós, pois o que muitas vezes nos é oferecido nos vem embalado como saúde, parece com saúde, cheira como saúde, tem gosto de saúde, mas não é.
O estudo completo da Luzz possui 124 páginas, disponível por um valor simbólico. Mas há uma edição gratuita e também robusta. Instagram da empresa.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

