Por que, afinal de contas, eu me tornei um escritor? Como achar uma resposta se a única verdade é que nós nos perdemos sempre. Acrescentei um pronome ao verso do poeta, mas o sentido é o mesmo, achando ou não o pronome. Nós nos perdemos sempre. E, parafraseando outro poeta, o que faz um homem perdido entre outros, senão tentar achar uma resposta para o que perguntou?
Respondo: ele chama a mãe. Mãe! Manhê! Maaa-nhê! MANHÊ! Foi o que eu fiz no então pré-primário. Uns chegaram à escola já lendo; outros, não ainda. A professora dividiu a turma em dois grupos, um dos já, outro dos não ainda. Ela tinha boas intenções. A sua ideia era reforçar os não ainda leitores, incluindo a ajuda dos já. Mas, com ou sem mãe, criança é cruel e, para os pequenos íntimos daquele pré, os grupos foram logo apelidados de o dos inteligentes e o dos burros.
Eu era um burro entre burros e só me restava sonhar que não o fosse em definitivo, pois podia chamar a mãe. Manhê! Maaa-nhê! MANHÊ! Ela veio com o método lúdico-pedagógico da professora que era. Amealhou um exército de livros e começou a me contar histórias. Era um método infalível. Eu amava a mãe e, mais ainda, a mãe contando. Mas ela não podia contar sempre e, sobretudo, para sempre. Então, aprendi a ler para contar eu mesmo quando ela fosse dar aula. Ou quando não fosse mais. E, como isso não é um romance, pularei as milhares de situações em que a chamei de novo. Ora direis, numeráveis, mas finitas, afinal o barbado cresceu. Cresceu, vírgula… Um de meus livros principais, escrito não menos do que pelo Freud, um sujeito inteligente, assegura que nunca morre a criança dentro de nós.
Dia desses, fui convocado a escrever uma peça de teatro sobre Anne Frank. Foi o Abrão Slavutzky que me convocou. Eu aceitei, pois tinha certeza de que podia. Afinal, o burro tornou-se leitor, o leitor, escritor, e assim por diante. Havia até atendido, um ano antes, a convocação de escrever uma sobre um encontro entre o inteligente do Freud e a Rita Lee, ainda mais inteligente do que ele. Mas Anne me engasgou. Me doeu. Me calou. E eu não conseguia ir do corpo, onde tudo começa, até a palavra, onde tudo termina para algo recomeçar.
O roteiro, a partir daí, é conhecido. Eu: Manhê! Maaa-nhê! MANHÊ! Ela: vai ler, guri! E, sendo hoje uma historiadora de assuntos judaicos, a mãe me alcançou um novo exército de papel e sonhos. A peça está escrita, Abrão Slavutzky, mas o que eu quero fazer agora é algo que costuma enfraquecer um texto, mais ainda em seu final, ou seja, responder o que ele perguntou no começo e poupar o leitor de seguir procurando a sua própria verdade. Azar: não posso ir contra a minha. Eu me tornei um escritor, porque, na hora agá, sempre que gritei desesperado pela mãe, ela me alcançou calmamente um livro como a solução do perrengue. Então, escrevo. Vai que os outros desistam de continuar escrevendo e eu não tenha mais o que ler…
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Foto da Capa: Gerada por IA.

