Eu tenho um sério problema com a minha mãe. E, mesmo que todos tenham, é muito esquisito começar um texto com essa frase. Até para um psicanalista… Garcia Márquez recomendava cuidado com a primeira frase de uma escrita; segundo ele, ela é decisiva. Dava como um exemplo bem-sucedido o Kafka, em especial na Metamorfose, quando Samsa acordava transformado em um inseto, antes de empreender, segundo os críticos, uma grande metáfora da relação conturbada do autor com um pai opressivo. Kafka chegou a escrever uma longa carta ao pai, publicada em livro póstumo pelo amigo Brod, em que propunha um acerto de contas que, em vida, nunca pôde ser feito.
Mas, como eu disse, de forma pouco exímia na primeira frase, eu tenho um problema sério com a minha mãe. Ele começou, no final dos anos 60, quando eu era criança e ela, jovem. A mãe, então, decidiu estudar e trabalhar, o que ceifou algumas horas de convívio com os filhos. Dos meus sonhos da época, três ainda estão na lembrança: tornar-me goleiro do Grêmio, assistir aos jogos em uma televisão colorida e ter uma “mãe normal” como a dos meus amigos.
A tevê custou a chegar e, embora eu tenha entrado na escolinha do Grêmio, nunca pude me tornar profissional. Faltava-me talento, assim como “uma mãe normal”, ou aquela que passava as tardes em casa. A que preparava lanche para os filhos, levava (e buscava) na escolinha de futebol, perguntava por que estávamos chorando e, depois, ria junto. Essa mãe não era minha; minha era a inveja que eu sentia das mães de meus amigos. Foi preciso muita análise e até mesmo me tornar um analista para resolver o imbróglio. Precisei falar muito dele, senti-lo, ser ouvido, compreendê-lo, ser compreendido.
Por incrível que pareça, a situação não se resolveu dentro de um consultório. O melhor de seus desdobramentos aconteceu à medida que, nos acasos da vida, encontrava algum ex-aluno desta mãe que, com muito estudo e trabalho, havia se tornado professora. Um dia, foi o Milton Berger. No outro, o Sérgio Caraver, depois a Lígia Scherman, e assim por diante. A turma brilhava nos olhos ao saber que eu era filho dela. Contavam lembranças, compartilhavam emoções, elogiavam a mãe professora, exaltando a sorte do filho.
Dia desses, fui marcar uma consulta com a Dra. Beatriz Seligman, mas a secretária me informou que a agenda estava lotadíssima e sem disponibilidade, em curto prazo, para um novo paciente. Pouco tempo depois, a própria Beatriz deixou um longo recado no meu celular. Não poderia não atender o filho de uma professora que tinha sido tão importante para ela. Isso, quatro décadas antes. Depois, cavoucou um horário.
Todos esses reencontros com ex-alunos da mãe trouxeram um outro sentido ao meu passado. Quando penso na maternidade estendida que ela exercia naquelas horas ausentes para mim, ou quando leio os livros supimpas sobre a história do RS e do Judaísmo que ela escreveu, quase toda a minha inveja cede lugar a um orgulho. Quando penso que não precisarei escrever uma carta à mãe para um acerto de contas, consola-me saber que estou poupado de matutar uma primeira frase perfeita. Mas é começar um novo livro que o restolho da inveja, sem mãe nenhuma por perto, aponta inteirinho para o Kafka.
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