Pode-se dizer que “a relação mãe-bebê” se estabelece como o primeiro campo de experiência emocional de um ser humano. Esta constitui a matriz do desenvolvimento psíquico e afetivo. É nesse espaço relacional primário que o sujeito aprende a amar, confiar e reconhecer-se como alguém digno de existir (Winnicott, 1953). Todavia, a figura materna com traços narcísicos tende a promover uma relação distorcida, na qual o amor, em vez de ser incondicional e formador do eu, converte-se em um instrumento de controle e afirmação do próprio ego materno.
Considerando a experiência no campo da psicologia clínica, recorro às premissas da psicanálise propostas por Freud e Winnicott, bem como da psicologia humanista, de Carl Rogers, para melhor refletirmos acerca dos impactos desse tipo específico de maternagem sobre a constituição e consolidação da personalidade. Proponho, assim, uma análise inicial integrada dessas abordagens, com o objetivo de investigar como o narcisismo materno interfere na formação do self e nas possibilidades de autenticidade e amadurecimento psíquico dos filhos.
Em Introdução ao Narcisismo, Freud (1914) propõe o narcisismo como um estágio essencial do desenvolvimento libidinal, em que a libido do sujeito se volta para o próprio eu antes de se dirigir a objetos externos. Nesse aspecto, considera-se que o narcisismo primário se revela como natural e necessário à constituição do ego. Porém, em um estágio posterior, o narcisismo secundário, que se revela fruto de frustrações e decepções, surge marcado pela percepção do outro e pela construção de um ideal do ego, levando o sujeito a tentativas de recuperar os atributos que o objeto investido possuía. Ou seja, esse segundo estágio configura uma regressão ou fixação patológica, uma vez que o sujeito tende a retirar sua libido dos objetos para reinvesti-la em si mesmo. Tal redirecionamento da libido produz uma espécie de onipotência e controle sobre o mundo externo.
Cabe salientar que, na maternidade narcísica, o filho será sempre transformado em espelho do ego materno — um objeto sobre o qual a mãe projetará suas idealizações e frustrações. Segundo Freud (1914), “o amor dos pais é o narcisismo renascido”; entretanto, esse amor, ao ser dominado por exigências egóicas, impossibilita o investimento afetivo de cumprir sua função estruturante. O filho passa, então, a existir como extensão do eu materno, o que o impossibilita de desenvolver uma identidade autônoma. Esse amor condicionado que lhe é dirigido, bem como a impossibilidade de ser devidamente reconhecido por quem realmente é, geram sentimentos de inadequação e promovem no sujeito uma incessante busca por aprovação do outro — com potencial para se estender ao longo do ciclo vital.
Winnicott (1953), ao aprofundar a análise sobre a dimensão relacional do desenvolvimento, desloca o foco do instinto para o ambiente emocional, ressaltando que o bebê dependerá totalmente de uma mãe “suficientemente boa”, capaz de adaptar-se às suas necessidades e de oferecer um espaço de segurança e acolhimento para o surgimento do self verdadeiro. É nesse aspecto, contudo, que a mãe narcísica — centrada em si mesma — revela-se incapaz de reconhecer as demandas de seu filho, criando, desde o seu nascimento, um ambiente intrusivo.
As respostas dessa mãe não refletirão as reais necessidades da criança, mas apenas suas próprias fantasias e carências. E assim, nesse ambiente e contexto, o bebê aprenderá a se adaptar e se moldará para atender às expectativas maternas, dando origem ao falso self — uma organização defensiva que protege o verdadeiro self da invasão do outro. O falso self passa a se caracterizar como uma estrutura de sobrevivência, que, com o passar dos anos, tende a gerar sensações de vazio e de inexistência. Em outras palavras, o sujeito cresce e se desenvolve desconectado de sua autenticidade, passando a viver em função do olhar alheio (Winnicott, 1960).
Por uma perspectiva mais existencialista, Jean-Paul Sartre (2015) postula que o olhar do outro se caracteriza como poderosa fonte de ansiedade social. Para o filósofo francês, a presença e a percepção do outro transformam o sujeito em um objeto — condição que retira dele a liberdade e a subjetividade. Assim, a ansiedade social – anteriormente conhecida como fobia social – desencadeia desconfortos pelo medo de ser julgado ou avaliado negativamente. E é esse desconforto que, quando intensificado, produz insegurança e uma série de sintomas físicos e psicológicos que interditam a ação do sujeito e impactam diretamente sua vida cotidiana.
A meu ver, na prática psicoterápica, não é difícil identificar o referido quadro psicossomático como herança direta da relação com uma mãe que só reconhece o filho enquanto espelho de si. Por esse viés, ainda que Carl Rogers não pertença à tradição psicanalítica, penso ser possível um diálogo de sua teoria com o pensamento de Winnicott, especialmente no que se refere à importância da aceitação incondicional e da congruência — condições psicológicas fundamentais ao desenvolvimento do self saudável e plenamente funcional. Em sua Teoria do Self, Rogers (1951; 1961) reforça que cada indivíduo possui uma tendência inata à autoatualização. Ou seja, todo sujeito é dotado de uma força direcional que o impulsiona ao crescimento e à realização pessoal. Entretanto, tal tendência somente se manifestará plenamente em um ambiente que ofereça consideração positiva incondicional, empatia e autenticidade.
Mães narcisistas não oferecem essas condições fundamentais aos filhos. O amor que ofertam é sempre condicional — ou seja, baseado no desempenho e em conformidade com o próprio ideal materno. A criança aprende, então, que somente se torna digna de amor e afeto se agir ou interagir em conformidade com as expectativas da mãe. Tal condição produz severa incongruência entre o self real [a experiência autêntica do sujeito] e o self ideal [a imagem imposta pelo outro]. Como resultado, o sujeito se constitui e desenvolve como ser alienado de seus próprios sentimentos, comportando-se no mundo de forma extremamente insegura, incapaz de tomadas de decisões efetivas e conscientes. Em quadros mais severos, evidencia-se a perda de si, devido à significativa distorção do autoconceito [fundamental dimensão do self] e, consequente baixa autoestima.
É nesse contexto que, em consonância com Rogers, acredito que o processo psicoterapêutico somente se torna efetivo quando favorece justamente a restauração dessa congruência perdida, proporcionando ao cliente um espaço relacional em que consiga experimentar a aceitação incondicional negada na infância. O psicoterapeuta desempenha assim – de maneira simbólica – o papel de uma nova figura materna, porém, não narcísica, e sim acolhedora e libertadora do self genuíno.
A partir de tais perspectivas teóricas, seja para Freud, Winnicott ou Rogers, uma coisa é certa: o desenvolvimento saudável do eu depende do reconhecimento e da aceitação do sujeito em sua singularidade. E é exatamente nesse aspecto que a mãe narcisista falha, por não ver o filho como um outro, mas como reflexo do próprio ideal. Tal conduta ou condição impossibilita que o amor se transforme em alteridade.
De forma mais simples, podemos dizer que, na perspectiva freudiana, o filho de uma mãe narcisista sofre perturbações no investimento libidinal, permanecendo preso a uma dinâmica de dependência narcísica. Numa perspectiva winnicotiana, essa falha ou distorção gera um falso self — adaptação defensiva à intrusão ambiental. Por último, na perspectiva rogeriana, tal falha resultará numa incongruência entre o self real e o self ideal, impossibilitando o impulso inato de autoatualização.
Em resumo, nas três teorias (ou abordagens), destaca-se que a negação da experiência de ser amado incondicionalmente — ou seja, pelo que realmente se é, de ser visto e validado como um sujeito legítimo — produz, desde os primeiros anos de vida, danos severos no aparato psíquico. Esses impactos emocionais e psicológicos que são produzidos por mães narcísicas comprometem não apenas a infância, mas se estendem de maneira reverberada pelas demais fases do desenvolvimento, levando os filhos, na vida adulta, a relações afetivas disfuncionais, sentimentos crônicos de inadequação e dificuldade em experienciar a própria autenticidade.
Logo, a compreensão dos prejuízos promovidos por uma mãe narcisista exige ultrapassar o diagnóstico individual e reconhecer o fenômeno como expressão de uma cultura que exalta a imagem e o sucesso em detrimento da empatia e da alteridade. Freud, Winnicott e Rogers, embora partam de referenciais distintos, direcionam seus olhares e pensamentos numa mesma direção: o amor humano, para ser estruturante, precisa ser desinteressado, receptivo e incondicional.
Portanto, para melhor compreender o impacto de uma mãe narcisista sobre a estruturação psíquica de um sujeito — e, consequentemente, de sua personalidade — torna-se necessário, sobretudo, compreender a necessidade humana fundamental de ser reconhecido como alguém real, digno de amor por simplesmente existir.
Referências:
Freud, S. (1914. Introdução ao narcisismo. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Winnicott, D. W. (1960). Ego Distortion in Terms of True and False Self. In: The Maturational Processes and the Facilitating Environment. London: Hogarth Press, 1965.
Winnicott, D. W. (1953). Transitional Objects and Transitional Phenomena. International Journal of Psychoanalysis, 34, 89–97.
Sartre, J.-P. (2015). Ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica. Edição em português. Petrópolis: Editora Vozes.
Rogers, C. R. (1951). Client-Centered Therapy: Its Current Practice, Implications and Theory. Boston: Houghton Mifflin.
Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person: A Therapist’s View of Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin.
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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