Ele nasceu no começo da segunda metade do século 20. Nasceu, se criou, cresceu e continua lá no mesmo lugar. Nesse tempo todo, recebeu – democraticamente – gente de todas as cores, de todas as idades, das mais variadas profissões e ideologias. Recebeu até políticos.
Um deles, foi deputado federal e chegou a prefeito da capital e governador do estado. Outro, foi vereador com vários mandatos, também deputado federal e vice-prefeito da capital.
O ambiente, o cenário, o jeito de receber faziam dele um elemento agregador e, ao mesmo tempo, absolutamente livre, onde a camaradagem e a cumplicidade – em pecados que só precisavam de perdão doméstico de pais e mulheres, ou maridos… – amarravam amizades que já duravam tanto quanto ele.
Nestes tempos de encontros virtuais, quando a tecnologia mais aparta do que aproxima, quando bonecos são tratados como gente e bebês são tratados como bonecos, senti saudade dele.
Ele era ponto de encontro e largada para excursões inesquecíveis pela noite em qualquer dia da semana, ou de aquecimento para a reunião dançante do sábado no clube ou na casa de alguma guria conhecida…
Mas ele, como ninguém é de ferro e nem todo mundo é santo, também tinha seus dias não tão inocentes. Permitia para fazer uma fezinha no jogo do bicho, anotada com cuidado pelo 96, assim chamado por que esse era o número no quepe dele de fiscal da Carris. Para os mais afoitos, oferecia uns dados, que rolavam num tabuleiro de madeira compensada chamado de Maracanã pelos aficionados. E o Seven/Eleven ia madrugada adentro…
Desde que nasceu, é mais conhecido pelo nome do tutor: o Carlinhos, a dona Hilda, o Geraldo, a Odete (que não é a Roitman) o seu Zé e, mais recentemente, a Regina. Não dava preferência a ninguém. Exceção feita ao Maneca. Esse, o encontrava todos os dias, invariavelmente, ao meio-dia. Era tempo da tutoria da dona Hilda.
Maneca chegava, sentava – a ponta do banco de madeira estava sempre livre – acendia o Belmonte e mandava: bom dia, senhores (mesmo que só ele estivesse por ali)… um meio-liso, dona Hilda. E essas eram todas as palavras que ele pronunciava. Nem quando ia embora, sorvido todo o aperitivo, Maneca dizia alguma coisa. Meio-liso, para quem não sabe, é uma medida de cachaça servida num copo desses chamados de americano.
Escrevo sobre um bar. Explicação bem dispensável, não é mesmo? Lembrei dele pensando nesses pontos de encontro de hoje, nossos grupos de conversas virtuais, onde não se pode interpretar uma frase analisando junto a expressão facial de quem a pronuncia…
É um espaço de uns 20, 30 metros quadrados, já mobiliado simplesmente, com um daqueles antigos balcões de metal e vidro (sempre vazio…), um vidro cheio de ovos cozidos, um banco de madeira, nenhuma mesa, uma geladeira daquelas enormes (sempre lotada de cervejas) e duas ou três estantes onde dividia espaço com garrafas de cachaça e vinhos baratos uma imagem de Santa Rita de Cassia.
Hoje, dispõe de mesas com toalhas, uma churrasqueira (antigamente o assado era feito um daquele tonéis, cortados ao meio), o balcão é mais moderno e, eventualmente, tem até garçom. Mas os tempos são outros. Antes, o bar valia pelo ajuntamento de amigos, Hoje, vale mais pelo faturamento dos clientes.
Pois ali, naquele lugar, frequentado – como já disse – por professores, executivos, funcionários públicos, políticos com mandato e aspirantes a políticos, operários, estudantes eu nunca vi nenhuma discussão, mesmo em momentos quando alguns dos contricantes já não passariam pelo teste do bafômetro, terminar com alguém se retirando com a promessa de nunca mais voltar. Agora, quantas vezes você já viu “cancelamentos” e rompimentos sem volta de amigos e até parentes nos grupos virtuais de conversas?
Sei que não tem volta, mas bem poderíamos, pelo menos, dar um pouco mais de atenção à empatia do que à tecnologia, pensar mais em juntar do que faturar. Ou, como dizia o professor, frequentador assíduo do bar desde a fundação até a primeira década deste século, precisamos de novo lugares onde se trate mais de amizades de trocas de afeto e menos de negócios e lucros. Aliás, acabo de lembrar, acho que Pepe Mujica se daria bem no bar. No antigo, claro, verdadeira catedral da amizade…
Ah! Para encerrar uma história do Maneca. Ele andava sempre de boina, calça brim coringa, camisa de manga comprida invariavelmente com um buraquinho feito pelo cigarro que insistia em cair durante os cochichos no banco do bar e alpargatas. Pois um dia, ele chegou num fim de tarde.
Não tinha aparecido ao meio-dia. E, em vez, da velha alpargata, usava um sapato, sem cadarço e com um corte para não apertar os pés.
Pois naquele entardecer, depois do ritual de sempre – o cigarro aceso posto no canto do banco, o pedido do meio-liso – o Maneca tirou a boina, cruzou a perna e murmurou: zum, zum, zum, zum, zum zum.. tá faltando um… Ele tinha estado no cemitério no velório de velho parceiro…
Infelizmente, não há mais bares como aquele. Manecas ainda há. Mas são difíceis de encontrar.
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Foto da Capa: Reprodução de Rede Social

