Quando El Doctor Elías Regules atravessou a Avenida 18 de Julho, em 2 de setembro de 1894, em Montevidéu, com um bom número de seguidores vestidos de bombachas, botas e chapéus de barbicacho, não pensava que estava fazendo um movimento revolucionário. Ao fim do trajeto, esperava-os um almoço campeiro com carne assada e bom chimarrão, sob uma lona de circo, e uma placa com os dizeres: Está prohibido hablar de polítca e religión”. Tinha início a Sociedad Criolla do Uruguai. Mesmo crendo que o gaúcho estava morto, a ideia era render homenagem e cultuar as suas virtudes, e estruturar uma formação de uma nacionalidade verdadeiramente uruguaia, diante de tantos desvios causados pelo estrangeirismo.
Por essa época, em 1898, João Cezimbra Jacques, o precursor do Movimento Tradicional Gaúcho, fundou o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, a primeira associação de letras a tratar do tema da cultura gaúcha. Também na busca de uma identidade, só que regional, igualmente criticava os estrangeirismos, como, por exemplo, o processo de colonização. Entendia Cezimbra que o governo deveria estimular o processo de colonização no estado, mas dirigido para pessoas nativas, para evitar a concorrência desleal com os colonos europeus e evitar os desempregados locais, estimulando a disciplina e a aptidão para o trabalho. Sobre estes dois pilares do tradicionalismo gaúcho, Paixão Cortes e Barbosa Lessa vão se debruçar para inventar o tradicionalismo contemporâneo no Rio Grande do Sul.
Esse gaúcho morto, extinto, na verdade faz referência ao verdadeiro gaúcho, ou el gaucho, que habitou a Banda Oriental do Uruguai, a partir dos anos 1700, caçando bovinos para obter o couro e vender aos portugueses, que por sua vez, vendiam aos ingleses, principalmente, para servir de correias para as máquinas da nascente Revolução Industrial. Quem mais velho não lembra das correias de couro das máquinas de costura da vovó? Pois bem, desde sua origem, o gaúcho foi um solitário, excluído das sociedades brancas europeias, indígenas guaranis, charrua ou minuana, ou outra qualquer. Tinha muito conhecimento do território da Banda Oriental, do manejo dos gados, da doma dos cavalos e da luta pela sua sobrevivência.
Antes de tornar-se gaúcho, em português, ou gaucho, em castelhano, também foi chamado de gaudério, de changador, arrimados, todos de origens semelhantes, ou seja, filhos do estupro de mulheres indígenas, negras, pelos ibéricos, e de brancas roubadas, uma das especialidades dos gaúchos, mas também de soldados desertores, dos dois lados, luso ou espanhol. Essa pessoa errante, nômade, só era bem vista quando o assunto era o contrabando do couro ou serviços referentes ao manejo do gado e à doma de cavalos, tão necessária a portugueses e espanhóis. Como não tinham paradouro, eram tidos como vagabundos do campo, pois, no fundo, só trabalhavam quando necessitavam; no más, ficavam nas pulperías, onde se divertiam gastando o que tinham e o que não tinham.
Com as mesmas características para o trabalho, mas já sedentário, ou seja, aquerenciado, era o peão. Esse se criou nas primeiras estâncias jesuítas, onde desenvolveu, junto com os padres, o manejo dos campos e dos gados bovinos e equinos. As primeiras estâncias organizadas se localizavam no interior da Banda Oriental do Uruguai, dos Sete Povos das Missões, a parte urbana, até o limite do Rio Negro, do atual Uruguai. A parte urbana e a parte rural, uma unidade.
Quando os 30 povos da Missões existiram e se desenvolveram, sete deles ficavam na Banda Oriental do Uruguai, ou seja, todas as terras situadas na margem esquerda do Rio Uruguai. Ainda não existia o estado do Uruguai, e muito menos a Província do Rio Grande do Sul. Em 1641, fortemente armados e treinados pelos jesuítas, o exército guarani expulsou os paulistas das terras entre os rios Paraná e Uruguai, na Batalha de M’bororé, obrigando-os a desbravar um outro caminho pelo litoral, costeando a Banda Oriental do Uruguai, até a foz onde inicia o Rio da Prata, ali fundando Colônia do Sacramento, em 1680.
Essas estâncias forneceram a matéria-prima para o surgimento do gaúcho, o gado bovino! Quem entraria na hinterlândia da BOU para extrair o couro tão necessário aos ingleses? Ele, é claro, o gaúcho, que em sua adaptação ao ambiente natural e social, desenvolveu um modo de vida que garantiu a sua sobrevivência, dentro de uma divisão do trabalho como fornecedor de couro para portugueses e ingleses. Segundo Madaline Nichols, “sem um cavalo para montar e uma vaca para caçar, não teria existido o gaúcho”. Para ela, o gaúcho nasce em uma sociedade pastoril, e nada de suas qualidades como ginete ou de caráter são tão importantes como a de um contrabandista colonial que comercializava couros. Na imensidão do pampa, buscava sua alimentação e seu refúgio, quando necessário. Era hábil com a faca, seu principal instrumento de defesa e de trabalho, na extração do couro, mas também com um violão ou no jogo do osso.
Bonifácio del Carril apresenta em seu trabalho o gaúcho sedentário, de vida ordenada, com família, criador de animais. Portanto, podia ser retratado em pinturas realizadas por artistas europeus da época. Este peão era hábil no trabalho como o gaúcho, mas trabalhava em seu rancho, o precursor da pecuária familiar.
Mas tinha o outro, que não ficava de modelo para ser pintado, o gaúcho nômade ou errante, que não era peão de estância, não tinha trabalho fixo, nem família. Este tipo, muito ágil para as tarefas relacionadas ao gaúcho, às vezes tido como preguiçoso, mas não violento. Quando cometia algum delito, às vezes para garantir a sua sobrevivência, como roubos ou duelos, ou ainda o roubo de mulheres, se tornava o gaucho malo. Todavia, o gaúcho real foi perdendo seu habitat no campo e se recriou na cidade, como nos relata Madeline, mas está bem vivo na literatura, música e arte em geral, encarnado nos ideais urbanos.
Mas, retomando Cezimbra Jacques, este escreve praticamente um manual das qualidades do gaúcho, ou sul-rio-grandenses, como às vezes chama o habitante do sul. Primeiro, sobre o branqueamento do gaúcho, escreve: “O homem do Rio Grande é geralmente alto, robusto, bem-apessoado, e suas feições viris nada perdem por serem quase sempre acompanhadas de uma cor alva que faz sobressair a preta capilária e o avermelhado das faces…”, semelhantes aos habitantes do centro da França. Ainda descreve que sua harmonia com as campinas e planuras “o desvia da corrupção”, destacando os traços da moral cristã. Quem nunca ouviu que no Rio Grande do Sul não há desvio de conduta, principalmente na política? Corruptos são os outros, aqui no Rio Grande não!
Outro autor que ajuda na construção do caráter do gaúcho urbanizado é Fernando Osório. Ressalta seu caráter e amor pela Doutrina Positivista, o autor escreve que “nenhum desequilíbrio ético, felizmente, apresenta o Rio Grande, cujos habitantes são os mais aryanizados do Brasil…”. Ainda destaca, lembrando Saint-Hilaire, a predominância da raça branca, raça superior, na formação populacional do Sul, bem como as qualidades do clima que resulta em um quadro natural diversificado, logo, mais rico. Na virada do século, aqui e allá, houve um branqueamento do gaúcho, tanto na lida campeira como em um salão de baile, com suas habilidades de campo ou não.
Sobre este cenário, Paixão Cortes e Barbosa Lessa vão se debruçar sobre o folclore, por um lado, e a história e a antropologia, por outro. É verdade que o bigodudo Paixão, como era chamado pelos colegas, modelo da estátua do Laçador de Antônio Caringi, andava geralmente pilchado. Já seu colega e amigo Lessa, pelo contrário, sempre de terno, como convinha a um intelectual. Talvez por isso conheci o texto “A invenção das tradições”, de Eric Hobsbawm, na obra “O Nativismo” de Lessa.
Neste capítulo dedicado À Invenção das Tradições, Lessa escreve que Folclore, História e Antropologia são ciências, e isso não se inventa. Mas, com base no historiador britânico, ele justifica que “quando a tradição não existe completamente formalizada, completa-se o que está faltando para fortalecer o alicerce nacionalista”. Se assim foi feito na união da Escócia com a Inglaterra, por que não nos pagos do sul do Brasil? Para a celebração do 20 de setembro, teria que ter um todo coerente, mesmo que nem todos os fatos tivessem acontecido, ou pelo menos, nem todos ao mesmo tempo.
Por esta razão, a tradição, uma vez criada e aceita pelos participantes, não pode mudar, e tem que haver guardiões dos pilares fundadores. É quase uma luta inútil querer trazer inovações; caso contrário, deixaria de ser tradição. É mais fácil a tradição como tal perder força, ou seja, apoio, e parte dos costumes serem absorvidos no cotidiano. Interessante o ciclo, pois o que foi costume ou hábito torna-se tradição e depois volta como costume ou hábito novamente, mas redefinido, reintegrado à sociedade nova.
De meados de 1975 a 1985, o tradicionalismo do grupo de Paixão Cortez e Lessa teve seu auge, ainda que tivesse iniciado nos anos 1950. Mas a expansão dos locais de culto ao Tradicionalismo se deu grandemente no intervalo de tempo citado. O hábito de tomar o chimarrão, a expansão dos churrascos e, bem como das churrascarias, tiveram grande impulso no meio urbano a partir dessa época.
A expansão na cidade, nos parques, no Brique da Redenção, acompanhou o lento desaparecimento do modo de vida gaúcho no campo. A cada saída de campo com meus alunos de Geografia do Rio Grande do Sul de 2008 a 2022, ficava mais difícil mostrar na paisagem uma área, uma gleba de campo nativo, de terra que não estivesse com lavoura, ou seja, terra plantada, lavoura de soja, eucalipto, arroz, parreirais, olivais, entre tantos outros cultivos. Antes era pastagem “quase natural”, resultado da atividade pecuária bovina de corte extensiva, em que ainda se desenvolvia o modo de vida do peão, do trato do gado. Com a introdução e hegemonia da lavoura, isso perde o sentido. Estamos nos referindo a região da Campanha, o palco do tradicionalismo.
Os criadores deste movimento tradicionalista já partiram para “Os Campos do Senhor, na invernada do céu”. É possível que os que ficaram não tenham tido a capacidade de se reinventar, mantendo as mesmas tradições inseridas de forma criativa, e não pelo rigor no cumprimento das tradições.
Certa feita, em uma pequena cidade do interior da Campanha, fui fotografar o desfile de 20 de setembro. Uma cidade ainda com a forte presença da pecuária bovina, logo, havia muitos peões presentes na véspera do desfile, no dia 19 de setembro. Ou seja, véspera de feriado, a peonada, protegida pelas leis trabalhistas da Constituição de 1988, pôde estar presente no evento. Antes da Constituinte, eles não poderiam estar presentes. Festa popular, com roupas de trabalho, churrasquinho, concurso de trovas, fitas com as cores do Rio Grande do Sul, entrelaçadas pelos lacres de latinhas de cerveja, que adornavam com os surrados chapéus. Não tinham cavalos, porque a maioria dos peões não tem cavalo, é gaúcho a pé. Também não tinham a indumentária recomendada, nem carroça raiada de madeira. Então não poderiam participar do desfile, pois havia um forte controle de quem pode e quem não pode desfilar, inclusive em termos financeiros. Em outras palavras, os peões, descendentes dos verdadeiros gaúchos (aqueles da lida do campo, lembram?) não podem desfilar. O desfile é majoritariamente realizado por pessoas que não têm nenhuma atividade no campo, mas sim na cidade, onde praticam o culto ao gaúcho idealizado!
As coisas que acontecem no campo, resultado de uma especialização da lavoura, não abastecem mais de hábitos e costumes na cidade, exceto alguma atividade turística. Na cidade, o culto às tradições represa inovações que aos poucos vão se tornando a realidade das comemorações. A gastronomia, com pratos mais diversificados, a indumentária criativa, com suas bombachas mais estreitas – adequadas ao ambiente urbano, ajudam a consolidar que o pampa é cada vez mais uma marca, um símbolo que substitui o termo Campanha, largamente utilizado na formação sul-rio-grandense.
A palavra pampa se torna cada vez mais obrigatória em tudo que se produz no Rio Grande do Sul, quanto mais o bioma desaparece. E os nossos feitos de qualidade de vida para a população parecem desbotar como nas cores de uma bandeira velha!
Luiz Fernando Mazzini Fontoura, licenciado em Geografia e mestre em Sociologia pela UFRGS, doutor em Geografia Humana pela USP. Professor titular do Departamento de Geografia da UFRGS, professor de Geografia do RS e Introdução ao Pensamento Geográfico. Autor do livro O Gaúcho e seu Modo de Vida, a formação espacial da Banda Oriental do Uruguai – Ed. Viseu. luizfernandomazzini@gmail.com
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Foto da Capa: Gaúcho juntando latinhas no 20 de setembro / Acervo do Autor

