05h41
O sol ainda não nasceu completamente quando ela sobe no primeiro ônibus. Duas horas e três baldeações pela frente, se sente sem coragem, o cansaço da semana se acumula em seu peito. Ainda bem que é sexta-feira, e amanhã é o último dia útil da semana. Pela janela embaçada, vê a cidade acordar aos poucos: uns dormindo na calçada, outros correndo para não perder a condução. Um senhor senta ao seu lado e come um pão francês, talvez com queijo e presunto. Pensa na filha que deixou com a vizinha, ela ama misto-quente. Pensa em quanto tempo faz que não almoçam juntas.
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07h55
No Largo do Arouche, ele já está acordado há horas. Na verdade, nem dormiu direito: algumas sonecas espaçadas. Faz frio em pleno verão, o corpo estranha a súbita mudança de temperatura. Precisa arranjar uma coberta para o caixote de papelão, essa noite também deve ser gelada. Observa os transeuntes apressados, ninguém olha nos olhos, todos ensimesmados, imersos em seus problemas, em seus dramas. Os semblantes deprimidos, pesados. A cidade continua girando ao redor, indiferente.
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08h36
O bairro tem prédios envidraçados, guardados por seguranças; circulam BMWs, Mercedes, Audis e carros elétricos; é uma área muito arborizada: as árvores sobrevivem, apesar de tudo. A britadeira estremece em suas mãos das oito da manhã às cinco da tarde. O barulho é ensurdecedor, mas ele se acostumou, acha até que está ficando meio surdo. Olha no celular, são oito e trinta e seis. Ainda. Achou que tivesse passado pelo menos uma hora. Pensa no almoço que a mulher preparou – arroz-feijão-ovo frito – frio agora dentro da marmita. A poeira sobe, cobre tudo. Ele limpa o suor da testa e continua.
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10h49
Está nublado, não se vê o sol. Julga ser umas dez e pouco da manhã. Ela acende mais um cigarro e se debruça na janela do apartamento onde se encontra, cujos donos conheceu brevemente na festa – amigos de um conhecido – tentando achar o horizonte. Tomada por prédios até onde a vista alcança, a paisagem é melancólica. Imagina que, em cada apartamento que vê – com certeza mais de trezentos – existe uma família, uma história. As pessoas estão trabalhando, pensando em fazer o almoço, limpando a casa, e ela, ébria, tenta achar sentido na vida.
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11h04
Na sala de espera do hospital Einstein, o tempo não passa. A cirurgia está demorando mais do que o previsto. A família conversa, vivamente, sobre a próxima viagem a Orlando: os parques, os hotéis, qual ingresso comprar primeiro, qual carro vão alugar. A mulher pensa no irmão, que está passando por um procedimento de urgência, e uma inquietude toma conta de suas emoções: tinha combinado de tomar um brunch com suas amigas na Frutaria São Paulo, e pelo visto não vai dar tempo de chegar.
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São Paulo, 23 de janeiro de 2026.
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Foto da Capa: Canva

