O crônico tomou o tempo presente.
Alguém já me disse que os gêneros textuais, e a linguagem como um todo, mimetizam seu tempo e espaço: o adeus que já se dá às cartas de amor e aos cartões postais é o au revoir a um mundo que não mais reveremos.
Contudo, incoerentemente, essa nossa era produtora de coisas obsolescentes é ainda o tempo de preservação do espírito doente do mundo. O espectro crônico parece ser uma das dimensões de nossa condição histórica. Não é o caso de atribuir-lhe um nome ou um demônio como persona: essa paradoxal substância imaterial está entre nós mesmos, como possibilidade efetivável.
A ascensão da extrema direita, o debacle do liberalismo fofinho, o imperialismo sem makeup do atual governo dos EUA não são diabruras de uma entidade malévola: tudo já estava como contingente. Reafirmo: o crônico, paradoxalmente concreto-imaterial, que hoje nos assola é a realização do que, um dia, foi apenas uma alternativa.
Estou convencido de que esse ciclo perturbado simula gêneros próprios de expressão: sua natureza nos atravessa.
Por conseguinte, capturado por sua emergência, sinto deslocadas minhas tentativas de narrar a corriqueira informalidade do meu cotidiano; soma-se que não vejo escape no humor. Fugiu o gosto em escavar o extraordinário do dia a dia: o sol caminhando a se pôr, por trás da Ribeira do Porto, é apenas a vista que se vê quando se está sentado em Gaia; o tesouro de encadernados em couro resguardados na barroca biblioteca de Coimbra não diz do noticiário internacional da noite anterior; remeter-se a coisas tipo cafés expressos e macarons ao vespertino badalar da Notre-Dame seria até pernóstico.
Parece não haver mais plano para a crônica: o crônico tomou o tempo presente.
Contudo, não esqueçamos: os gêneros textuais acomodam o espírito do seu tempo e espaço. Assim, a crônica terá que acomodar não a afável fugacidade do dia, mas o pânico que persiste nesses nossos tempos.
Por conseguinte, manifestando a persistência em manter viva a crônica dos dias, reencarnemo-la enquanto o gênero textual para o agora que está aqui: o crônico.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

