Não acho que eu teria sido um bom escritor de autoajuda. Entre os principais motivos está o fato de que apesar de eu, indivíduo, estar sempre disposto a ajudar quem precisa quando solicitado, não é assim que a verdadeira autoajuda funciona – e escritores de autoajuda na verdade estão ajudando apenas a uma pessoa, eles mesmos, com a grana que pinga não apenas das vendas de seus livros, mas em toda a estrutura colateral (e muito rentável) envolvendo cursos, oficinas, “dinâmicas” etc, atividades de “autoaprimoramento que só servem para aprimorar a conta bancária do próprio autor (hoje chamado de “coach”), sem nenhuma verdadeira técnica, ciência ou ajuda real aos seus consumidores. Porém, considerando o dinheiro farto que rola nesse mercado, confesso que às vezes olho com um pouco de inveja para quem tem o superego atrofiado o bastante para se lançar nessa empreitada sem um pingo de vergonha.
É curioso pensar o quanto esse tipo de literatura de autoajuda é tão reflexo da modernidade quanto outros exemplos mais óbvios, como o culto à ciência e o apelo à mudança e a novidade. O pensamento moderno, principalmente em seus primórdios inspirados pelo iluminismo, nega a espiritualidade metafísica e alega que o mundo é decifrável e compreensível com as ferramentas certas – o que torna o “manual de instruções” um formato popular. Antes, a ideologia dominante dizia que você só precisava de um único livro, a Bíblia, e seria ali que você encontraria respostas para aprimorar seu espírito – já o mundo ao seu redor, bem, uma das características mais arraigadas do pensamento religioso é que o mundo é como é pela vontade de Deus, e que o alcance da ação humana é menor do que se pensa.
É possível encontrar embriões do que seria a literatura de autoajuda em textos clássicos de “pensamentos morais” que, fazendo algum esforço, podemos remontar a Platão, mas que poderiam incluir também Cícero, La Rochefoucauld, Kant, Schopenhauer. O que começa a aparecer no período moderno é o elemento bastante iluminista do caráter “manual de instruções para a vida”, como se pode ler, por exemplo, no Almanaque do Pobre Richard, de Benjamin Franklin, publicado em 1732.
Origem
Mas, de modo geral, costuma ser apontado como primeiro exemplar assumido do gênero Self-Help, livro publicado em 1859 pelo escritor e ativista escocês Samuel Smiles (1812-1904). O que é curioso, porque, embora fosse um político de origens populares ligado ao movimento operário e tendo participado de um movimento de massa que exigia a reforma das leis britânicas para maior participação popular, seu livro basicamente é o puro caldo da ideologia vitoriana de seu tempo, insistindo que, mais do que leis, os pobres precisavam de uma mudança de hábitos e mais controle de si mesmos e de suas vidas para deixarem de ser pobres – como se vê, é impressionante o quanto esse tipo de livro, no tocante ao discurso, parece não ter mudado nada em 150 anos.
Mas em outros aspectos, embora o conteúdo sempre possa ser reduzido aos mesmos pobres elementos, os livros de autoajuda mudaram sim com o tempo, ao menos nos seus pretextos e nas apropriações com as quais buscam se legitimar ao longo do séculos, a cada vez aderindo a uma nova fórmula ou moda recém-descoberta e, muitas vezes, pouco compreendida.
O livro de Samuels está firmemente enraizado na moral e na ideologia vitoriana de seu tempo – mesmo que o próprio autor não fosse um aristocrata inglês nem, que se saiba, fosse particularmente religioso. Os pobres podem se aprimorar exercendo intelectual e moralmente por meio dos “bons costumes”, sendo esses bons costumes impostos pelas aparências da classe dominante. Transplantada para os Estados Unidos em plena expansão de seu capitalismo monetário e industrial, a fórmula muda, e os livros de autoajuda se ampliam para abranger não o aprimoramento das virtudes morais, mas o do próprio indivíduo em direção ao sucesso material e financeiro.
Seguem, sendo capitais durante esse período as “virtudes do self-made-man” propagandeadas pela ideologia capitalista americana: determinação, domínio da vontade, carisma pessoal, ética protestante de trabalho ao modelo weberiano. O que diferencia os livros de autoajuda é a ideia de que essas características, antes de serem inatas, podem ser ensinadas e aprendidas – num movimento que o professor da UFRGS (e que, aliás, foi meu professor na FABICO) Francisco Rüdiger, em seu livro Literatura de autoajuda e individualismo (Editora da UFRGS. 1996) resume como a passagem do self-made-man para o self-help-man. Não é mais o homem que “se faz” sozinho, mas que se “aprimora” por si mesmo.
O que é curioso é o quanto o livro de autoajuda se torna ele próprio vítima da própria mentalidade que lhe deu origem: as ideias em si contraditórias de que o mundo está sempre mudando, mas que também tem regras cuja decifração e aplicação pode ser a chave para o sucesso, permitindo ao usuário de tais truques conquistar dinheiro, influência, poder etc. Isso leva a um fenômeno interessante: livros de autoajuda estão basicamente sempre precisando maquiar a forma com que dão os mesmos velhos conselhos.
Com as descobertas no campo do cérebro ganhando projeção no jornalismo e no imaginário, surgiram os coaches de “pensamento positivo” e os que embarcavam na chamada “Neurolinguística”, muito populares a partir dos anos 1980. A partir dos anos 2000, ocorre nova substituição: aparecem os famigerados “coachs quânticos” que se aproveitam da popularização da ciência quântica. Na verdade, o único elemento “quântico” de fato utilizado nesse tipo de picaretagem é a compreensão equivocada de um postulado básico, o de que o comportamento do observador pode vir a mudar o resultado da experiência. Uma versão malbaratada desse conceito está por trás do absurdo que vendem esses tais coaches, a ideia de que “você pensa e o Universo te atende”, algo que foi cristalizado na obra máxima desse tipo de picaretagem, um livro chamado O Segredo, publicado ali por meados da primeira década deste século.
Incertezas
Embora esse mecanismo todo seja bem reconhecível a uma simples olhada, isso não parece abalar a popularidade desse tipo de livro – pelo contrário, parece que ele cada vez se torna mais popular, o que é compreensível em um tempo em que as pessoas estão cada vez mais inseguras e precisando que alguém as pegue pela mão e ofereça um manual básico que seguido à risca, terá todas as respostas e abrirá todas as portas.
Não estou aqui para desdenhar desse impulso inseguro da maioria das pessoas – de fato vivemos em período em que as certezas foram pelo ralo e em que não apenas você não sabe se vai ter um emprego no final do ano, mas também desconhece a possibilidade de a própria vida humana estar ainda por aí até o final do século. Como eu disse, entendo o desespero dos leitores, mas algo em mim se revolta e minha sensibilidade se repugna com os picaretas que transformam isso em oportunidade de lucro, oferecendo respostas vazias disfarçadas de grandes segredos.
Mas achei que era um bom tópico para desenvolver pelo avesso. Vão aqui, portanto, minhas sátiras contribuições para a ainda pouco desenvolvida ciência do autoestorvo (eu pensei em dar o nome desta coluna de “antiajuda”, mas tenho a vaga sensação de já ter lido essa expressão usada nesse mesmo contexto humorístico por alguma outra pessoa, então, para evitar plágios, mesmos os inconscientes, vamos com esse outro nome, mesmo eu achando o primeiro melhor):
Manual de autoestorvo
* De modo geral, você fará grandes coisas na sua vida cotidiana simplesmente seguindo a mais básica operação de verso-reverso. Abriu? você fecha. Entrou? você sai. Pegou? você devolve. Sujou? Você limpa. Muitos problemas serão resolvidos se você se concentrar nisso.
* “Por favor”, “com licença” e “obrigado” não são concessões impostas pela sociedade burguesa à sua preciosa individualidade, são os sinais mínimos de respeito. Se você não consegue fazer nem isso, deveria estar numa jaula.
* A maioria das pessoas não sabe direito mapear as consequências últimas daquilo que pensa, e por isso a incoerência é um elemento inescapável da vida humana. Não seja tão crítico a respeito dela.
* Dito isso, quando a incoerência de alguém só aparece em situações em que uma mudança de ideia representa alguma vantagem, seja sim bastante crítico.
* Seja simpático, mas não puxe o saco.
* Quando estiver falando com alguém, olhe no olho da pessoa pelo menos uma vez. Não tem nada a ver com assertividade ou “exercício de carisma”, mas com o simples reconhecimento básico de que seu interlocutor é uma pessoa, e não algum tipo desatualizado de Alexa.
* Não seja escroto com ninguém, mas parta do princípio de que todo mundo que você conhece tem potencial para ser babaca.
* O mundo já está lotado de opiniões. Se você não conhece muito bem um assunto, pode guardar a sua.
* Ter uma religião é como ter um pau. Que bom que você tem e que bom que ele é útil para você, mas tenha em mente que metade da população do planeta vive muito bem sem ele. E, principalmente – ninguém quer ouvir você falar dele o tempo todo.
* Esteja aberto à possibilidade de estar errado – mas não ceda diante de qualquer argumento.
* Sentimentos feridos não são argumentos.
* Dito isso, existe uma diferença entre ser sincero e ser babaca. Com a ascensão atual da extrema-direita bolsonarista, é fácil confundir as duas coisas, mas não é desculpa para você não tentar.
* Aprenda a ficar na sua.
* Assim como você leva seu cachorro para passear duas vezes por dia, tente fazer o mesmo com o seu cérebro.
* Informação sem fonte confiável qualquer um pode inventar.
* Se você é autor de uma coluna semanal e está sem ideias, apele para um texto em tópicos.
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Foto da capa: montagem do autor.

