A área era chamada de mata, mas de mata tem muito pouco: é na verdade uma zona de matagal com fruteiras estéreis e esparsas; há muito tempo deixou de ser um bioma com fauna e flora que fossem seus mesmos. Se espreme por entre dois imensos labirintos de asfaltos e moradias (apertadas umas nas outras) que se espalham subindo e descendo os morros da Penha e do Alemão. O chamam de mata, mas hoje é apenas o resto de um corpo mutilado com partes já gangrenadas: é o que restou da maravilhosa floresta que por ali havia. Já abrigou tucanos, araras, antas, onças e tupinambás plantando mandioca. Viu homens vindos do mar matar os guerreiros da karijó-oka e violentar suas kunhãs. Viu chegar os engenhos, que derrubaram seus jacarandás e ipês, cravando cana no lugar. Viu maltratarem a sangrar homens e mulheres negros, lançados de outras matas. Viu a cana desaparecer, viu suas outras partes tomadas por casas de massapê. Permaneceu ali com os filhos e netos dos homens e mulheres negros sofridos nos engenhos, pois, como eles, também não tinha como sair dali. Viu juntar gente e mais gente, viu a alvenaria se erguer onde havia parede de barro. Viu entornarem o piche e a brita sobre o chão de terra que havia. Do arvoredo rico em bicho que existia, agora só há ele: um matagal desarvorado que ainda teimam em chamar de mata.
Foi numa madrugada que ele se desperta com um movimento imprevisto: homens negros e pardos (silenciosos para os ouvidos de outros homens) entravam por suas trilhas e se escondiam no cume de sua barriga. Sonido imprevisto de tiros chega até ele vindo do Alemão; não por serem tiros (já se acostumou a ver balas perdidas se acharem em seus caules), mas por serem tantos em tão pouca hora do dia.
Momentos depois, no que ainda tem de entranhas verdes, correm pra lá e pra cá homens negros e pardos combatendo uns contra os outros. Aqueles alojados no alto apanham em mortal emboscada aqueles saídos das ruas que se estiraram sobre seus morros. Destes, viu gente reconhecida, lembrou que um e outro já havia andado por seus caminhos a badocar estrangeiros pardais, a catucar forasteiras mangas com vara alta de bambu. Viu que a desgraça crescia, entristeceu-se ao ver menino que já acolheu morrer sendo levado a tentar matar. Chegando o entardecer, ouviu o choro de mães e esposas silenciando o eco das balas.
Calados os fuzis e emudecidas as sirenes, viaturas soturnas carregam meia dúzia de dezenas de corpos para sua sede no asfalto. As casas e becos pareciam sossegar, porém, ele, não. De si, do chão no qual enfia suas raízes magras, vê brotar uma centena de corpos mortos: o produto do que agora se planta por ali. Das ruas, chegam mulheres e homens para a colheita funesta; às ruas deitam os corpos negros e pardos que delas vieram.
Se entristece, queria chorar, mas seus olhos d’água secaram. Se culpa: por que não conseguiu escondê-los? Se resigna: não é mais uma floresta, nem tupinambá tiraria dele sustento… Se cala: não tem mais tucano, sabiá, guinchar de macacos, não tem pajelança, não tem gargalhada de molecada.
Ele, que já não era mata, agora não é nem matagal, está sendo rasgado por Caterpillars e aterrado: vai ser pavimentado por medida de estratégia e segurança pública para o público do Le-blond.
Todos os Textos de André Fersil estão AQUI.
Foto da Capa: WikiFavelas

