Há uma bonequinha que se vende nas lojas de souvenirs de Moscou, a Matrioska, termo aportuguesado do russo матрёшка ou matrёška. Constitui-se de uma série de bonecas, coloridíssimas, feitas geralmente de madeira, colocadas umas dentro das outras, da menor para a maior. Uma matrioska é constituída, de fato, por várias, e eu as tenho usado, seguidamente, como metáfora para representar processos complexos em que vários níveis compõem gradualmente sistemas maiores, que abarcam os sistemas anteriores, subsumidos uns nos outros, assim como cada bonequinha abarca uma menor, que abarca outra menor, e outra, mais outra, até a menor de todas, que, portanto, se aloja na maior, que entra na maior seguinte, e na seguinte, até a maior de todas. Vou me servir dessa metáfora mais uma vez, recorrendo a essas bonequinhas como auxiliares para uma breve reflexão acerca do contexto em que estamos hoje, agora, nessa Terra Brasilis.
Sempre que recorro às matrioskas para ilustrar determinado fenômeno, fico matutando se devo partir da menorzinha e ir subindo ou partir da maior, que traz todas as demais em seu bojo, e vir descendo. Vamos partir da maior.
Vamos visualizar nessa boneca maior um certo réu que nesse instante é julgado pela instância máxima da justiça brasileira, o Supremo Tribunal Federal, com julgamento transmitido em tempo real para todo o país, quiçá para todo o mundo (que, portanto, nos olha e nos vê). Mas quem é essa boneca? Quais bonecas ela traz em seu bojo? Essa boneca maior é um presidente eleito pelo voto que vilipendia votos, urnas e protocolos eleitorais, que ele supostamente deveria proteger e honrar. Um personagem perigosamente golpista. Que bonecas menores lhe dão sustento e alento?
A boneca imediatamente menor é um militar medíocre, como vaticinou um outro militar de quem foi contemporâneo. Um militar que tem um dos piores defeitos para aqueles que circulam nas casernas: é indisciplinado e desrespeitoso. A boneca que traz em seu bojo ajuda a entender melhor esse militar-frankenstein.
Trata-se de boneca que representa o que há de pior na machosfera brasileira, com sua misoginia, sua virilidade de botequim, sua vulgaridade e sordidez. Tal boneca tem em sua alma, representada pela boneca imediatamente menor, o caráter obscuro dos torturadores, dos assassinos, mesmo considerando que apenas estimulam, apoiam e enaltecem torturadores e assassinos. E chegamos à menor das bonecas, aquela que representa o verdadeiro âmago, a personagem menor, mas não menos importante, pois é ela quem organiza todas as demais, das quais essa menor de todas é o núcleo essencial.
Essa boneca menor de todas representa aqui o que tantos sistemas de crenças, ao longo da História, visualizaram como o Mal. Eventualmente corporificado, aqui e ali, em súcubos, íncubos e outras criaturas demoníacas condenadas a transitar pelas esferas todas do sistema infernal de onde vêm, para onde sempre vão. De minha parte, concordo de bom grado em denominar essa boneca primordial como representativa do Mal, mas nem preciso de ingredientes demoníacos sulfurosos para caracterizá-la. Até porque esse Mal não cabe em personagens circunscritos, ele é um núcleo central que perverte a Humanidade inteira, ele é o ente que ocupa o âmago de um fenômeno que, na sua ponta visível, é alguém ou algo que nos é absolutamente familiar.
Não sei se estamos todos condenados a trazer em nosso recôndito essa boneca menor de todas e a mais pervasiva de todas. Nos piores dias, suspeito que sim; nos melhores dias, suspeito igualmente que sim, mas com a crença atenuadora e reconfortante de que as bonecas que a abarcarão na sequência serão capazes de, se não neutralizá-la, ao menos atenuá-la, contê-la, trazê-la numa coleira de pitbull anímico-existencial. O que nos remete de volta à maior matrioska, de onde partimos.
Essa que se senta hoje no banco dos réus precisa ser vista na transversalidade das bonecas que, se em primeira instância não estão à mostra, constituem, juntas, a figura complexa que remete à Maldade como expressão nuclear mais básica, e que em seu nível mais visível, da maior das matrioskas, retrata aquilo que em primeira instância nós vemos de vislumbre.
Essa boneca maior merece o rigor do regramento civilizatório proporcionado pela Lei, pelo que ela é, pelo que ela encerra em suas camadas constitutivas, pelo núcleo de Maldade que mora no nível mais básico de sua alma. Maldade que, mesmo abarcada por camadas crescentes de bonecas que supostamente a encapsulam, aqui e ali vem à tona no ato covarde dos estupradores, no ato vergonhoso dos que defecam na sacralidade dos valores que nos proporcionam algum alívio face à treva.
Nos melhores dias, penso que talvez haja OUTRA matrioska, em cujo cerne nuclear não resida o Mal, mas o Bem. Outro dia rendi homenagens, aqui, a um Homem Santo, Pepe Mujica, que bem poderia ser essa matrioska ambulante alternativa e luminosa de que falo. Mas, nos piores dias, penso que o núcleo sombrio necessariamente está lá – a salvação verdadeira seria, para o indivíduo às voltas com suas bonecas interiores, conseguir abarcar esse núcleo de maldade com camadas e mais camadas de Civilização – como uma pepita de urânio radiativo em invólucros de chumbo, uns por dentro do outro, rumo a uma persona sociável e tranquila…
ESSA matrioska que temos visto seguidamente nas telas diversas que olhamos será necessário conter e fazê-la pagar pelos desatinos criminosos que foram cometidos. Justiça em nome do Brasil, das boas posturas, das matrioskas que conseguem circunscrever o Mal atávico e permitir a emergência de um homem-matrioska com quem possamos compartilhar certa fé – ou seja, ter fé juntos, ou ainda – CONFIAR.

Andar com fé eu vou [na esperança] Que a fé não costuma falhar – Gilberto Gil.
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Foto da Capa: Wikipedia

