Fui convidado pelo querido coletivo Porto Alegre, do qual faço parte com enorme alegria, para elaborar um resumo das missões a Medellín realizadas desde 2018. Tive a honra de participar da primeira missão e, alguns anos depois, da quarta. Nas próximas linhas, compartilho meu testemunho sobre como essa experiência transformou minha vida e vem impactando profundamente a forma como cada participante das missões passa a enxergar o mundo.
O impacto foi particularmente significativo para mim por atuar como cientista político e diretor de um instituto de pesquisa dedicado ao estudo e ao desenvolvimento de territórios em situação de vulnerabilidade socioeconômica. À época da primeira missão, estávamos intensamente engajados, enquanto coletivo, em fomentar o crescimento das áreas ligadas à economia criativa em Porto Alegre, com um viés de impacto social ainda incipiente se comparado ao estágio em que a cidade se encontra hoje, oito anos depois.
Havia entre nós a convicção de que o empreendedorismo criativo — nas artes, no desenvolvimento de software, nos espaços colaborativos, no design e em tantas outras frentes — poderia representar um verdadeiro leapfrog competitivo para a cidade, capaz de reverter a fuga de cérebros para outras regiões do país.
A visita a Medellín, no entanto, foi um divisor de águas. Para mim, em especial, o choque foi descomunal ao perceber que uma cidade marcada, nos anos 1990, pelo tráfico de drogas, atentados, sequestros e violência extrema havia se transformado, em pouco mais de duas décadas, em um símbolo global de inovação social.
Em Medellín, tudo parece operar como uma experiência cidadã integrada. Da limpeza impecável das estações de metrô, comparáveis a shopping centers, ao ordenamento territorial; das mensagens explícitas de cultura cidadã aos exemplos cotidianos e espontâneos de pertencimento coletivo; do respeito à coisa pública ao entendimento profundo dos direitos e deveres individuais. Soma-se a isso a responsabilidade e a racionalidade metodológica que orientam a tomada de decisões em políticas públicas. Nada está isolado: há processo, escuta ativa das demandas que emergem das ruas, rapidez na prototipagem e pilotagem de soluções, e empenho em escalar boas práticas para toda a cidade, sobretudo para as regiões mais vulneráveis. Equipamentos públicos de alta qualidade são distribuídos de forma descentralizada, ampliando o acesso a serviços, lazer e cultura. A vida em sociedade, ali, parece mais leve.
Permito-me ilustrar essa percepção com um exemplo simples, vivido em um bairro absolutamente comum da cidade — não turístico, sem biblioteca-parque ou grande equipamento urbano de referência. O único diferencial do local era um pequeno museu dedicado à bicicleta. Seu proprietário mantinha ali um bar, uma oficina de reparos e uma coleção pessoal de centenas de bicicletas, de diferentes épocas e estilos, incluindo modelos raros dos anos 1970.
Em uma tarde primaveril, aceitei o convite de um casal de caminantes da quarta missão para conhecer o espaço. Corria o rumor de que, toda primeira terça-feira do mês, o museu organizava um passeio ciclístico pelo bairro. Ao nos aproximarmos, fomos surpreendidos por uma grande aglomeração de pessoas. Muitos haviam chegado com suas próprias bicicletas, outros tantos, como nós, estavam a pé.
Formava-se uma fila que avançava rapidamente em direção ao interior do museu. Entramos e, instintivamente, começamos a discutir entre nós valores, exigências, documentos e até a possibilidade de alugar bicicletas sendo estrangeiros, já que todos ao redor eram paisas. Quando chegou nossa vez, conversamos brevemente com o dono do museu, que nos informou, com absoluta naturalidade, que não havia taxa, pré-condição ou necessidade de apresentar qualquer documento. Fomos simplesmente encaminhados ao local onde estavam as bicicletas e escolhemos as nossas.
O choque civilizatório foi imediato. Uma cidade latino-americana, do sul global, oferece bicicletas de coleção à população, sem burocracia, sem garantias formais, sustentada exclusivamente na confiança. Durante o passeio, ainda alimentamos a suspeita de que algumas bicicletas não retornariam, que alguém poderia se desviar do trajeto e levá-las consigo. Nada disso ocorreu. Todas as bicicletas foram devolvidas.
O que vivenciamos naquele trajeto pelas ruas do bairro foi a expressão de uma cidade viva, conectada e confiante — tanto em seu presente quanto em seu futuro. São lições cotidianas que se transmitem às próximas gerações e alimentam um ciclo virtuoso, no qual todos ganham. Em Medellín, a cultura cidadã não é um detalhe, é o alicerce sobre o qual se constrói sua inovação social.
Levei essa e inúmeras outras experiências de volta a Porto Alegre, profundamente inspirado. A partir delas, construí, junto a outros inquietos, um grupo multidisciplinar com o propósito de desenvolver, na nossa cidade, uma experiência que dialogasse com aquilo que alguns de nós haviam vivenciado em Medellín. Foram dezenas de reuniões ao longo de aproximadamente um ano, com participação comunitária ativa no processo de escuta e refinamento, até que emergisse o projeto Cidade Aberta. Nele concentramos a esperança de ver em Porto Alegre um equipamento público condizente com aquilo que se espera das melhores cidades do mundo. Alguns de nós, assim como outros caminantes que participaram das missões, passaram a transformar essas vivências em ensaios, artigos, palestras, painéis, dissertações e, sobretudo, em projetos — muitos projetos, de diferentes formatos, escalas e durações. Ano após ano, por meio das missões e de ações distribuídas pela cidade e para além dela, seguimos alimentando uma base crítica de policymakers, buscando converter o aprendizado com Medellín em futuro tangível, por meio de políticas públicas e iniciativas ancoradas na lógica da quádrupla hélice. Trata-se de afirmar uma nova visão de cidade, orientada por uma escuta mais qualificada da população, pelo desenvolvimento socioeconômico dos territórios historicamente vulnerabilizados e pela oferta de equipamentos públicos capazes de atender, com rapidez e qualidade, todos os porto-alegrenses, consolidando Porto Alegre como uma cidade mais inovadora, justa e inclusiva.
Cleiton Chiarel é cientista político, com formação em Ciências Sociais, articulador dos Spins de Economia Criativa, Educação e Inovação Social do Coletivo Porto Alegre Inquieta, conselheiro da Coalizão pelo Impacto, integrante do Grupo Tático Operacional do Pacto Alegre, membro do Comitê de Impacto Social do South Summit Brasil e coordenador de Inovação Inclusiva do Gabinete de Inovação da Prefeitura de Porto Alegre.
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Foto de Capa: Passarela sobre Rio La Iguaná - Metro La Aurora, julho de 2019; Medellín, Colômbia; Missão II, Coletivo Poa Inquieta, acervo Isabel Kristin.

