A partir da provocação do médico e escritor Franklin Cunha — à qual nos juntamos, Blau Souza, José Eduardo Degrazia e eu — a série “Médicos (pr)escrevem” foi publicada. Coordenada pelo quarteto nos anos de 1995 a 2001, estimulada de início pela maestria gráfica de Henry Victor Saatkamp. Todas as capas foram ilustradas pelo cartunista e também médico Ronaldo Cunha Dias.
Em sete anos, sete volumes. Contamos com 116 autores, todos profissionais da medicina, e temáticas diversas. Um dos nossos mais emblemáticos exemplos desse duplo ofício, Moacyr Scliar, sempre esteve presente. Nos volumes 1 a 6, os subtítulos foram: “Ensaios”, “Ficção”, “Crônicas”, “Memória — edição comemorativa dos 100 anos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul — 1898-1998”, “Humor”, e “O cômico e o inesquecível”.
Antes de esgotar a fórmula, a série foi encerrada. O sétimo volume, “Vidas e obras”, foi uma homenagem àqueles que nasceram e/ou exerceram a profissão no Rio Grande do Sul e que produziram textos literários não científicos. Foram listados, como critério, apenas os falecidos até o ano de 2001. Com base em referências pessoais dos coordenadores, foram lembrados um surpreendente número de 260 autores.
Nessa última publicação, houve destaque nos verbetes para os nomes de Caldre e Fião, Noemy Valle Rocha, Ramiro Barcellos, Cyro Martins, Dyonélio Machado, Balbino Marques de Souza, Aureliano de Figueiredo Pinto, Pedro Geraldo Escosteguy, José Fernando Carneiro (representando os gaúchos por adoção), Prado Veppo e Mario Rigatto.
Embora se reconheçam na literatura brasileira e mundial inúmeros escritores que também foram médicos, a forte associação entre Medicina e Literatura, observada em um período relativamente curto – de meados do século XIX ao final do século XX – e em uma área geográfica restrita, sugere uma conexão singular. Faz da série “Médicos (pr) escrevem” um marco de evidência histórica.
A princípio, essa ligação poderia ser atribuída ao privilégio de fatores socioeconômicos. Das formações superiores à época, a medicina, assim como o direito e as ciências exatas, dependia da classe social, sendo o clero uma opção de acesso à educação para jovens de famílias menos abastadas. No entanto, essa explicação parece insuficiente, pois não se observa uma conexão tão evidente e marcante entre a literatura e as demais carreiras.
O que diferencia a medicina é a convivência diária com situações-limite, a exposição permanente a histórias e conflitos humanos. O médico “vive” a vida dos outros, testemunhando de perto a dor, o medo, a resiliência e a esperança. Essa imersão profunda na condição humana pode levar a uma maior empatia e a um perene questionamento existencial. Um manancial de experiências e emoções que se traduzem e, por vezes, se impõem como fonte e alimento para a escrita. Embora não seja regra, é uma possibilidade real que justifica à prática médica o notável liame com a literatura.
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Foto: reprodução de cartum de Ronaldo Cunha Dias

