Carnaval é tempo de controvérsias. De um lado, os foliões e sua pressa de ocupar as ruas, celebrando a festa, o encontro, a fantasia de deixar de ser quem se é, ainda que por poucas horas. Do outro, aqueles, quase sempre pertencentes a grupos religiosos, que enxergam a mesma cena com olhos conservadores e veem excesso em tudo aquilo que insistem em classificar como atentado à moral e aos bons costumes.
Embora seja chamado de país do Carnaval, o Brasil não criou essa festa. O Carnaval também é comemorado em diferentes partes do mundo, ainda que tenha alcançado aqui uma maior dimensão marcada pela força da cultura popular e pela ocupação massiva das ruas. No Brasil, a festa chegou com os colonizadores portugueses, inicialmente por meio do Entrudo, prática que misturava brincadeiras ruidosas e excessos e, com o passar do tempo, foi incorporando influências africanas e indígenas, dando origem a manifestações próprias, como os blocos e, posteriormente, as escolas de samba.
Ao inverter papéis, ocupar as ruas e dar visibilidade ao corpo e à voz coletiva, a festa incomoda hierarquias e normas. Não por acaso, durante a ditadura militar, sofreu vigilância, censura e tentativas de controle, evidenciando o quanto a celebração também pode ser percebida como espaço de expressão e contestação. Trazendo sempre um tema relevante, as escolas de samba, por meio do enredo, revisitam episódios históricos, homenageiam personagens silenciados, denunciam injustiças e afirmam identidades. Um espaço de memória e posicionamento, entre alegorias e sambas-enredo, o Carnaval reafirma sua dimensão cultural e política, mostrando que a festa também é forma de contar o país a si mesmo.
Criticada por uns e ovacionada por outros, a Acadêmicos de Niterói, do grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro, levou à avenida o samba-enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Com o objetivo de apresentar a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva desde a infância marcada pela pobreza no Nordeste até a projeção nacional como líder sindical e presidente da República por três vezes, a escola construiu um desfile que misturou memória, política e emoção.
Deixando de lado as disputas partidárias, a história de Luiz Inácio Lula da Silva merece ser contada e recontada muitas vezes. Independentemente da posição política, trata-se de uma trajetória que percorre temas centrais da experiência brasileira: a pobreza, a migração, o trabalho operário, a organização sindical, o acesso tardio à escolarização e a chegada de um trabalhador ao posto mais alto da República.
Em Lula, biografia – volume 1, publicado em 2021 pela Companhia das Letras, Fernando Morais recompõe os problemas enfrentados por Luiz Inácio Lula da Silva, que ainda menino passou treze dias em caminhão pau de arara, deixando para trás um Nordeste marcado pela seca. O livro, primeiro de um projeto mais amplo, percorre sua formação pessoal e política até os anos 1980, acompanhando o operário que se transforma em líder sindical e personagem central da história recente do Brasil.
Mas é na infância marcada pela fome e pelas dificuldades que desejo me deter.
Assim como muitas famílias residentes naquelas terras, a de Lula não escapou à tragédia social do nordeste em meados do século XX. Nas casas de barro e chão batido, a infância era abreviada. Meninos e meninas aprendiam cedo que brincar e estudar era um privilégio que não lhes pertencia. O trabalho doméstico, a lida no campo, os pequenos serviços informais surgiam como extensão natural da sobrevivência. Adultos, crianças e poucos idosos — já que a expectativa de vida girava em torno dos 35 anos — arcavam com as consequências de viver distantes dos centros urbanos, onde se concentravam investimentos, infraestrutura e serviços públicos.
Após o golpe civil-militar-empresarial de 1964, a já precária realidade do povo nordestino agravou-se sob um regime autoritário marcado por prisões, torturas e assassinatos. A repressão atingiu não apenas líderes políticos, mas também estudantes, artistas, religiosos e educadores que incentivavam a reflexão crítica, como Paulo Freire, cujo método de alfabetização articulava a leitura da palavra à compreensão do mundo.
Nesse mesmo contexto, a escritora e freira Maria Valéria Rezende fixou-se no interior de Pernambuco, onde, a partir dos anos 1970, enfrentando a ditadura militar, atuou como educadora popular. Em seguida, partiu para o sertão paraibano, onde permaneceu até 1988, estabelecendo-se em João Pessoa, onde vive até hoje. A trajetória de Maria, a protagonista de seu romance Outros Cantos (Alfaguara, 2016), confunde-se em muitos aspectos com as histórias que marcaram a vida da autora. Orientada por antigas lembranças, a personagem septuagenária perfaz uma longa viagem de ônibus pelo sertão nordestino, até a sede de um sindicato de trabalhadores rurais que a convidara a debater sobre a influência da televisão e ajudar na elaboração de uma proposta educacional adequada à realidade sertaneja.
Durante o trajeto, a Maria fictícia recorda os dias em que viveu entre os moradores de Olho d’Água, um vilarejo do sertão nordestino, e tinha como missão misturar-se à população sertaneja, disfarçada de professora do Mobral. Nesse convívio, ela aprende muito mais do que ensina. Enquanto aguarda a chegada dos materiais para a concretização da sua tarefa, ela observa a aceitação daquelas pessoas diante das dificuldades que consideram vontade divina, esperando da vida após a morte a recompensa pelo sofrimento na terra.
O intuito de Maria seria, por meio da educação, conscientizar os sertanejos sobre os desmandos dos coronéis da terra, o “Dono”, preparando o terreno para a chegada de outros companheiros que se somariam a ela em um projeto coletivo de organização e resistência. Porém, os militares chegam antes que esse trabalho possa se consolidar, restando a Maria a fuga, escondida na carroceria de um caminhão.
As provações enfrentadas pelos sertanejos do livro de Maria Valéria Rezende são as mesmas que levaram Dona Lindu e milhares de famílias a embarcarem em um pau de arara ao longo do século XX. Mas a cidade grande também impunha novas formas de precariedade: moradias improvisadas, jornadas exaustivas, discriminação contra o migrante nordestino. A seca ficava para trás, mas não desapareciam a pobreza nem a desigualdade.
Foi dessa travessia que emergiram histórias como a de Lula e de tantas outras anônimas, marcadas pela crença de que, mesmo em condições adversas, o futuro ainda podia ser construído. Por isso, sua trajetória, para além do carnaval e das disputas eleitorais, precisa ser lembrada e revisitada: para que não se apague da memória coletiva o percurso de um homem que conheceu a fome e, ao chegar ao posto de presidente da República, reconheceu nos rostos anônimos do país a sua própria origem.
Todos os textos de Andréia Scherfer estão AQUI.
Foto da Capa: Maria Valéria Rezende / Foto de Adriano Franco/Divulgação

