— Me alcança aquela coisa ali? Aquela que fica em cima daquele troço.
— Viram onde deixei meus óculos?
— Precisava entregar meu texto pro Luiz Fernando, editor da Sler, na 2ª feira dessa semana, confundi as datas. Cá estou eu, correndo para tentar cumprir nos 45 minutos do 2º tempo!
Por que tudo isso? Desligada, dirão uns. Atrapalhada, dirão outros. Confusa, dirão alguns. Menopausada, senhoras e senhores, essa é a verdade.
A perimenopausa, ou a fase que antecede a menopausa, entrou na minha vida e nem percebi. Um ressecamento na pele, no cabelo, diminuição na libido, cansaço, alteração do meu humor, menstruação foi diminuindo até ficar um “borrão”. Já sabia que meu estrogênio vinha diminuindo, mas quando chegaram os famosos calorões, entendi. Fui a ginecologista com quem me tratava, que confirmou a situação. Logo em seguida, fiquei onze meses sem menstruar, voltei por mais quatro e, finalmente, entrei na menopausa aos 52 anos. Um processo que levou cerca de uns quatro anos ao todo para mim. Hoje, passados seis anos, ainda sinto seus efeitos.
Mesmo que já tenhamos começado a falar mais sobre menopausa como sociedade, percebo que ainda falamos pouco. Precisamos insistir.
Ciclo de Vida
Acho importante a gente se entender parte da Natureza e dos animais. Assim como plantas e outros animais, como seres humanos, passamos por um ciclo de vida que se inicia com o nosso nascimento e se encerra com a nossa morte.
Nesse ciclo, homens e mulheres, depois que nascem, passam pela fase da infância, adolescência, juventude, adultez e velhice. No decorrer dele, mulheres vivenciarão a menarca, menstruação e a menopausa.
- Menarca: acontece normalmente entre os 9 e 16 anos, marca quando o sistema reprodutor amadurece e iniciamos a ovular e, portanto, a menstruar.
- Menstruação: uma mulher terá algo entre 400 e 500 menstruações durante a vida, o que representa aproximadamente 22 litros de sangue e tecido perdidos ao longo da vida, enquanto ocorre a descamação da parte interna do útero. Entre os animais, algumas espécies de primatas e de morcegos, o musaranho-elefante (pequeno mamífero africano) e o camundongo-espinhoso-do-cairo, recentemente descoberto, também menstruam.
· Menopausa: é a cessação definitiva da menstruação, marcando o fim da fase reprodutiva da mulher. Ela é confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruar, geralmente entre 45 e 55 anos, devido à diminuição natural da produção hormonal pelos ovários (estrogênio e progesterona). Conforme reportagem na National Geographic, “É uma característica incrivelmente rara no mundo natural”, diz Charli Grimes, especialista em comportamento animal da Universidade de Exeter, no Reino Unido. Apenas seis animais – os seres humanos e cinco espécies de baleias com dentes (odontocetos) – vivem para lá dos seus anos reprodutivos. As orcas, ou baleias assassinas, são um desses animais e têm sido estudadas intensivamente para percebermos a razão pela qual viver para lá da menopausa é benéfico para a sua espécie. Os estudos demonstraram um novo poder da menopausa, que é frequentemente representada de forma negativa pela cultura popular.
· Climatério: é o tempo de transição da vida fértil para a não fértil, englobando a perimenopausa (início com irregularidades menstruais), a menopausa (última menstruação) e a pós-menopausa (após a menopausa).
Atenção interna
Percebo que, com o passar do tempo, meio que fomos nos desconectando da natureza e do nosso próprio corpo. E nesse sentido, acho importante dar-se conta de que a menopausa é um processo natural do nosso ciclo de vida.
Conectar-se ao nosso corpo, aos sinais que ele dá, conhecer como ele reage aos nossos diferentes humores, apropriar-se dessas informações nos oferece maiores condições e referências quando os hormônios começam a (nos) mudar.
Os efeitos da menopausa
As alterações hormonais associadas à menopausa afetam o nosso bem-estar físico, emocional, mental e social. Os sintomas vivenciados durante e após a transição menopáusica variam substancialmente de mulher para mulher. Algumas apresentam poucos ou nenhum sintoma. Para outras, os sintomas podem ser intensos e afetar as atividades diárias e a qualidade de vida. Algumas podem apresentar sintomas por vários anos. Mas atinge a todas as mulheres.
Os sintomas que ela causa
- Ondas de calor e suores noturnos. Ondas de calor referem-se a uma sensação repentina de calor no rosto, pescoço e peito, frequentemente acompanhada de vermelhidão da pele, transpiração (suor), palpitações e sensações agudas de desconforto físico que podem durar vários minutos;
- Alterações na regularidade e no fluxo do ciclo menstrual, culminando na cessação da menstruação;
- Secura vaginal, dor durante a relação sexual e incontinência;
- dificuldade para dormir/insônia; e
- Alterações de humor, depressão e ansiedade.
- Redução nos níveis de estrogênio, hormônio que desempenha um papel protetor sobre o sistema cardiovascular, resultando em um aumento do risco de doenças cardíacas. Antes da menopausa, as mulheres tendem a ter uma proteção natural contra problemas cardiovasculares, mas essa vantagem diminui com a queda hormonal.
- Enfraquecimento das estruturas de sustentação pélvica, levando ao aumento da incidência de prolapso de órgãos pélvicos, que pode afetar a qualidade de vida e causar desconforto.
- Perda de densidade óssea, que se acelera após a menopausa. Isso torna as mulheres mais suscetíveis à osteoporose e a fraturas.
44% das brasileiras não realizam tratamento para a menopausa
Apesar de causar todos esses sintomas, 44% das brasileiras não realizam nenhum tipo de tratamento para a condição, conforme aponta uma pesquisa divulgada em outubro de 2025, realizada pela Ipsos a pedido da Bayer, com 800 mulheres de 18 a 60 anos de todas as regiões e classes sociais do Brasil. A pesquisa mostrou que, além da falta de tratamento, a menopausa ainda é invalidada pela sociedade médica e por familiares das pacientes.
Conforme a reportagem da Associação Paulista de Medicina, “metade das mulheres afirma que os sintomas sentidos durante a menopausa já foram tratados como ‘exagero’ ou ‘algo normal’, número que sobe para 65% entre as mulheres na pré-menopausa. Os familiares são citados por 41% delas como a origem do problema, enquanto 38% apontam os profissionais de saúde como os principais “deslegitimadores” — esse índice chega a 55% entre as mulheres de 50 a 60 anos de idade.
“Essa naturalização do sofrimento feminino é um problema histórico. A mulher é ensinada a suportar suas dores, não a tratá-las, e isso pode ter consequências graves na saúde física e mental”, afirma Ilza Monteiro, ginecologista e livre-docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A falta de informação sobre a menopausa e suas opções terapêuticas aparece como um obstáculo em comum entre os grupos, atingindo aproximadamente uma em cada cinco mulheres (19%).
“Estamos falando de uma condição biológica e previsível, que deveria ser discutida por todos. Mas, em contrapartida, temos um cenário no qual as mulheres enfrentam tabus e, consequentemente, não conhecem os sintomas, as opções de tratamento e o caminho para encarar essa fase com saúde e qualidade de vida”, completa Monteiro.
Além disso, o levantamento mostra que desigualdades no acesso ao tratamento da menopausa são uma das barreiras para que as mulheres tenham os sintomas controlados. Entre as usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), a principal dificuldade está na demora para conseguir consulta com especialistas, enquanto mulheres com plano de saúde citam burocracia ou falta de cobertura como entraves.”
Menos pesquisa sobre menopausa
A menopausa atinge 100% das mulheres, enquanto a disfunção erétil atinge 15% dos homens. Ambas são condições que afetam a saúde sexual e a qualidade de vida, mas a quantidade de pesquisas e investimentos em estudos sobre essas duas questões difere significativamente. Enquanto a disfunção erétil atrai atenção na literatura médica e um investimento considerável em soluções farmacológicas, a menopausa recebe menos foco em termos de investimento em pesquisa. Uma das razões para essa disparidade pode ser a percepção cultural e social que cerca essas condições.
A disfunção erétil é frequentemente associada à masculinidade e à performance sexual, levando a uma maior pressão para o desenvolvimento de tratamentos e intervenções. Em contraste, a Menopausa, que é uma experiência comum entre as mulheres, pode ser vista de maneira diferente, muitas vezes relacionada ao envelhecimento e ao término da vida reprodutiva, o que demonstra nessa decisão institucional o quanto de idadismo e sexismo ela pode estar impregnada, resultando em uma menor urgência para investigar e desenvolver tratamentos específicos para milhares de mulheres em sofrimento.
Aos homens interessa
Atenção! É importante a parceria, apoio, acolhimento, compreensão dos companheiros, irmãos, colegas, chefes, pais, tios, amigos, homens no geral, para e com as mulheres que enfrentam o climatério e a menopausa sem piadas inadequadas, sem julgamento, sem pressões: “Ela deve estar na menopausa…”, “Tá velha… tá gorda… tá seca… não quer mais transar…”.
Essa é uma hora de homens ficarem ao lado das mulheres. Informarem-se, lerem sobre esse período. Perguntarem sobre como podem ajudar. Este é um assunto para homens, em especial os com namoradas, esposas, companheiras, porque influencia a relação do casal, e deveria interessar aos dois manter a relação saudável e em harmonia.
A mercantilização da menopausa
Apesar da falta de pesquisa científica a respeito, há excesso de produtos se aproveitando desse período da vida das mulheres para que empresas faturem muito. Como vivemos num mundo capitalista, a menopausa se transformou num mercado a ser explorado. Peço muita atenção para as mulheres em geral, para não colocar dinheiro em promessas vãs. Não existe milagre.
O que fazer para se viver um bom climatério e menopausa?
Consulte sua médica de confiança. Converse com outras mulheres que estão passando ou que já passaram por esta fase da vida. Leia conteúdos de fontes de qualidade. Busque conversar com suas tias, mãe e avós, se ainda estiverem vivas, para saber como elas passaram por este período. Escute teu corpo. Isso tudo reunirá uma bagagem que te fará escolher o melhor caminho para você.
É um período complexo. Atividade física, boa alimentação, cuidados com o sono e o estilo de vida no geral são as recomendações dadas normalmente. Mas podem não bastar para quem tem os sintomas mais severos. A terapia de reposição hormonal pode vir a ser necessária, mas ela não serve para todas as mulheres porque possui contraindicações.
Essa cartilha eu indico para quem quiser se informar sobre climatério e menopausa, tratamentos hormonais e não hormonais, feita a partir de fontes confiáveis.
E depois da menopausa?
Continuaremos a ter alguns sintomas, é verdade. Sigo com esquecimentos, confusões e atrapalhamentos, rindo de mim mesma.
Mas há uma boa vida. Mais livre e mais leve sem os óvulos que não carrego mais. Mas com sabedoria, que não tem peso, mas carrega a experiência e a maturidade dos anos vividos.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA

