Todo final de ano videntes e astrólogos fazem suas previsões: quem vai casar, quem vai morrer, qual país será campeão. Embora curiosas, essas previsões em pouco ou nada interferem nas nossas vidas. Mas agora surgiu o tal “prediction market”, que são plataformas de mercados de previsões, que não apenas refletem, mas podem moldar a realidade, afetando toda a sociedade, inclusive os que sequer sabem que existe este mercado. Vou explicar aqui como funciona este novo negócio, como ele vai impactar a sua vida e como a brasileira Luana Lopes Lara se tornou a bilionária “self-made” mais jovem da história, ou seja, a pessoa que, sem receber herança, conseguiu aos 29 anos ter mais de um bilhão de dólares. Segundo ela: “… Chegar aonde eu cheguei é literalmente por isso que o capitalismo e a meritocracia funcionam.”
O que é e como funciona o mercado de previsões? Hoje, os analistas consideram que a Espanha tem 17% e o Brasil tem 5,6% de ganhar a Copa do Mundo de Futebol de 2026. Vamos imaginar que a empresa Kalshi, que atua neste mercado, pergunte: Quem será o campeão da Copa do Mundo 2026? A pessoa interessada irá comprar uma cota no mercado de previsões pagando 5,6 centavos de dólar de que o Brasil será campeão. Se ele não for, perderá seu dinheiro, mas, se vencer, receberá 94,4 centavos de dólar por cota comprada. Porém, o valor desta cotação poderá variar ao longo do tempo. Passada a fase de grupos, a Espanha foi mal e o Brasil muito bem, a probabilidade do Brasil poderá subir para 56 centavos de dólar, e o investidor poderá vender sua cota antes mesmo da final da Copa, ganhando dez vezes o que investiu. Em outras palavras, a atividade destas empresas é gerar perguntas para as pessoas responderem, quem perde passa o seu dinheiro para quem ganhou e a empresa que administra, no caso a Kalshi, cobra uma taxa que varia de 3,5% a 10% das compras e vendas de cotas.
Quem é Luana e como ficou bilionária? Ela é de Joinville-SC, filha de uma professora de matemática e de um engenheiro eletricista, desde criança fazia aulas de balé clássico na Escola de Teatro Bolshoi, foi premiada em olimpíadas de matemática e foi estudar no MIT, uma das melhores universidades do mundo. Lá conheceu Tarek Mansour e criaram a empresa Kalshi, uma plataforma concorrente da Polymarket. O Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão regulador de mercados de derivativos nos EUA, não autorizou estas empresas a atuarem nos EUA. Então, a Kalshi e Polymarket contrataram um advogado e o convidaram para participar do conselho das duas empresas. Surpreendentemente, este advogado logo conseguiu liberar a atuação destas empresas nos 50 estados dos EUA e elas passaram a lucrar bilhões, sendo que Kalshi tem uma avaliação de 11 bilhões de dólares. Desde 2024, ela teve um crescimento superior a 1000%. Para se ter uma noção do valor da empresa, hoje ela já vale um sétimo do valor da Petrobrás (77 bilhões de dólares), que é uma das maiores empresas de petróleo do mundo. Ah! Esqueci de dizer quem é o advogado milagreiro: o Donald Trump Junior! Provavelmente, se Kamala tivesse ganho as eleições, estas empresas não poderiam operar nos EUA.
Mas como isso irá impactar a sua vida e a minha vida, mesmo que não participemos deste negócio? As revistas especializadas em negócios, como a Forbes, Exame, sites como Investe.com, afirmam que estas previsões são mais confiáveis do que as dos especialistas e líderes de organizações. A justificativa é que milhões de pessoas apostariam após pesquisar, criando uma espécie de “sabedoria das multidões”.
Onde está o problema? Primeiro, esta ideia ignora que a maioria das pessoas não pesquisa profundamente antes de tomar decisões financeiras. Vivemos um ambiente saturado por fake news, bolhas informacionais e manipulação emocional. Segundo, não há mecanismos eficazes para impedir a manipulação deliberada. Assim como na bolsa de valores, alguém poderá apostar milhões no candidato mais fraco numa eleição e ele se tornar o favorito. Assim que aumentar a cotação dele, o investidor poderá se retirar ganhando muito dinheiro. Terceiro, quem mais aposta em BETs são as pessoas mais pobres, frequentemente movidas pela esperança de equilibrar suas finanças. O mercado de previsões será pior ainda, pois permite com mais facilidade a entrada e saída de grandes investidores em momentos oportunos. Quarto, as tais “previsões autorrealizadas”, por exemplo, o filho do Trump irá apostar quantas vezes o Presidente dos EUA irá mencionar “America first” no próximo discurso. Existe grande probabilidade de que ele acerte. Quinto, a CNN fez uma parceria para utilizar os dados da Kalshi para embasar reportagens sobre política, economia, clima e cultura. Jornalismo e especulação passam a se confundir.
Em resumo, a ideia passada por eles de “mercado de previsões para ser o farol da verdade” não é previsão e nem busca a verdade. O que está em jogo não é apenas dinheiro, mas a transformação da opinião pública em ativo financeiro. Quando expectativas, crenças e decisões coletivas viram instrumentos de lucro, o futuro deixa de ser construído democraticamente e passa a ser negociado como fichas em um cassino.
Referências:
– Revista Exame – Polymarket: conheça o “mercado de apostas descentralizado” que virou sensação com eleições americanas
– Revista Forbes – Entenda a diferença entre BETs e os Mercados de Previsão.
– Investing.com – Da aposta ao dado: como os mercados de previsão estão mudando a forma de decidir.
– Calma Urgente – Prevendo a Falta de Futuro
– Cripto Fácil – CNN anuncia parceria inédita com a plataforma de previsões fundada por brasileira
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Foto da Capa: Gerada por IA.

