Quando recebi o convite para escrever esse artigo sobre o Mês da Saúde, celebrado em abril, conforme o calendário do Ministério da Saúde, imediatamente fiz uma viagem no tempo em minha mente. Lembrei da vez em que precisei ser atendido em uma unidade de saúde na Avenida João Pessoa, próximo à esquina com a Avenida Venâncio Aires, em Porto Alegre. Eu havia quebrado o meu braço. Não lembro bem o ano, mas sei que era nos anos 1980. Eu vi nas mãos de minha mãe um papel que parecia uma carteirinha de clube. Era de papel, meio amarelada, com uma foto 3×4 em preto e branco. Na época, minha mãe trabalhava de balconista em uma padaria, em Florianópolis/SC.
Também recordo que, na década seguinte, todo ano, quando eu e meus irmãos estávamos no período de férias escolares, íamos para esta mesma cidade. Sempre que chegávamos lá, a primeira coisa que a mãe fazia era nos levar ao posto de saúde onde a prima dela trabalhava. Lá era feito o nosso check-up. A consulta odontológica, o pedido dos exames de sangue, urina etc. Mas nesses atendimentos eu não via a tal carteirinha… bastava falar com a prima do posto e pronto. Consulta e exames marcados.
Assim eu cresci. De ano em ano, com os meus atendimentos de saúde feitos em outro estado. Mas isso não quer dizer que não consultava em Porto Alegre. Lembro, porém, que para eu poder receber esse atendimento precisava ir ao antigo “Postinho do Murialdo”, aquele ali perto da quadra de futebol, ao lado da Igreja São José do Murialdo, na Rua Vidal de Negreiros, Bairro São José (posto que atualmente está na Avenida Bento Gonçalves).
Era assim que nos localizávamos. Usávamos como referência os principais pontos do bairro. Lembro de ir buscar o leite em pó, trocando por um ticket de papel dado pelo governo. Era festa lá em casa, para mim e meus irmãos (risos). Tinha leite!
Já adulto, conheci os benefícios dos convênios. Quando trabalhei como cobrador de ônibus da empresa Sudeste, tinha direito a atendimento médico e odontológico. Enquanto estivesse empregado, estava “coberto”. Qualquer problema de saúde era só agendar.
Comecei a trabalhar cedo. Com 12 anos, era servente de pedreiro. Passei por várias profissões ao longo dos anos. Porteiro, motoboy, balconista, vendedor, segurança de loja e de festas noturnas, técnico de enfermagem e muitos outros. Até conseguir a graduação como cirurgião-dentista, foram diversas ocupações. Mas foi como professor de um curso técnico de enfermagem que pude entender melhor. De todas as profissões que exerci, sem sombra de dúvidas, a que mais gosto é a de professor, essa pessoa passa a vida estudando para poder ensinar. Passar o conhecimento adiante. Como diz minha linda esposa, “o conhecimento é algo que só cresce quando compartilhado”.
Compreendendo a história
Foi como professor que entendi como é a relação da saúde para 55% da população brasileira. Sim, me refiro às pessoas pretas e pardas, conforme o mais recente censo do IBGE. Tudo começa com a chegada da família Real ao Brasil ao se deparar com problemas sanitários vivenciados pela população, majoritariamente de escravizados. A primeira preocupação foi com os portos e os navios. O atendimento médico era privilégio para quem podia pagar por ele. Grande parte da população, instalada nas periferias, ficava à mercê da caridade da Igreja. Alguns recorriam a curandeiros e ao uso de ervas. E assim seguiu por muitos anos e anos. A população foi se multiplicando, bem como a escassez de atendimento.
Já no início da República, começaram a surgir várias doenças. Varíola, malária, febre amarela e, posteriormente, a peste. Não precisa ser nenhum gênio para adivinhar onde essas doenças eram mais prevalentes. Uma das ações realizadas pelo governo, talvez a mais conhecida na época, foi a criação de guardas sanitários. Os integrantes iam até as favelas, retiravam os colchões de dentro das casas e ateavam fogo. Em outro momento, trancavam as pessoas em casa, a fim de realizar isolamento. Em seguida, veio a revolta das vacinas. Além dos livros, uma matéria da revista Superinteressante menciona a “operação bota-abaixo” e a “brigada mata-mosquitos”. O que notamos aqui é que, desde o início, a criação do sanitarismo atingiu a maior fatia da população. Não é muito diferente dos dias de hoje.
Anos depois, uma solução encontrada foi criar “caixinhas”. As Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPs), de 1923, que depois, na Era Vargas, se tornaram Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs), passando sucessivamente pela criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), na década de 1960, o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência (INAMPS), nos anos 1970, até o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), em 1990, após a universalização do direito à saúde, com a Constituição de 1988, que deu origem ao Serviço Único de Saúde (SUS).
Aí você pode me perguntar: “Sáiron, mas qual a relação disso com a saúde da população negra?” Tudo! Até 1988, pelo menos, só participava e era beneficiado quem contribuía. Quem podia pagar. Uma realidade que não estava ao alcance da maioria da população.
Agora, eu pergunto: como manter a saúde sem acesso a ela? Resposta: desenvolvendo os próprios meios para garantir o bem-estar. A Lei 8080/90, em seu artigo 3º, diz:
Os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do país, tendo a saúde como determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais.
Ou seja: ações que se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico, mental e social.
Nesta minha pequena viagem no tempo, tudo que vi foram várias tentativas que mostram o contrário. A cultura negra foi marginalizada, com o intuito de escondê-la, findá-la e extingui-la. Em paralelo a isso, muitas das expressões que cresci ouvindo tornam as nossas origens como algo deletério. Lista negra, caderninho preto, a coisa tá preta, não faz negrice, preto de alma branca.
Atualmente, debater e promover a saúde mental está em alta. Mas vamos pensar um pouco. Tenho 43 anos. Nasci em maio de 1981. Como seria minha realidade sem a carteirinha de saúde amarelada guardada por minha mãe? As eleições diretas foram retomadas em 1985, com o fim da ditadura civil-militar. Em 1986, houve a 8ª Conferência Nacional de Saúde, a primeira aberta à sociedade, na qual se chegou ao consenso de que saúde é direito de todos e dever do Estado. Em 1988, nasce o SUS, cujo capítulo da Saúde na Carta Magna foi embasado no relatório final dessa conferência. Em 1990, são promulgadas as leis que o regulamentam. Mas como era antes do meu primeiro ano de vida? Como foi para a geração da minha e da sua mãe? E das nossas avós?
Afroempreender em saúde
Afroempreender em Saúde é sobre isso. É ter a responsabilidade de ser representativo mesmo que você pense – ou a sociedade te faça pensar – o contrário. É saber na pele como é ser julgado nos atendimentos de saúde, mesmo sem que te digam uma só palavra. É ver um brilho no olhar quando uma criança te enxerga vestindo jaleco, macacão, avental ou seja lá a roupa que você use no seu dia a dia em hospitais, clínicas, consultórios ou laboratórios, ocupando uma posição que não é usual, que extrapola a normatividade.
Graças à minha mãe, pude acessar o sistema de saúde e tratar o meu braço quebrado, quando era criança. Ela guardava a tal carteirinha amarelada. Mas não era a realidade de muitos, diga-se de passagem. Muito obrigado, mãe. E aos que não tinham?
Essa leitura de cenário, em muito despertada a partir da Academia, me impulsionou a empreender em saúde. Hoje, na Marffin Saúde, inicialmente Marffin Odontologia, procuramos, de forma inédita no sul do país, apoiar outros empreendedores do segmento. Há mais de um ano, através de nossa trilha, transmitimos a esses atores, predominantemente negros, todo apoio e conhecimento nesta seara tão árdua para nós.
O afroempreendedorismo é isso. Entender o contexto histórico e ir adiante. Algo que nossos ancestrais não puderam fazer de forma livre como hoje. Não por falta de capacidade, mas por atos que invalidavam ou deslegitimavam a potência de uma população.
Para não esquecermos
Cada um de nós tem um ponto de partida. Um percurso preenchido com uma caminhada diferente. Porém, para pessoas negras, os dias atuais ainda são repletos de desafios impostos pelos anos de escravização e pelo cerceamento de direitos que marcaram a vida de nossos ancestrais que, à sua maneira, em suas lutas e sabedoria, possibilitaram que chegássemos até aqui e pudéssemos sonhar com algo maior.
Tenho certeza de que aqui, no fim desse pequeno texto, em algum momento você foi revisitar seu passado, assim como eu fiz. Falar de saúde, em especial da população negra, não é uma pauta a ser abordada apenas em novembro. Tampouco está restrita à anemia falciforme ou à talassemia. A maior dor da população negra vem da alma, da memória (ou do despertar para as desigualdades).
Precisamos lembrar que saúde não é só ausência de doença, como determina a Constituição Federal de 1988, no Art. 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”
Referências:
Saúde e Higiene Pública na Ordem Colonial e Joanina.
História do SUS: da colônia aos dias atuais! - Sanarmed.
Conheça a história da Saúde Pública no Brasil.
8ª Conferência Nacional de Saúde (1986)
O que foi a Revolta da Vacina, e o que Oswaldo Cruz tem a ver com ela
Sáiron Quadros é Cirurgião Dentista, especialista em Implantodontia e em Prótese Dentária. Fundador e proprietário da Marffin Odontologia, Marffin Saúde e Residencial Geriátrico Marffin. Atua, também, como docente de curso para Técnico em Enfermagem (primeira formação no campo da Saúde) e Técnico em Saúde Bucal. Com foco no desenvolvimento permanente, cursa MBA de Empreendedorismo e Novos Negócios. Associado Odabá e entusiasta do empreendedorismo negro. @marffinsaude @saironquadros @residencialgeriatricomarffin
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