Quando eu era criança, muitas vezes quis ser menino. Meninos jogavam bola nos campinhos do bairro, andavam de bicicleta por ruas distantes, saíam e voltavam quando bem entendiam. Vestiam roupas confortáveis para brincar, nunca eram repreendidos por se sujarem nem chamados de imprudentes por estarem, quase sempre, com os joelhos esfolados.
Os meninos não precisavam ter boas maneiras na frente dos outros, fechar as pernas ao sentar, controlar o tom da voz ou medir o riso. Raramente alguém lhes dizia que certos comportamentos não ficavam bem. Podiam ser barulhentos, correr, cair, levantar e continuar correndo sem sofrer nenhuma advertência. Já as meninas que se comportavam da mesma forma eram repreendidas por não serem femininas, doces e meigas — como, supostamente, toda menina deveria ser.
Na adolescência, o “isso não é coisa de menina” foi se transformando em “não faça isso para não ficar mal falada”, sempre carregado de um tom moral, sobretudo quando o assunto era sexualidade. A vigilância constante e os conselhos inconvenientes vinham travestidos de preocupação, não apenas por parte dos familiares, mas também dos amigos homens. De repente, parecia que todos tinham alguma autoridade sobre o meu comportamento, dizendo como eu deveria me vestir, com quem poderia sair e até onde poderia ir. Aquilo que, para os meninos, era liberdade, para meninas iguais a mim vinha sempre acompanhado de uma ameaça à reputação.
Às mulheres, nem sempre é concedido o poder de decisão sobre a própria vida. Desde cedo nos cobram que sejamos boas esposas e boas mães, como se esse fosse o único destino possível. Diante dessa pressão social, muitas acabam cedendo às convenções sociais, abrindo mão de suas carreiras profissionais e de projetos pessoais. Tudo em nome de um modelo de vida que raramente exige dos homens o mesmo tipo de renúncia. E, quando uma mulher decide não seguir esse roteiro, ainda hoje precisa lidar com o julgamento e com a tentativa de fazê-la voltar ao lugar de onde saiu por escolha.
Essas cobranças que recaem sobre as mulheres também aparecem na literatura. Em Mesmo rio, obra publicada em 2022, a escritora e psicanalista Elisama Santos aborda o delicado tema da distribuição do afeto de uma mãe entre os filhos, a partir da perspectiva de cada um deles. Enquanto Lucas, o primogênito, recebe um amor espontâneo e abundante, Marília vive em constante esforço para conquistar essa mesma aprovação. À caçula, Rita, resta quase nada além de indiferença e desprezo.
Mesmo rio parte da ideia de que “do mesmo modo que ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, é impossível ser a mesma mãe para todos os filhos”. A premissa é interessante, mas a leitura do romance permite ampliar essa reflexão, levando em conta também os comportamentos e as trajetórias das mulheres que compõem a história. Maria Lúcia, a mãe, abandonou a carreira para casar e, mesmo sem ter nascido para a maternidade, dedicou-se ao marido e aos filhos. Com o passar dos anos, tornou-se uma mulher fria e insensível, sobretudo em relação à filha caçula, a quem critica com frequência.
Maria Lúcia cobrava de si mesma a aparência e a boa educação dos filhos, sendo que “a possibilidade remota de ser vista como uma mãe ruim, minimamente relapsa ou desatenta, trazia a sensação de quase morte”. Marília era a filha exemplar que seguiu os passos — e também as frustrações — da mãe. Rita, por mais que tentasse, nunca conseguia agradá-la e deixar de ocupar o lugar de filha rejeitada. As duas crescem e constroem suas próprias famílias, mas agem de maneiras muito diferentes com os maridos e os filhos, revelando como os afetos, ou a falta deles, podem marcar gerações.
Ao acompanhar essas histórias, o romance evidencia como as expectativas sociais moldam não apenas as escolhas das mulheres, mas também suas formas de amar e de se relacionar. Maria Lúcia tenta corresponder ao modelo de mãe que lhe foi imposto; Marília procura repeti-lo; Rita luta para sobreviver às marcas deixadas por ele.
As relações familiares retratadas em Mesmo rio revelam o quanto é difícil romper com comportamentos que se repetem de geração em geração e como suas consequências podem marcar por muito tempo a vida de quem cresce à sombra deles.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

