Dia desses, tive a oportunidade de me deparar – e de provar – um modelo de sangria que não conhecia: a mistura de elementos que compõem a bebida ibérica, mas tendo o alicerce principal o vinho verde. Era inteirado da tradicional à base de tinto, já tinha ouvido falar ao apoio de branco, contudo, não havia sido informado dela à base do típico fermentado português. Suave, saborosamente agradável, repleta de frutas cítricas, a combinação fruiu como uma daquelas saudáveis misturas de água com gás e frutas que sobejam em jantares de casamento. A quantidade por mim apreciada só revelou sua real composição na indisposição do dia posterior: leve, se comparada com outras pós-experiências etílicas, porém, inicialmente surpreendente, pelo acreditar ter comedido os brindares.
Da vivência, além da já saudosa recordação dos sabores, fica a lição que se leva para a vida: água saborizada não é sangria de vinho verde.
Poderiam dizer que essa máxima não introduz nada que o verso popular “não confunda gato por lebre” já não tenha admoestado. Todavia, em defesa desse novo adágio, que insiro ao index de minhas normativas, acuso que, no caso do gato-por-lebre, o ditado não alerta sobre a traiçoeira distinção entre as substâncias de uma coisa e outra: ninguém vai passar mal por satisfazer o gosto por lebre tendo ingerido um desviado gato, mas terá indesejáveis consequências ao trocar o líquido universal pela bebida lusitana.
O princípio que aqui debuta nos acautela que a aparente candura de um ente não deve nos levar a desarmar as atenções e cuidados sobre sua potencialidade devastadora, fato que ocorre com a jarra do conjunto luso-castelão que se disfarça quão um inocente óxido de hidrogênio saborizado. Vejam, diferente da máxima popular “gato escaldado tem medo de água fria”, que, na prática, nos inclina a sucumbir ao temor, o preceito que aqui se inaugura não nos ínsita à repressão diante do já sabido como inseguro, mas nos lembra a termos o devido cuidado para não nos deixarmos levar por doçuras de potencial embriagante.
Inversamente, a máxima em questão nos aconselha para que não cheguemos com muita expectativa ao pote quando o que nos servem não é uma autêntica sangria de vinho verde, mas uma Crystal batizada com travosos abacaxis e maçãs. Adverti-nos a não nos conformar com um vaso qualquer de H2O (boiando acres ananases) se passando por uma boa mistura de maçãs das Astúrias mergulhadas no original líquido do Minho.
Sendo, agora, o imprevisto incômodo apenas a lembrança de um passado recente, somo o novo aforismo à minha meso moralia: aquela que não é aristotelicamente confiante que suas máximas sejam o norte certo ao bem supremo, mas que não é adornianamente cética que essas possam valer para o universo humano.
Por fim, dias depois, ao apresentar a um primeiro público o sopesar das minhas vivências, uma amiga paraibana me dá à luz: esse novo brocardo corrobora com o que a sabedoria do povo já havia, retoricamente, inquirido: você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água, não.
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