1. Ozzy Osbourne, um dos nomes fundamentais do rock internacional, morreu nesta semana, no dia 22 de julho. Numa coincidência de sincronia impressionante, menos de um mês antes, em 7 de julho, ele havia participado do show Back to Beginning, projetado para marcar a apresentação final de Ozzy como artista solo e como vocalista da banda Black Sabbath, com a qual ele fez história e ajudou a delinear os contornos do Heavy Metal a partir de 1968. Acho que isso dá um novo significado à expressão “show de despedida”.
2. Aliás, eu fui à apresentação do Sabbath em Porto Alegre em novembro de 2016, no Estacionamento da Fiergs, como parte da turnê The End, projetada para marcar as apresentações finais de Ozzy com os integrantes da formação original da banda Black Sabbath. Não, não foi um acidente de copia e cola. Em 2016, eu e mais algumas milhares de pessoas fomos assistir à “turnê de despedida” do Black Sabbath. Como comentou um amigo meu: dado que eles ainda estão fazendo show de despedida quase uma década depois, talvez a gente devesse considerar pedir nosso dinheiro de volta…
3. Na saída do show, eu e minha companheira escapamos, um pouco por sorte e um pouco por impaciência, de ser assaltados. Havíamos combinado encontro no show com os amigos jornalistas Marcelo Gonzatto, Marcelo Monteiro, Guilherme Becker e Bruno Felin, com os quais eu formara dois anos antes, uma banda cover de rock que acumulava alguns ensaios esporádicos e uma única apresentação pública, numa festa de fim de ano. Embora falássemos sempre em ensaiar com mais frequência, basicamente todo mundo ali meio que concordava que seria bom se mantivéssemos para sempre a mítica da banda não de um único sucesso, mas de apenas um show.
4. Formada no bar da redação de Zero Hora e composta em sua maioria por jornalistas, nossa mítica banda sem apresentações (talvez ainda seja, embora não tenhamos mais ensaiado desde a pandemia. Talvez estejamos levando o conceito um passo além, não uma banda que não se apresenta, mas uma que sequer ensaia, uma banda puramente conceitual) era chamada justamente de Black Jabbath. Detesto explicar piada, mas havendo a possibilidade de que uns três ou quatro dos meus oito leitores não sejam jornalistas, usamos para o trocadilho com o nome da banda Black Sabbath a expressão “jabá”, muito corrente na imprensa cultural para definir pagamento espúrio feito por gravadoras para que determinadas músicas toquem com frequência no rádio.
5. Sendo assim, uma jornada conjunta da “banda conceitual” para assistir ao show foi, para nós, inevitável. Marcamos encontro num posto de gasolina nas proximidades, mas lá dentro acabamos nos dispersando. Nos reencontramos depois e havia uma ideia de deriva pós-show para algum lugar – Monteiro sugeriu irmos tomar um café na casa da mãe dele, que era ali por perto. Todos topamos, com exceção do Gonzatto, que havia levado o filho e estava esperando carona da esposa, Débora. Monteiro, uma das pessoas mais simpáticas e gente boa que já conheci, gastou pelo menos mais 15 minutos cumprimentando gente e trocando impressões do show, como se fosse um candidato a vereador. Como eu não sou nem simpático nem gente boa, aquilo me cansou e eu dei tchau para todo mundo. Liguei para o Gonzatto para saber se ele já havia ido embora e fui informado de que, devido às condições impraticáveis do trânsito nas imediações, ele e o filho ainda aguardavam a chegada de Débora. Combinamos, então, de ir a pé até o posto em que eles esperavam, pegamos carona com a família e fomos comer no McDonald’s da Silva Só. Lá, recebemos uma ligação do Monteiro contando que, quando o grupo finalmente decidiu ir a pé até a mãe dele, foram assaltados por uma dupla de sujeitos.
6. Não tenho uma boa razão para ter contado essa história, a não ser que me lembrei dela com a morte de Ozzy. Não me considero superfã de ninguém, principalmente de artistas milionários que eu nunca conheci pessoalmente, mas admiro e acompanho a carreira do maluco, do príncipe das Trevas e qualquer outro epíteto que se pespegue nele a esta altura. Mas ele, o Sabbath e a música que eles ajudaram a delinear e a dar forma ocupam um lugar de especial relevância na minha memória afetiva, na minha formação estética, até mesmo no espírito algo teimoso, iconoclasta e talvez constrangedoramente juvenil que ainda identifico em mim, às vezes. Já escrevi aqui que tenho mais memórias associadas à leitura do que à música particularmente, mas revisando o acervo do passado para este texto, me dou conta de que Ozzy e o Sabbath estão em várias delas, prova do quanto eu os ouvi ao longo dos anos.
7. Acho que essa minha ligação menos próxima da música do que com a literatura tem a ver um pouco com condições financeiras e materiais. Todo lugar em que eu já morei tinha uma biblioteca em algum lugar. Já os discos, fossem os LPs fossem os nascentes CDs, não eram naquela época especificamente caros como hoje seriam os jogos de videogame, por exemplo. Mas o valor que se desembolsava para os aparelhos para escutá-los era proibitivo pra mim, então muito do que eu ouvia era escutado em fitas de camelô de qualidade duvidosa. Talvez por isso até hoje eu tenha uma prevenção inevitável com os “puristas do som” ou os “fetichistas do livro”, que reverenciam a potência das caixas de som, a sensibilidade cristalina de determinadas agulhas, o papel especial ao tato e a capa dura encadernada com couro de iaque tibetano como elementos que interferem na “fruição estética” de um livro ou som. Minha vida de leitor e ouvinte se construiu driblando dificuldades de acesso, então não tenho como não olhar para isso tudo e achar a mais rematada frescura.
8. Os mais jovens, aliás, que hoje navegam de braçada no mundo dos streamings, das plataformas de áudio e vídeo da internet, não saberão o que era esse tipo de escassez. Encontrar rádios específicas com uma programação em que você pudesse ouvir – e às vezes gravar – o tipo de música que curtia. Ali pela segunda metade dos anos 1990 e pelo início dos anos 2000, quando essa megaestrutura digital que hoje é tão natural como a luz e o ar ainda estava em consolidação, navegadores eram a coisa mais recente no mercado e não havia redes sociais. Foi nesse tempo que eu realmente me dediquei a finalmente completar com critério e paciência uma coleção dos artistas musicais de que eu mais gostava – algo em que fui muito ajudado pela Multisom, que fazia promoções irrecusáveis de CDs baratos em “balaios” (na verdade eram racks metálicos, mas vocês entenderam a analogia) na entrada de suas lojas. Foi assim que consegui, talvez a 10 pilas de preço, ir comprando a cada mês a discografia de Iron Maiden, Beatles, Stones, Rush, Megadeth, Judas Priest, Metallica entre muitos outros, incluindo, é claro, Sabbath e o Ozzy do período solo – com o qual tenho uma relação menos apaixonada, muito de seu trabalho solo é bastante irregular pela forma errática como o próprio Ozzy vivia na época, bebendo todas e cheirando em um fim de semana a produção de um ano do Cartel de Medellín.
9. Também errático, inevitavelmente, é este texto, no qual passeio por minhas memórias de uma música que me ajudou a ser quem sou. Não falei do Sabbath e de sua importância, e portanto da importância do próprio Ozzy para o gênero do Metal como um todo. Há muitos outros textos sobre isso, principalmente agora, na sequência da morte de Ozzy. Há até mesmo a própria biografia dele, Eu sou Ozzy, lançada em 2009, e que eu não poderia recomendar mais. Biografias – e principalmente autobiografias – são um gênero que considero capcioso. Talvez até pretensioso, dado que muitas vezes uma autobiografia é vendida como uma súmula da vida e do aprendizado de um “cidadão exemplar” que agora partilha seu “conhecimento” e as “lições” que a vida ofereceu. Não é à toa que a autobiografia é um dos terrenos mais férteis para coaches de superação ou de “mudança de vida”, essa gente da pior espécie. Uma biografia é um registro possível de determinados fatos por uma ou mais versões, obtido por meio de sinceridade ou apuração intensa, e a maioria das que se vendem no mercado não alcança a excelência nesse processo.
10. Assim, embora “biografia de ídolo pop” tenha se tornado uma vertente própria, a maioria é um exercício vazio de autocongraçamento, empacotando o artista para consumo do fã. Mesmo um cara conhecido por ser iconoclasta e transgressor, como Keith Richards, deixa transparecer essa necessidade de preservar um tom épico e heroico em sua autobiografia Uma vida (2010). O mesmo acontece com Coração Envenenado, de Dee Dee Ramone (1997). Assim, é uma experiência diversa ler a biografia de Ozzy pelo simples motivo de que ela se destaca, dentre todas as biografias de músicos que já li na vida, como uma das mais engraçadas já escritas.
11. Ozzy já começa o livro advertindo que, se alguém lembra do que ele está contando de modo diverso, é muito provável que tenha razão, dado o tanto de substâncias que ele usou na vida. Conta que, jovem operário em Birmingham, trabalhava em uma fábrica de autopeças responsável por jogar itens engraxados em um tanque cheio de detergente industrial fumegante – tóxico, claro. Ao descobrir que inalar os vapores daquela coisa o deixava mais doido do que cheirar cola, passou a frequentar a desengraxadora com tanta frequência que um dia foi encontrado desmaiado, caído ao lado do tanque. Teve sorte de cair pra fora, porque se tivesse mergulhado na piscina química, teria morrido. Também são hilários seus depoimentos sobre perrengues mil para achar drogas e depois para se livrar delas quando acha que a barra vai pesar.
Sendo uma biografia, Ozzy está se vendendo, claro. Mas, assim como na sua bizarra faceta de astro de reality show em The Osbournes, a imagem que se tenta construir é baseada em comédia e em autodepreciação, mais do que glamour. Se há uma “lição” a ser tirada de uma biografia, bom, essa não é das piores.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

