O segundo semestre do ano começou, metade do ano passou e com ele a metade que resta chega. Não pedindo passagem, mas atropelando tudo, com um sentimento de ansiedade e urgência que sabemos que nossa cultura capitalista e produtivista traz. Mais um tanto e vem a pergunta da Simone afirmando já ser Natal e querendo saber o que fizemos. Eu, que não sou muito afeita a crenças ou datas, percebo essa urgência no ar muito mais como um calendário íntimo que me convoca a usar as convenções de tempo criadas pelo homem como aliadas para que eu não pense que nada se termina.
A vida acaba e passa rápido. Especialmente quando, ao programar o plano de ensino de uma atividade acadêmica que leciono, fui acompanhando as semanas até o fim do semestre num desses calendários de mesa. Quando cheguei à última página, abriu-se uma nova, já sem nenhum mês, mas com duas colunas. Numa dizia, “no ano de 2025 eu alcancei…”, e na outra “no ano de 2026 eu pretendo…”. As linhas estão vazias e provavelmente assim permanecerão até que esse calendário vá para o lixo em janeiro do próximo ano.
Nas últimas semanas, a mistura de cansaço, estresse e excesso de trabalho, somado às oscilações de temperatura, levou-me ao encontro de uma gripe, em seguida tosse insistente e, na sequência, uma sinusite que trouxe bastante incômodo e desconforto. Otorrinolaringologista marcada, consulta realizada, e num procedimento aparentemente bastante comum, que em bom português nada mais é do que tirar o excesso de cera alojada no ouvido, ouvi a seguinte constatação por parte da médica: “É que tu tens o ouvido pequeno nesse lado esquerdo”. À medida que ela, cuidadosamente, ia retirando o excesso de cera, era como se um universo fosse se expandindo e um alívio no ouvido foi sentido imediatamente. A sensação era de “como eu estava escutando mal desse jeito e nem percebia?” Aliado a isso, fiquei intrigada com o meu ouvido pequeno, eu que vivo de escutar as pessoas e preciso desse instrumento o mais intacto possível. A passagem de som estava bastante obstruída e, quando ela terminou, parecia que agora era o outro ouvido que estava fechado. Então ela comentou que agora, dado a limpeza feita, abriu-se tanto a capacidade auditiva do ouvido limpo que o outro pareceria entupido, mas não estava. Agora, uns dias seriam necessários para que meu aparelho auditivo equalizasse o som e o ouvido direito entendesse que agora teria que se ajustar ao outro que passou a receber melhor o som.
Achei interessante pensar nessa inteligência fisiológica que nosso corpo tem de se autorregular e no quanto é irônico que eu tenha o ouvido pequeno e viva escutando tanto. Desde pequena, sempre atenta, olhos e ouvidos. Brinquei com a doutora, quando ela terminou o procedimento, que agora vou ouvir tudo, até o que eu não gostaria. Brincadeiras à parte, cuidemos de nossos ouvidos, de nossas cabeças e seus fluidos, suas escutas; sejamos seletivos, atentos. Saibamos buscar quem nos limpe, nos proteja, nos equalize. Na vida, na Medicina, nos amores e nas dores.
Porque, como eu disse lá em cima, metade do ano já passou e tudo parece estar correndo rápido demais. Naquelas duas listas do meu calendário de mesa, posso dizer com orgulho, já em agosto, que realizei um sonho na área profissional que tem me trazido imensa alegria. Não sei ainda o que pretendo para 2026. Parece longe demais, apesar de estar à espreita ali na esquina. Precisamos estar atentos, todos os sentidos vivos e presentes. Eu não quero mais perder nada do que me rodeia por falta de atenção.
Meu ouvido pode até ser pequeno, mas minha fome é gigante e eu agora enxergo tudo.
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