Sou de uma família de professores, algo que sempre me volta à mente em semanas como esta, na qual muita gente escrota que comemora quando professor toma borrachada de PM em manifestação se sente no direito de desejar Feliz Dia dos Professores. É uma data que, a cada ano, fica mais difícil celebrar, e minha homenagem numa semana como esta vinha sendo, nos últimos anos, sair arranjando treta em todo perfil de reaça escroto que resolveu transformar o magistério em “mal da nação”. Mas nem isso mais tenho saco pra fazer. Então, decidi fazer um texto no qual eu recupero a presença e o impacto de professores que tive ao longo da vida. Parabéns e força a todos os professores, vocês precisam mais do que nunca.
Vera – Pré-primário. A primeira professora da minha vida. Como eu tinha seis anos, não sei dizer qual era sua idade. Na minha lembrança de hoje, era jovem. Cabelos pretos, lábios escuros. Voz tranquila. Alegre. Rosto que eu me recordo de ser bonito, mas que, a uma distância de quatro décadas, percebo ser hoje indistinto. Me lembro, contudo, de suas letras “AA”, “QQ” e “OO” desenhadas no quadro em caligrafia cursiva, letras gordas e arredondadas que pareciam uma esfera de nuvens. A caligrafia das professoras dos anos iniciais (foram sempre professoras até um bom tempo escola adiante, agora que penso nisso) sempre me despertou a curiosidade, porque, por mais que eu me dedicasse nos antigos cadernos de caligrafia que minha geração ainda usou, e por mais que eu tenha desenvolvido uma letra até bonita e compreensível, nunca consegui reproduzir a mistura de precisão e delicadeza que emanava das letras das primeiras professoras, fosse no papel ou no quadro.
Irmão Ivo. Música e Coral – Tendo estudado no meu ensino fundamental em um colégio Marista, muitos dos meus professores foram “irmãos”, o mais peculiar deles este, nosso professor de música de idade indefinida, careca, magro, cotovelos ossudos, cabeça careca, nariz aquilino, como uma versão esticada do Geri, aquele velhinho que jogava xadrez contra ele mesmo em um curta antigo da Pixar. A diferença é que o Geri usa terno completo, e o irmão Ivo preferia camisas sociais de manga curta. Irmão Ivo tocava acordeão e era regente do Colta. Marcava os ritmos e andamentos não com as mãos, ocupadas em tocar a gaita, mas esticando uma das pernas para a frente e para trás, o que lhe dava ainda mais aparência de um boneco de marionetes ou de um personagem de desenho animado (não o da Pixar, estamos falando dos anos 1980 e o curta mencionado ainda nem existia). Cheguei a participar do coral por um ano, experiência transformadora em idade muito jovem, dado que viajávamos para apresentações e participações em festivais. Chegamos a gravar uma fita para venda no comércio local – esses tempos a encontrei numa gaveta, sem ter onde ouvi-la. A última vez que me lembro de a ter ouvido faz mais de 20 anos, quando eu ainda tinha um gravador portátil de fita cassete. Não achei que éramos bons. Irmão Ivo era engraçado e uma figuraça, mas claramente deixava a desejar como regente.
Carlos – Educação Física. Tinha um bigode de astro pornô dos anos 1980 e passava o tempo todo de óculos escuros estilo aviador. Talvez tenha sido um dos professores que mais angústia me provocaram ao longo dos meus anos de ensino fundamental. Eu não era bom em educação física, eu odiava polichinelos e correr em volta do campo de futebol, até porque era uma época de bullying pesado e eu terminava aquela aula, último período do dia, cansado demais para correr depois dos valentões que me batiam meio que uma vez por semana. Como ele também era um daqueles machões à moda antiga, sua tolerância ao bullying em geral meio que me dificultava a vida. Felizmente, em um momento posterior, passei para a turma do professor Fuad, de quem obtive autorização para simplesmente não ir e apresentar trabalhos escritos quinzenais. Foi uma melhoria, embora não uma vitória; eu estava me recolhendo, não me adaptando. Até que, no último ano do que chamávamos de 1º grau, tive aula com…
Caio – Educação Física. Foi o professor com quem as aulas de EF realmente se tornaram toleráveis – porque ele dava muito pouca aula de fato. De modo geral, a cada período ele simplesmente mandava os alunos escolherem times, atirava uma bola de futebol e então passávamos a aula jogando. Eu era um desastre em termos atléticos, como já admitido no tópico anterior, então, na hora da escolha do time, ficava sempre como o último a ser escolhido e era então mandado para o gol, onde se achava que eu prejudicaria menos o time. O interessante é que eu me revelei bom naquilo, eu era um bom goleiro, só não havia tido ainda a oportunidade de demonstrar. Odeio ter que dar o braço a torcer nesse tópico, mas jogar toda semana no gol facilitou de modo surpreendente a minha socialização com meus pares.
Irmão Aloísio – Geografia. Outro dos maristas do colégio. Falava com o sotaque típico arrastado e calmo dos padres e irmãos em geral – fico pensando se eles têm cadeira disso nos seminários. Era um bom professor, pelo que me lembro. Seus métodos consistiam em repassar os continentes, elegendo por sorteio países sobre os quais teríamos que pesquisar e apresentar trabalhos uns para os outros. Essa parte eu gostava bastante, mas tive um certo problema quando chegamos à Europa. Irmão Aloísio talvez fosse o único professor de geografia no planeta que fazia ainda questão de incluir em suas aulas a existência de um “reino independente” no território da Itália chamado Tavolara, que ele definia como o menor país do planeta. Chegou a época de fazer os trabalhos, minha sorte proverbial me fez, obviamente, pegar para apresentação uma dupla de países pequenos: “Mônaco e Tavolara”. Estou falando de 1986, por aí, não havia internet, não havia redes sociais, não havia ainda nem TV a cabo, e a biblioteca do colégio não tinha quase nada sobre esse maldito país semifictício, algo que argumentei com o professor para ver se podia fazer trabalho sobre alguma outra coisa. O irmão, no dia seguinte, me trouxe um suplemento de um jornal amarelado publicado no início dos anos 1970 com uma reportagem sobre Tavolara para servir de base para a minha pesquisa. Quatro páginas de jornal que ele todos os anos emprestava para o desafortunado que tinha o azar de pegar aquele trabalho para fazer. Se você é a única fonte de um trabalho que você manda os outros pesquisarem, talvez fosse o caso de diminuir a importância disso, era o que eu achava, mas me forneceu uma bela história para contar em festas…
Lígia. Era a diretora do colégio para o qual eu me transferi no segundo grau (Escola XV de Novembro, na foto que ilustra este texto). Era o tipo da falsa autoritária, porque, nos primeiros contatos, morríamos de medo de sua cara fechada e de sua voz alta e rascante (não sei dizer se ela fumava, então não escrevo “voz de fumante”, mas parecia). À medida que transcorriam os trimestres, contudo, você percebia uma disposição afetuosa, ao estilo “mãezona”.
Totonho – Biologia. Era um dos únicos professores barbudos no colégio: uma barba cheia, senatorial, castanha, mais clara que os cabelos escuros — corria o boato nos corredores de que ele clareava a barba com marcela. Tive colegas que, ao conversarem mais perto para receberem orientações sobre trabalhos entregues, juravam que tinham sentido o cheiro da marcela (chá, ou extrato, que seja) emanando de sua vasta pelagem facial, mas eu nunca senti nada, então não sei. Era um professor tranquilo, com um ar distraído. Também lecionava física e matemática para outras turmas, e dizem que era muito bom em ambos, o que só me faz lamentar que eu tenha tido essas aulas com outros professores e não tivesse aprendido muita coisa. Era irmão do Caio, o já mencionado professor de Educação Física que nos deixava o dia inteiro jogando bola, mostrando que um certo ar descansado e tranquilo era meio que de família.
Olívio – História. Além de ter aulas com irmãos maristas praticantes no Ensino Fundamental, no Ensino Médio meu professor de História foi um ex-padre que havia deixado o sacerdócio e havia se tornado um atuante militante de esquerda. Durante o famoso episódio da degola do Policial Militar na Praça da Matriz, em 1990, nós tínhamos aulas de história com ele e de química com uma professora de origem italiana chamada Geni. Eu era filho de um homem com atuação política, então sabia muito sobre como visões de mundo se chocavam em momentos críticos. Mas ali foi a primeira vez que testemunhei esse tipo de desacordo in loco. No dia seguinte ao episódio, uma quinta-feira de agosto, Olívio discorreu sobre como a ação repressiva da PM estava na origem do conflito que resultou na morte — algo que estudos históricos posteriores comprovam, enquanto Geni passou a aula toda batendo na tecla de que chamar os Sem-Terra de “colonos”, denominação comum na época, era ofensivo aos reais colonos, como os antepassados dela, que trabalhavam de modo estafante na lavoura em vez de “fazer arruaça”. Não acho que haja espaço para a demonização de um só lado, que hoje é tão moda. Tanto Olívio quanto Geni eram boas pessoas (ele era melhor professor do que ela, pelas lembranças que tenho), embora tivessem visões irreconciliáveis.
Os dois romanos – tive dois professores que, numa demonstração de um espírito que se perdeu no tempo, tinham nomes de grandes personagens romanos. Como aqui minhas memórias pretendem ser carinhosas e estes dois, especificamente, embora tenham rendido histórias interessantes, não figuram de forma lisonjeira nos causos, decidi preservar suas identidades. O primeiro “romano” era um professor de química turbulento, casca-grossa e um tanto irascível. Perdia a paciência em explosões de fúria nas quais nos chamava de “abostado” e “animal”. Jogava o apagador no chão e giz em nossas cabeças. Imagino que hoje teria problemas disciplinares a rodo. Mas naquela época a aliança entre escola e família era mais forte e, a menos que ele sentasse a mão na nossa cara, o que nunca fez, imagino que nem nossos pais tomariam nosso lado numa possível reclamação (nem acho isso ruim, na verdade). O divórcio entre família e escola está na base de um caos ainda mais profundo na educação contemporânea. Eu até perdoaria seu destempero se eu tivesse aprendido alguma química com ele, o que não foi o caso. O segundo “romano” era um professor de geografia muito divertido e conversador, cheio de causos e histórias, uma figuraça de quem todos gostávamos, até que chegou a fase das intervenções do governo Alceu Collares e ele, vinculado ao PDT local, foi cotado como interventor do colégio. Como costuma acontecer nesses casos, alguém descobriu que ele nunca havia encaminhado um determinado registro que deveria ter feito lá no início da carreira e ele terminou no fim não como diretor/interventor, mas afastado da escola.
Tecnicamente, haveria espaço para mais gente. Janice, Carmem Helena, Alcir, Renita, Adilson. Talvez houvesse ainda espaço para mestres que encontrei na faculdade e que fizeram muita diferença na forma como vejo o mundo e a profissão, como Canali, Rudiger, Fischer, Gerbase, Tavares, Pablo, Aldanei ou Nair. Ou, em cursos, “póses” e o cacete, Bete, Sergius, Tatata, Homero, Sanseverino, Regina, Maria da Glória, Jane, Ana.
Mas esta é só uma crônica, que padece de um certo memorialismo lírico talvez inadequado. Outros exemplos só a espichariam sem a melhorar. Fica apenas renovado aqui meu tributo aos professores, de antes e de agora. Precisamos deles justamente no pior momento para o exercício da profissão. Espero que perseverem na carreira, que é das mais necessárias para a formação de qualquer sociedade. Mas nesta sociedade, com a configuração política e social que ela apresenta nestes tempos em que a extrema-direita se consolidou como facção eleitoral viável, o que eu talvez mais desejasse a todos os professores ainda na ativa fosse uma rota de fuga que os levasse para outros ofícios menos sofridos.
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

