Por mais que, através da sua arte, os poetas anseiem a imortalidade, eu sou um poeta bem morrível. É como disse o Ferreira Gullar, um imorrível, para outro poeta morrível como eu: – Sei que o teu texto é bom, porque disso eu entendo. Era um texto bom, mas não eterno.
Eu também entendo disso. Então, sei que não sou imortal. E sei o suficiente para saber que não tenho o fôlego de um Dante ou de um Milton, nem os arroubos formais de um Cummings ou de um Eliot, tampouco a profundidade temática de um Keats ou de um Coleridge. Todos eles erigiram uma forma provavelmente capaz de resistir aos conteúdos do tempo, conforme vem sobrevivendo há tanto tempo.
A meu favor, minha poesia mortal é cem por cento minha. Ok, tem um Drummond num verso aqui, um Bandeira numa imagem ali, um Quintana num humor acolá, sem contar as influências angustiantes, conforme Bloom, dos citados no parágrafo anterior. Mas são meras identificações necessárias e diluídas na trama da minha própria identidade como um filho com pai, mãe, amigos, professor, padrinhos. Ninguém se forja sozinho.
Não é imitação. No começo, sim, eu imitava o Drummond, o Quintana, o Bandeira e, principalmente, o João Cabral (foto da capa). Cheguei a ser chamado de cabralino por um crítico de olho na minha morte. Era normal, como no começo, um filho imita mãe, pai, amigos, professor, padrinhos. Mas, no meu caso, foi só no começo. Tão logo construí meu arcabouço e certa desenvoltura para dizer o que sentia, eu nunca mais imitei. A meu favor, na poesia, sou eu mesmo. Ela é o meu pátio livre, como era o instrumento musical para Zorba, o grego.
Só eu mesmo passei por um casal de carroceiros, na manhã terrivelmente quente. Eles me deram bom dia e me fizeram pensar no mau humor de uma vizinha reclamando da vaga na garagem. Aquilo me deu um mal-estar acompanhado do desejo de me expressar, através de um poema, que rascunhei ali na hora, depois retomei e revisei. Só eu poderia escrever aquele poema. Ninguém mais poderia tê-lo feito em meu lugar. Nem o Keats. Nem o Coleridge. Nem o Quintana. Nem o Cabral. Ponto para mim, enquanto vivo.
Enfim, tornei-me o maior e mais verdadeiro poeta de mim mesmo. Bom, ruim, mais ou menos como na maioria das vezes, sou eu mesmo. E, como a poesia é uma arte a serviço da vida – caso contrário, seria anódina e dispensável -, o poeta que eu sou evoca a criança que, depois de muita influência e identificação, conseguiu ser ela mesma.
Morrível? Sim, como qualquer um que viveu sem haver esgarçado a sua arte até o milagre da nota absoluta. Mas, tendo chegado a si mesma, conseguiu alcançar um punhado de beleza. E, conforme outro poeta nada morrível, um punhado de beleza é um tesouro para sempre.
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Foto da Capa: João Cabral de Melo Neto / Reprodução de Redes Sociais

