Foi sempre tão bonito escutar Dalva de Oliveira cantando que quem mora no morro já vive pertinho do céu. Não é à toa, pois, que a cada 8 de dezembro, de cada ano, nós, recifenses e devotos oriundos de lugares diversos, subimos o morro. Nosso Morro da Conceição. É a festa da padroeira afetiva de nossa cidade, um feriado religioso muito bem celebrado.
Explica-se: em 1904, para comemorar o cinquentenário do Dogma da Imaculada Conceição, instituído em 1854 pelo papa Pio IX, foi decretado esse feriado. Para lembrar, a cidade recebeu a imagem da Imaculada Conceição trazida da França. Até o dia 7 daquele ano, o morro era chamado de Outeiro da Bela Vista; a partir da inauguração da imagem, no dia 8, passou a ser denominado Morro da Conceição.
A imagem mede 3,5 metros de altura e pesa 1840 quilos. Representa Maria Santíssima, toda vestida de branco e envolvida em um manto azul, mostrando-a de pé sobre o globo terrestre, com uma coroa dourada, com as mãos unidas em oração e uma cobra sendo esmagada sob os pés.
Na verdade, o Morro é um território de intensa pluralidade religiosa. Suas ruas, becos e vielas abarcam denominações religiosas católicas, de matriz africana e de protestantismo/evangélicas. Como as demais áreas periféricas do nosso rico Brasil, o Morro apresenta grande índice de vulnerabilidade social, com fortes e lamentáveis indicadores de pobreza, desemprego e baixos salários. No que tange à educação e à saúde, os desafios são enormes. Historicamente, ressaltemos, a saúde na comunidade mantém raízes fortes em movimentos de educação popular pela saúde, com a participação ativa de líderes comunitários e religiosos, o que demonstra uma mobilização social antiga em prol do bem-estar local.
Quanto à realidade cultural do Morro da Conceição, é vibrante e complexa, enraizada em uma forte identidade religiosa e de resistência negra, que se manifesta através de tradições seculares e movimentos sociais. Além da religião, o Morro é reconhecido como um território de (re)existência da cultura negra na cidade, com discussões sobre sua identidade como um quilombo urbano. É uma herança que se reflete nos movimentos sociais e na força da comunidade local.
De verdade, como na canção, acompanhar a romaria de tanta gente diversa e simples na festa que mistura esperança e gratidão, encontro de pessoas, comércio de artigos religiosos gerando uma pequena renda para os locais, é chegar pertinho do céu. Sim, lá não se registra “Felicidade de arranha-céu”. Ao contrário, está isolado por portentosos edifícios que escondem sua geografia acidentadíssima e seus “bangalôs” precários. Do Morro, é possível vislumbrar a opulência dos que jogam diuturnamente no lixo a comida que falta na mesa de seus moradores.
Não há negar: a prece jogada no colo da Imaculada não esconde o grito de mulheres e homens que bem poderiam viver livres das máculas que a ganância do ter e do poder espalham com as areias do mar que aumentam a cada dia. A massa gigantesca de transeuntes em direção ao templo mariano não deixa de esconder uma quantidade sofrida de meninas absurdamente sexualizadas, de meninos desfigurados pela pobreza, de cenários sombrios.
Recordo haver escutado de Dom Hélder que, após pouco tempo de sua posse como Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, após um nefasto evento (se a memória não me falha, um roubo na Igreja), subiu o Morro para celebrar uma Missa em desagravo. Desafortunadamente, eis que meliantes, no afã de uma fuga mais aligeirada, jogaram as hóstias consagradas furtadas dentro do córrego imundo que ladeava o morro “santo”. O Dom (como a população carinhosamente o tratava) revelou-nos que, enquanto caminhava passo a passo em direção à Igreja, viu, com muito pesar, uma multidão de crianças bebendo água e tomando banho naquela água imunda. Na homilia proferida, recordou aqueles pequenos e empobrecidos filhos e filhas de Deus jogados à deriva numa miséria sem fim.
Retomando o dogma da Imaculada Conceição, em sua recente Nota Doutrinal, o Papa Leão XIV assim exprimiu-se: “O dogma da Imaculada Conceição destaca a primazia e a unicidade de Cristo na Redenção, porque também a primeira dos redimidos é redimida por Cristo e transformada pelo Espírito, antes de qualquer possibilidade de uma ação própria. É a partir desta especial condição de primeira redimida por Cristo, de primeira transformada pelo Espírito Santo, que Maria pode cooperar mais intensa e profundamente com Cristo e com o Espírito, convertendo-se em protótipo, modelo e exemplo do que Deus quis realizar em cada pessoa redimida” (2025:14). Fico a meditar que Maria, como modelo daquilo que Deus quis e quer realizar em nós, certamente nos convoca a partilhar o pão em todas as suas dimensões, qual uma mãe pobre, de um povo pobre, a acompanhar seus passos de resistência e libertação.
Como vamos pensar as festanças marianas no Morro da Conceição? Como mais um evento religioso? Como uma celebração bacana quando a gente ganha um feriado e pode subir ao pitoresco morro numa das mais tradicionais festas religiosas do Brasil? Uma vez mais: o que se esconde atrás do fato?
O morro continua, convém destacar, sendo o Morro. Entra ano, sai ano e nada melhor ocorre. Políticas governamentais, sempre bastante pontuais, tentam minorar o sofrimento e a dor, contudo não atacam as causas. Olham para o sofrimento, porém não enxergam o sofredor que se esvai na sua lida, sua batalha, sua via crucis. Por que o Morro não pode ser Vivo? Por que o ancião e o enfermo precisam vencer vias tão íngremes, escadarias tão grandes, vielas tão estreitas? E por que o espírito empreendedor de sua gente, o negócio com a gastronomia, não recebe os mesmos incentivos dos que usufruem cá embaixo uma vida de mais possibilidades?
Façamos eco à voz de Reginaldo Veloso, que exaltou a Mãe Maria, cantando: “Ó portadora do Sol e da justiça. Cantora insigne da libertação. Teu manto azul abriga os oprimidos. Que hoje se alegram em tua Conceição”.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Subida para o Morro da Conceição / Comunicação Prefeitura do Recife

