Cazuza completaria 67 anos em 4 de abril de 2025, mas infelizmente faleceu aos 32 anos em 7 de julho de 1990, vítima da AIDS, que hoje é tratável graças aos medicamentos descobertos e ao acesso gratuito que o programa do SUS oferece a todos que possuem o vírus HIV.
Leila Diniz completaria 80 anos em 2025, pois nasceu em 25 de março de 1945, porém a atriz, representante de uma liberdade feminina sem medo, que a Ditadura tentou amordaçar, faleceu em 14 de junho de 1972, aos 27 anos, em um acidente de avião.
Ângela Diniz teria 74 anos, mas foi assassinada em 30 de dezembro de 1976, aos 30 anos, por seu então companheiro Doca Street, em razão de ser mulher e querer ser dona de seu próprio corpo e caminho. A partir do julgamento de seu assassino, foi inaugurado no Brasil uma nova fase do movimento feminista.
Renato Russo teria 65 anos hoje. Nascido em 27 de março de 1960, o vocalista da Legião Urbana faleceu em 11 de outubro de 1996, aos 36 anos. Com sua voz, perguntava que país era esse e questionava o que a geração Coca-Cola faria a respeito.
Eles se foram jovens, por diferentes motivos. Não tiveram a oportunidade de envelhecer. Fico imaginando como seriam se hoje estivessem vivos. Fantasio que estariam cheios de vitalidade, ainda inspirando muitos com suas vozes, seus exemplos, a experiência que teriam acumulado até aqui. Mas morreram. Se foram. Nunca saberemos.
E quanto a nós? Se você me lê é porque está vivo. Está disposto a envelhecer? No Brasil, as pessoas tem vergonha de envelhecer. Aliás, porque em vez de dizermos que uma criança ou adolescente ou jovem “está crescendo” a gente não substitui por “está envelhecendo”? Talvez assim a gente comece a compreender esse processo e a perder a vergonha de estar velho ou velha. Fazer parte do “Movimento Ser Velho/a Sem Vergonha”, uma iniciativa criada pela antropóloga Mirian Goldenberg, é celebrar a liberdade e a autonomia ao envelhecer, combatendo o preconceito e os estigmas associados à velhice . Sem vergonha de ser feliz, de ser alegre, viajante, dançante, vibrante, sexy, rebelde, atuante, estudante, ativista, trabalhador, aposentado, qualquer coisa que queira ser. Afinal, ser velho/a é ser gente. Vamos parar com essa bobagem de rotular a velhice?
Foi divulgado pelo IBGE que o país aumentou sua expectativa de vida. Agora é de 76,6 anos, no geral. Para homens e mulheres, continua sendo maior para elas. Homens, 73,3 anos, e mulheres, 79,9 anos. Nessa diferença estão embutidas várias razões, que você pode entender melhor clicando nesse texto que produzi anteriormente para Sler “Mulheres Vivem Mais, Homens Vivem Melhor”.
Em 1940, uma pessoa que chegasse aos 60 anos de idade viveria, em média, mais 13,2 anos, sendo mais 11,6 anos para os homens e mais 14,5 anos para as mulheres. Já em 2024, a população do país que chega aos 60 anos de idade vive, em média mais 22,6 anos, sendo mais 20,8 anos para homens e mais 24,2 anos para as mulheres. O que fazer com esse tempo?
Mas viver mais é viver melhor?
Em uma pesquisa online e divulgada no Jornal Valor Econômico nessa terça-feira, 02/12, feita pela agência de inteligência de dados PontoMAP, com a parceria da empresa V-Tracker, os 50+ afirmam se sentir bem e produtivos, mas que tem que se “virar nos 50”, pois sentem o etarismo na pele. Na percepção deste grupo, o mérito deles se sentirem bem consigo mesmos é deles próprios, visto que a sociedade como um todo, empresas e governos incluídos, carregam julgamentos automáticos sobre a idade, como se ela limitasse a capacidade das pessoas.
Na semana passada, o canal do YouTube “O Que Rola na Geronto” entrevistou a economista Janaina Feijó, pesquisadora do núcleo de mercado de trabalho e produtividade do FGV IBRE e professora na graduação da Escola de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV EPGE). Janaina realizou estudo, mostrando que o número de brasileiros com mais de 60 anos ocupados no mercado de trabalho cresceu quase 70% nos últimos 12 anos. No entanto, conforme o estudo estes profissionais continuam no mercado de trabalho por dois motivos, basicamente: desejo e necessidade. A maioria, por necessidade, para pagar suas contas porque a aposentadoria não é suficiente para bancar suas despesas.
Esses profissionais, em grande parte estão alocados no setor de serviços, em especial nas áreas de varejo e supermercados. Mas, quanto mais se sobe na pirâmide salarial e hierárquica, mais identifica-se o etarismo na contratação do profissional, segundo a pesquisadora, o que faz com que nesses cargos existam menos pessoas 60+, proporcionalmente.
Destes que retornam ao mercado de trabalho, um outro dado importante a ser observado é o de que a maioria daquelas pessoas 60+ que atuam em atividades CLT com cargas horárias fixas mais rígidas são homens, na proporção de 44% para eles e 23% para mulheres (dados de SP). Para a mulher mais velha poder viabilizar os cuidados com netos para filhos poderem ir trabalhar, familiares adoecidos (pais, sogros ou maridos), com a casa, entre outras demandas que são trabalho, porém não contabilizados como tal e muito menos remunerados, ela acaba indo atuar no mercado informal, precarizado, ficando mais fragilizada e vulnerabilizada. Isso revela a forte intersecção do etarismo com o sexismo.
Outro aspecto apontado é o de que as pessoas com mais idade e de menor renda sentem mais a inflação do que as demais, pois o conjunto de seus gastos são mais influenciados por ela, como aluguel, alimentação, medicação.
E o futuro? Tem uma notícia boa e outra ruim. Qual você quer primeiro?
Primeiro a ruim, mas que todo mundo já adivinha: teremos a necessidade de fazer outras reformas previdenciárias. Assim, nossos filhos e netos (talvez nós) viveremos para ter que contribuir por mais tempo para a previdência e por mais tempo. Qual o problema disso? Para você e para mim, talvez isso não tenha um reflexo muito grande porque somos saudáveis e temos vitalidade, somos privilegiados. Porém, num Brasil heterogêneo, onde precisamos falar de “velhices”, isso pode representar injustiças.
A seguir a boa notícia: Com o crescente aumento da população mais velha, já existe hoje no país mais pessoas 70+ do que com menos de cinco anos, será inevitável que a sociedade como um todo revise seus conceitos etaristas. Ela não terá saída. As oportunidades de trabalho vão acontecer.
Para usufruir desta boa notícia, é preciso estar firme e forte. Cuidar-se, manter-se com energia, tomar cuidados para que a longevidade conquistada seja saudável e ativa. Dezembro abriu suas portas e 2026 está chegando, quem sabe um dos seus propósitos para o Ano Novo possa ser o de fazer parte do “Movimento Ser Velho/a Sem Vergonha”?
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

