“Mudaria o Natal ou mudei eu” é o “fecho de ouro” de um magnífico soneto de Machado de Assis intitulado Soneto de Natal. Bem ao modo do grande Bruxo, o poema é um soneto e fala de Natal, mas não é, como o título poderia dar a entender, uma canção sentimental ou saudosa sobre a festa, e sim uma abordagem melancólica de como a passagem do tempo empana o brilho mesmo das recordações mais doces. É um soneto não para cantar o Natal, mas para lamentar a impossibilidade de a arte expressar por inteiro o que foi vivido de modo arrebatador em um passado colorido pela memória e pela nostalgia:
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?“
É lindo, mas, sem querer me fazer de mais esperto que o Bruxo, ao reler esse soneto para este texto percebi que a grande verdade observada nestas cinco décadas que vivi nesta quadra triste do capitalismo tardio é que mudou o Natal e mudei eu.
Melancolia
Em algumas coisas, claro, o Natal não mudou. Parece haver uma certa patologia pesada associada a essa festa, da arte à psicologia. Não são poucas as iniciativas todos os anos para tentar pôr em ação programas de saúde mental destinados a diminuir o sofrimento psíquico que acomete milhares com a chegada das festas de fim de ano. Imagino que tenha aí também uma certa melancolia que vem com o fato de que o fim de mais um período de 12 meses leve a pensamentos tristes a respeito de projetos não realizados ou à sombria constatação de que o ano a mais que você está comemorando pode ser também contado como um ano a menos dentre os que te restam. Mas a proximidade do Natal potencializa essa melancolia a ponto de serviços sociais e de saúde no mundo todo terem que reconhecer este período como um gatilho perigoso – muitas pessoas veem a tristeza do período como tão intolerável que tomam atitudes extremas, inclusive aquelas que vocês estão pensando.
Um parêntese. É curioso pensar que essas duas datas com tal proximidade, Ano Novo e Natal tenham origens quase simultâneas. A demarcação do início do ano em janeiro não foi uma norma ao longo de boa parte da história romana, e só passou a valer mesmo com a reforma do calendário imposta por Júlio César a partir de 46 antes da Era Comum. Antes disso, comemorava-se o início de um novo ano em março, o mês dedicado a Marte – Janeiro foi estabelecido como o “mês da virada” em homenagem a Jano, um deus romano de duas cabeças – assim, uma delas voltava-se simbolicamente para o ano que se iniciava e outra para o período que se encerrava. Ou seja, quando Jesus em tese nasceu, janeiro era o primeiro mês do ano há menos de meio século. Fim do parêntese.
Outro fator relevante é a memória. O Natal é uma data marcada por lembranças vinculadas para muitos à infância, a momentos familiares e até mesmo a celebrações de fé comum. Essa dimensão nostálgica deixa de ser reconfortante para se tornar dolorosa quando confrontada com ausências definitivas ou mudanças irreversíveis produzidas pela passagem do tempo – o tema mesmo do soneto de Machado citado no início deste texto.
Olhando com o ponto de vista contemporâneo, parece exótico que a festa que, na mitologia cristã, marca o nascimento do suposto salvador, seja tão carregada de melancolia enquanto a Páscoa, que sinaliza seu suposto massacre nas mãos do Império Romano tenha um tom menos depressivo e até mesmo alegre.
Mas, claro, sendo o Cristianismo uma espécie de sucursal raiz do mundo invertido, é possível enxergar a lógica da coisa pelo ponto de vista contrário. No Natal, nasce o cordeiro. Aquele que será sacrificado, então há gravitas, um certo páthos nesse nascimento, humilde, no coxo dos animais, realizado, segundo a narrativa mítica, durante uma viagem forçada. Já na Páscoa, embora o cordeiro seja imolado, o encerramento da história com o toque sobrenatural da ressurreição dá à narrativa um certo “final feliz”.
Arte ambígua
Em termos artísticos, parece haver uma inescapável associação entre Natal e sentimentalismo – venha ele na forma de otimismo ou de pessimismo. Talvez a obra que tenha fundado esse estado de coisas seja o onipresente Conto de Natal, de Charles Dickens, de 1843 (publicado quando seu autor tinha ainda menos de 30 anos, acho importante ressaltar essa informação, dado que um dos temas centrais do conto é velhice e arrependimento). Dickens nunca foi um autor de se avexar quando o assunto é sentimentalismo, mas o que impressiona aqui é como esse recurso é explorado em um enxuto conto, e não nas extensas narrativas que tornaram Dickens um clássico, como Oliver Twist ou Grandes Esperanças.
Em Um Conto de Natal, o sovina Ebenezer Scrooge é visitado na noite de Natal primeiro por seu sócio morto, vivendo um pós-vida acorrentado e atormentado, e depois por três fantasmas que documentam a deterioração moral de seu caráter, de um jovem idealista a um capitalista acumulador inescrupuloso, projetando ainda o seu futuro vazio e solitário a caminho da cova. Transformado pela experiência, Scrooge paga uma ceia de Natal para seu empregado explorado e o conto termina como se estivesse tudo bem – o que mostra os limites constrangedores de uma real mudança social quando vista pelas lentes burguesas.
Aliás, mais ou menos na mesma época em que Dickens publicou o seu conto de Natal, o dinamarquês Hans Christian Andersen criou outro clássico das festas de fim de ano: A Vendedora de Fósforos. Mandada para a rua para vender fósforos e aterrorizada de voltar para a casa sem ter conseguido vender nada, dado que tem um pai abusivo e violento, uma menina pobre, descalça e mal abrigada em uma noite de nevasca, tenta inutilmente se aquecer queimando os fósforos que ninguém comprou, tendo a cada novo fósforo queimado uma alucinação na qual vê sua falecida avó, que lhe tratava bem e contava histórias sobre almas no paraíso. Quando o último fósforo queima, a garota morre congelada. É outro conto de sentimentalismo desbragado, mas a única redenção possível oferecida aqui para aqueles que não têm nada, ao contrário da mudança de consciência dos ricos, como em Dickens, é a afirmação de uma inocência que garantirá recompensas pós-vida – no fim, a avó morta leva a alma da menina ao Paraíso.
Outro clássico do período é o também sentimental – mas, ao contrário da sinceridade desconcertante de Dickens e Andersen, também dramaticamente irônico – O Presente de Natal, de O. Henry (que em inglês chama-se The Gift of the Magi, ou “O Presente dos Reis Magos”). James e Delia, jovem casal em dificuldades, fazem, cada qual por seu turno, um sacrifício para dar ao outro um presente significativo que se torna inútil de imediato. James vende o bem mais precioso que possui, um relógio, para comprar pentes para ornamentar a linda cabeleira de sua esposa. Mas Delia, sem que o marido soubesse, mais cedo cortou e vendeu sua cabeleira para uma fabricante de perucas. Com o dinheiro, comprou uma corrente metálica para o relógio que James não tem mais.
É uma história com um claro fundo moralista e que flagra uma discussão que tendemos a considerar contemporânea mas claramente é tão antiga quanto a ascensão do Capitalismo: a tensão entre o Natal como um momento de troca de presentes – e, portanto, de celebração do consumo em nossa sociedade idem – e dos supostos “valores” que a data deveria representar. Em tese, seriam os valores cristãos, mas eu hoje tenho alguma dificuldade em saber de quais valores cristãos estamos falando, se de uma caridade universal voltada inclusive aos elementos mais desviantes de nossa sociedade, como professado pelo agora censurado e transferido padre Júlio Lancelotti, ou se a retórica inflamada e carregada de bile, ódio, punição e fúria representada por Malafaias mil espalhados pelo Brasil. O conto de O. Henry vê essa dicotomia de modo surpreendentemente sutil ao fazer um link direto no título com a cena dos magos presenteando Cristo. É um detalhe significativo que se perde na tradução – o hábito dos presentes tem um papel tão arraigado na história da fé cristã porque nasceu literalmente com o próprio Cristo e está registrado na Bíblia. O verdadeiro presente, encerra a moral da narrativa, é o amor que fez cada um dos cônjuges abrir mão do que lhe era mais caro em benefício do outro. Fica na narrativa a sugestão de que deveriam se amparar nisso no futuro – embora, sendo meio cínico aqui, o marido saiu perdendo, porque cabelo uma hora cresce de novo…
Material x espiritual
Dar exemplos além disso é meio que inútil porque serão incontáveis, mas revirem vocês mesmos na cabeça as canções e os filmes – que se disseminam ao longo do século XX na esteira das novas tecnologias de fixação do som em disco e da possibilidade de cristalizar imagens em celuloide – dedicados ao Natal. Talvez pela necessidade de lidar com esses dois impulsos, o consumismo e o pietismo religioso, são em sua maioria peças ambíguas, que escondem a alegria na tristeza e a melancolia na graça. Apontam para algo que a essa altura todo mundo deveria saber – a alegoria de Papai Noel de crianças boas recebendo presentes versus crianças malcriadas sem nada é, na verdade, uma forma de atar moralmente a posse material ao caráter. Como diz a sensacional Philomena Cunk, personagem de falsos documentários satíricos criada pelo roteirista Charlie Brooker e vivida com magistral inexpressividade (é um elogio) pela atriz Diane Morgan, no Natal, “as crianças boazinhas ganham muitos presentes. E as malcriadas também. Na verdade, as únicas que não ganham muita coisa são as crianças pobres. Isso porque o Papai Noel avalia a bondade de uma criança principalmente com base na renda de seus pais.”
Se você fala em inglês, o especial específico de Cunk sobre o Natal pode ser assistido aqui.
Claude Lévi-Strauss faz uma análise de outra frente dessa batalha entre materialismo e espiritualismo em seu ensaio O Suplício do Papai Noel, que parte de um episódio hoje esquecido, no qual fiéis católicos na França realizaram, em 1952, na catedral de Dijon, um linchamento simbólico do Papai Noel (um boneco do personagem foi enforcado nas grades da catedral, depois queimado). Para os manifestantes, o Papai Noel devia ser massacrado por representar um vilão materialista usurpando o verdadeiro protagonismo do Natal, que deveria ser do mitológico Jesus Cristo.
Sou fascinado por esse ensaio em particular porque ele documenta, guardadas as devidas diferenças, um momento similar ao que vivemos agora. A posição da Igreja contra o Papai Noel criou um divórcio profundo na opinião pública entre os religiosos radicais os demais, com os “progressistas” de seu tempo aliando-se, veja só, aos que defendiam um personagem que representava, no fim, o impulso consumista que já era alvo de crítica na sociedade francesa do período:
“Embora seja um episódio mínimo, o fato é importante, pois, desde a Ocupação, o desenrolar da história na França apontava uma progressiva reconciliação entre a religião e uma opinião pública em larga medida descrente: prova disso é a presença, nos gabinetes do governo, de um partido político tão claramente religioso como o MRP. Por sinal, os anticlericalistas tradicionais deram-se conta da inesperada oportunidade que lhes era oferecida: agora são eles, em Dijon e em outras partes, que passam por defensores do Papai Noel ameaçado. Papai Noel símbolo da irreligião, que paradoxo! Pois nesse episódio, é como se a Igreja adotasse um espírito crítico ávido por franqueza e verdade, enquanto os racionalistas posam de guardiães da superstição. Tal aparente inversão de papéis basta para sugerir que o singelo episódio encobre questões mais profundas. Estamos diante de uma manifestação sintomática de uma acelerada evolução das crenças e dos costumes, primeiro na França, mas certamente também em outros países“, escreve Lévi-Strauss.
O que mudou
O que mudou no Natal, então? Acho que o próprio arrefecimento dessa discussão, para começo de conversa. Fico na dúvida se o crescimento de um neopentecostalismo que transformou o materialismo financeiro ele próprio em um novo “valor cristão” tem a ver com isso, mas parece que estamos cada vez mais confortáveis com a ideia de que é isso aí mesmo, Natal é presente, consumo, peru, trago, uma janela de descompressão em uma realidade de pressão constante. E isso que as imagens que se conhecem de Natal são imagens com classe e raça bastante definidas. Muitos estarão confortáveis em salas de estar pedindo a entrega de gêneros ou mesmo de algo pronto para a ceia natalina, entrega que terá de ser feita por alguém, o número cada vez maior de trabalhadores precarizados que sobrevivem das plataformas como iFood e Rappi.
Além disso, a emergência recente global da extrema direita parece conferir a uma data uma pátina cínica. Você tem um discurso generalizado de paz, amor e generosidade proferido pelas mesmas bocas que espumam contra pobres vagabundos, que defendem que pobre não deveria ter sofá, que acham que o gasto social para que pessoas possam comer no fim do mês é menos produtivo do que o perdão de bilhões de dívidas em impostos para as camadas mais altas. Tento manter a cabeça no lugar e não achar que vivemos um momento pior do que qualquer outro porque sei que isso não é verdade.
Ao mesmo tempo, penso continuamente em como vai influenciar a balança esse elemento aí sim inédito na história, o da tecnologia digital. Não seus donos. Tirando sua ideologia confusa lapidada em leituras de resumos, os tech bros contemporâneos não são tão diferentes de qualquer outro empresário rico e inescrupuloso em qualquer outro período da história recente. O que assusta um pouco é a máquina, literal e simbólica, que eles criaram. Um tempo em que não se sabe mais discernir uma imagem artificial de uma falsa, em que a memória cultural e institucional foi erodida e é recuperada a conta-gotas em videozinhos de TikTok.
Ah, sim, e eu? O que mudou em mim? Bom, ainda que “absolutamente contra a minha vontade”, como certa vez disse Luís Carlos Miéle, imaginando um futuro epitáfio, eu envelheci. Se isso não for o bastante, esperem mais uns anos e vocês entenderão…
Bom Natal, feliz ou não.
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Foto da Capa: Freepik

