Uma cena pavorosa: Comunidade Icauã, zona Oeste da cidade do Recife. Aguinaldo ateou fogo na própria casa, com a mulher, Isabele, e os quatro filhos: Aline, de 7 anos; Adriel, de 4; Aguinaldo, de 3; e Ariel, de 1. Não foi a primeira vez que ele foi violento com ela, porém, esta foi a vez fatal. Segundo uma vizinha, “ela falava o tempo todo ‘eu não aguento mais, mas é porque eu não tenho onde ficar’”. Não era um filme de terror. Era a vida real!
A propósito, Ataulfo Alves, em parceria com Mário Lago, popularizou a expressão “mulher de verdade”, por meio do samba clássico “Ai! Que saudade da Amélia”, de 1942. Na letra da música, Amélia é apresentada como a “mulher de verdade” por manter características de submissão e simplicidade, culturalmente valorizadas. A moça era apresentada como desprovida de vaidade, sem preocupação com nada de material e totalmente devotada ao lar e ao marido provedor. A canção tornou-se um grande sucesso e imortalizou essa descrição específica de mulher no imaginário popular brasileiro, machista e heteronormativo.
Nesse contexto, a mulher de verdade decantada por Alves e Lago é, de fato, a caricatura romantizada de uma pessoa desprezada e sofredora, vivendo sob as ordens do seu senhor e chefe. Não era incomum que os homens, como mostra de sua virilidade, cultivassem casos amorosos fora do casamento, chegando a constituir “lares”. Mesmo assim, havia mulheres que defendiam o “ruim com ele, pior sem ele”. De fato, sem direito à profissão, muitas vezes à escolarização básica, sem condições de garantir o sustento familiar, não havia condições materiais de ruptura com o marido que, de verdade, era seu algoz. Junte-se a isso o imaginário que vinculou o matrimônio diretamente à procriação, relegando às esposas o papel de parideiras. O prazer sexual, o vivenciar as fantasias sexuais e diferenciadas formas de obtenção de orgasmos restavam para “a outra”. Esposas chegavam a gerar dez, doze filhos, sem jamais saber o que era um orgasmo, direito que privilegiava a amante. Enquanto os machos chafurdavam na esbórnia, a mulher devotava-se aos afazeres domésticos.
Recordo, para ilustrar, que, quando nasceu minha primeira filha, alguns colegas perguntavam se ainda desejaríamos mais filhos. Eu, imediatamente, respondia que sim, ao que o interlocutor indagava: “Ah! Vão tentar um homenzinho, né?” A regra era gerar filho homem. Fui brindado com a paternidade de duas filhas e tenho uma netinha. Sou, por isso, imensamente feliz. Tive uma mãe absolutamente guerreira. Convivo com uma esposa maravilhosa, pelo que jamais vacilei quando se tratou de reconhecer o local de grande importância delas em minha vida.
Ainda existe todo um aparato educacional intentando diferenciar a educação dos homens em relação à educação das mulheres. Os primeiros, havidos como ágeis e inteligentes, são instados ao mando; as outras, à obediência. No Brasil, convém destacar, foram naturalizadas a expressão “sexo frágil” e a condição de subalternidade feminina, justificando maltratos, violência doméstica e inferioridade nas atividades laborais, inclusive recebendo sempre um salário aquém daquele pago aos homens. Essa condição de inferioridade e exclusão permeia a cultura brasileira desde sua gênese, pois as estruturas de desigualdade e exclusão social foram profundamente enraizadas desde o período colonial. A colonização portuguesa, recordemos, estabeleceu uma estrutura hierárquica que marginalizava a população indígena e a população negra escravizada, concentrando poder e privilégios nas mãos de uma elite agrária.
As lutas históricas das mulheres e do feminismo por um espaço digno de vida na sociedade alcançaram, todavia, conquistas inquestionáveis, ainda longe de uma vida verdadeiramente digna e de pleno direito. Para seu desencanto, mulheres, sobretudo indígenas e pretas, permanecem invisibilizadas. Pensemos que o Ministério das Mulheres, chamando a atenção para a necessidade do enfrentamento da violência contra as mulheres, informa que, a cada seis horas, uma mulher é vítima de feminicídio, das quais 63% são negras. E mais: 3 em cada 10 brasileiras já foram vítimas de violência doméstica; a cada 6 minutos, uma menina ou mulher sofre violência sexual; a cada 24 horas, 113 casos de importunação sexual são denunciados.
Para reverter o vergonhoso quadro, o Conselho Nacional de Justiça realiza, a partir do dia 20 de novembro de cada ano, desde 1991, a campanha dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, com ações. O movimento do Judiciário inspira-se na ação mundial denominada 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, que se iniciou em 1991, apelidada de “as mariposas”, em homenagem às irmãs Pátria, Minerva e Maria Teresa, assassinadas em 1960 na República Dominicana. Submetidas às mais diversas situações de violência e tortura, dentre elas o estupro, as irmãs foram silenciadas pelo regime ditatorial de Rafael Trujillo, no dia 25 de novembro de 1960.
No Brasil, está cada vez mais visível a escalada de feminicídios e a violência doméstica contra as mulheres, notadamente mulheres negras. A espiral atinge em cheio os ambientes domésticos, as escolas e os ambientes de trabalho, visto que ainda resiste entre nós a falsa ideia da superioridade masculina, cujo escopo parece justificar o machismo. Não há, entretanto, o menor fundamento para esse tipo de comportamento. Nada justifica as atitudes grosseiras e violentas contra as mulheres.
Esclareçamos: de acordo com o G1 (23/11/25), o Brasil enfrenta uma realidade assustadora de violência contra elas, conforme revelam dados inéditos da maior pesquisa nacional de violência contra a mulher. Os números da pesquisa, realizada pelo Instituto DataSenado, por que se entrevistaram cerca de 22 mil brasileiras (21.641) este ano, impressionam: cerca de 71% das violências são testemunhadas por alguém, sejam crianças ou adultos. O coordenador do Instituto DataSenado, Marcos Ruben de Oliveira, ressalta que grande parte dessas testemunhas são os próprios filhos da mulher agredida. Outro dado chocante é que 40% das testemunhas adultas não tomam nenhuma atitude para ajudar no momento da agressão.
Registre-se, por mais uma prova, que, em Pernambuco, a violência contra a mulher revela um alto número de registros, com mais de 35.679 mil casos de violência doméstica e familiar até outubro deste ano, um recorde em 10 anos, de acordo com a Secretaria de Defesa Social (SDS). A delegada Bruna Falcão, do Departamento de Polícia da Mulher, informa que o número alto, no entanto, pode estar subnotificado, ou seja, podem acontecer mais casos de violência contra mulheres, contudo não chegam ao registro dos órgãos oficiais. Acresça-se que a violência contra a mulher pode manifestar-se de diversas formas, não se limitando à violência física. De acordo com a Lei Maria da Penha, os tipos incluem violência física, violência psicológica, violência moral, violência patrimonial e violência sexual.
Incontestável é que as mulheres vivem um filme de terror na vida real, violência crescente, subnotificada, real no entanto. Doloroso é que muitas mulheres não compreendem os espectros de violência que existem, de modo que começar a entender as formas de violência pode ser um início razoável. Falamos de uma naturalidade como que acontece cotidianamente e de maneira cada vez mais assustadora.
Não podemos, por nenhum modo, em qualquer hipótese, alimentar a suposta “insensibilidade” do nosso povo diante de um clamor tão contundente e escandaloso quanto a atos da violência contra a mulher. Somos todos filhos de uma, quase todos somos irmãos e pais de mulheres. Ironicamente, precisamos de leis e campanhas que defendam e preservem a mulher em sua dignidade. Não seria necessário se não nos arvorássemos a donos e senhores dos outros. É, na verdade, um dever ético e moral lutar contra toda forma de violência, especialmente contra as mulheres.
Certo é, afinal, que, como cantaram Rita Lee e Zélia Duncan, “Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão”. Taí o clamor, na voz de Naiara Azevedo: “Ah! Esse amor
deixou marcas no meu corpo… Com você meu coração pede socorro”. Está, pois, na hora de fazermos eco à canção: “Nem toda brasileira é bunda, meu peito não é de silicone. Porque nem toda feiticeira é corcunda. Sou mais macho que muito homem”.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

