Uma das coisas que mais me encanta no universo literário é o contato com outros escritores. Nesses encontros, em que compartilhamos alegrias e angústias, percebo que não estou sozinha nessa travessia tão limitada e, ao mesmo tempo, tão livre. Limitada porque, embora a publicação de livros seja hoje mais democrática, ainda é raro um autor alcançar a visibilidade e o número de leitores que sua obra merece. E livre porque podemos expressar, com palavras, o que está escondido dentro de nós e não conseguimos transmitir senão pela escrita. Gosto de perceber essa mesma entrega em outros autores, seja nas conversas ou na leitura de seus livros. É nesses momentos que encontro o impulso necessário para seguir adiante na minha trajetória, ouvindo e sendo ouvida por aqueles que enfrentam os mesmos encantamentos e desafios e, mesmo assim, continuam firmes em seus propósitos.
No último sábado, vivi uma dessas experiências quando, depois de muitos meses isolada, decidi deixar minha toca e participar da Feira de Livros do Chalé da Praça XV. Não levei livros para vender. Fui movida apenas pelo desejo de rever pessoas queridas, trocar ideias sobre criações, conhecer novos projetos e oferecer minha parceria na divulgação das obras dos colegas. Ao final do evento, voltei para casa carregada de exemplares que havia ganhado e, aproveitando a viagem de quase uma hora até Novo Hamburgo, comecei a folheá-los ainda dentro do trem. Examinei capas, texturas dos papéis, fontes utilizadas. Li pequenos trechos de cada um e, por fim, detive-me na leitura de um livro de poemas.
Escrito por Bete Flor, uma escritora por quem nutro grande admiração desde a primeira vez em que a vi na feira, Mulher, mãe, gari… em versos é um livro curto, mas carregado de profundidade. Lançado em 2024, é a segunda publicação da autora, que decidiu revisitar seus “rabiscos”, como costuma chamar seus escritos, somente depois de se aposentar do trabalho que exercia no Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).
Bete Flor, que trabalhou como gari nas ruas de Porto Alegre entre 1992 e 2020, transformou sua experiência cotidiana em versos. Com uma linguagem simples e delicada, fala da maternidade, da relação com as palavras e com o trabalho. Seus poemas revelam a resiliência diante das dificuldades da vida, denunciando a invisibilidade de uma profissão que, apesar de essencial, nem sempre é vista com a devida importância. Suas palavras, sobretudo, celebram a força de quem, mesmo cansada, encontra poesia na rotina e esperança no amanhecer de cada jornada.
Terminei a leitura ainda no trem, mas, quando cheguei em casa, reli todo o livro, sentindo ainda mais a intensidade de cada verso. Por instantes, quis ter um pouquinho da força dessa mulher batalhadora e apaixonada pela vida. Fechei o livro e fiquei pensando em como a literatura pode nos revelar mundos até então desconhecidos. Foi nesse instante que percebi que o contato com outros escritores, seja nas páginas de um livro ou em uma conversa numa feira, não apenas inspira, mas também fortalece. Cada autor carrega sua história e é nesse gesto partilhado — de escrever, de ler e de se reconhecer no outro — que a literatura cumpre seu papel de nos lembrar que os obstáculos se tornam mais leves quando não caminhamos sozinhos.
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Foto da Capa: Bete Flor / Reprodução do Instagram.

